Processo que levou líder do PT argelino à prisão foi fabricado e evidencia lawfare, afirmam lideranças partidárias

Candidata à presidência da República por três vezes, Luísa Hanune também fazia parte da campanha internacional em defesa da liberdade de Lula

Lucas Estanislau

São Paulo (Brasil)

A prisão de Luísa Hanune, líder do Partido dos Trabalhadores da Argélia, é um "processo fabricado" que evidencia "mais um caso de lawfare no mundo". A afirmação foi feita por Markus Sokol, dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) nesta quinta-feira (03/10) durante coletiva de imprensa realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo, que reuniu lideranças partidárias de esquerda em apoio à liberdade da política argelina.

Hanune, sentenciada a 15 anos de prisão, está presa desde o dia 9 de maio após ser condenada por suposto "atentado contra o Estado". O motivo utilizado para a acusação foi um encontro que Hanune teve no dia 27 de março com Said Bouteflika, então conselheiro do ex-presidente argelino Abdelaziz Bouteflika, durante as massivas manifestações que tomaram o país e exigiram a saída do então mandatário.

Para Sokol, a prisão da líder do PT argelino é tida como um troféu para o atual governo do país, pois Hanune "é uma liderança poderosa, cuja figura poderia se tornar um símbolo da transição iniciada pela marchas populares".

Por sua vez, a secretária estadual de Mulheres do PT de São Paulo, Débora Pereira, destacou que o caso de Hanune encontra muitas similaridades com a prisão do ex-presidente Lula. "Essa escalada autoritária, a tentativa de dar uma legitimidade jurídica a um processo totalmente viciado, repleto de contradições, isso tem muito a ver com nosso país de hoje", disse.

Segundo o Partido dos Trabalhadores da Argélia, Hanune se reuniu com Said Bouteflika para expor suas opiniões sobre a resposta que o governo deveria dar às grandes manifestações populares de então. "O PT lembra o que disse sua secretária-geral naquele encontro: renúncia do presidente Abdelaziz Bouteflika, [que havia governado o país por 20 anos] renúncia do governo, dissolução das duas câmaras do Parlamento e dar palavra ao povo para eleger uma Assembleia Nacional Constituinte", disse o partido em nota.

Parti des Travailleurs - Akabar Ixeddamen/Reprodução
Candidata à presidência da República por três vezes, Hanune também fazia parte da campanha internacional em defesa da liberdade de Lula

Segundo Sokol, diversos aspectos do processo contra Hanune evidenciam o que se chama de lawfare, quando condenações judiciais são usadas para perseguição por motivações políticas. "Luísa foi chamada para depor e, no momento em que ela se senta no tribunal, a TV estatal já noticiava sua prisão. Sem contar que o julgamento foi de portas fechadas e a transcrição do argumento da defesa só foram publicados dias depois", afirma o dirigente.

Para o PT argelino, "Hanune foi condenada para dar o exemplo, para aterrorizar e tentar calar todas as vozes que se opõem ao poder de fato". Após a saída de Boutleflika, Abdelkader Bensalah, ex-presidente do Conselho da Nação, assumiu a presidência de forma interina e com a promessa de convocar eleições. Entretanto, os membros do governo transitório auto-denominado "Conselho Constitucional" foram em sua maioria funcionários da gestão de Bouteflika e, segundo o Partido dos Trabalhadores da Argélia, estariam tentando impedir o surgimento de novas lideranças como Hanune.

Coletiva realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo reuniu lideranças de esquerda em apoio à liberdade de Hanune (Lucas Estanislau)Apoio de Lula

À época da prisão de Hanune, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se solidarizou com a líder do PT argelino e chamou o encarceramento de uma "detenção arbitrária". "Conhecedor de sua trajetória política não tenho dúvidas em me associar aos milhares de cidadãos(ãs) que lutam por sua imediata libertação", disse Lula em comunicado.

Para Sokol, a posição do ex-presidente mostra "que a solidariedade não tem fronteiras". O dirigente petista ainda comparou o processo de Lula com o de Hanune e disse que ambos são "vítimas do lawfare".

"Os processos são parecidos, é uma perseguição judicial. Entretanto, a condição de prisão de Luísa é pior. Ela não pode receber visita médica para administrar seus remédios controlados, não recebe visita de amigos e da família apenas a cada 15 dias. É uma refém do regime", disse.

Candidata à presidência da República por três vezes, Hanune fazia parte da campanha internacional em defesa da liberdade de Lula. A argelina ainda foi deputada por cinco mandatos consecutivos e é uma das coordenadoras do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos.

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