Celso Amorim: Elites bolivianas nunca aceitaram que um índio cocaleiro pudesse ser presidente

Em entrevista exclusiva, ex-ministro das Relações Exteriores disse não ter dúvidas de que o que se passou na Bolívia foi um golpe de Estado: 'Forças Armadas, ao se declararem neutras, forçaram a renúncia de Evo'

Rafael Targino

São Paulo (Brasil)

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim afirmou nesta segunda-feira (11/11), em entrevista exclusiva a Opera Mundi e ao coletivo QuatroVque o racismo e o rancor da elite boliviana, que nunca aceitou um líder indígena cocaleiro, desempenharam um grande papel na queda do presidente Evo Morales, que renunciou neste domingo (10/11) em decorrência de um golpe de Estado. 

“O ressentimento, os rancores e ódios das classes dominantes bolivianas nunca aceitaram que um índio cocaleiro pudesse ser Presidente da República e fazer uma política de distribuição de renda, de benefício para os mais pobres. As elites bolivianas nunca aceitaram que um líder cocaleiro pudesse ser presidente”, disse.

Amorim, que chefiou o Itamaraty nos governos de Itamar Franco (durante o qual ocupou o posto entre 1993 e 1995) e Luiz Inácio Lula da Silva (entre 2003 e 2011), relembrou uma conversa que teve com Morales sobre o assunto. 

“Em 2008, eu visitei a Bolívia, juntamente com o chanceler da Argentina, [Jorge] Taiana, e com o chanceler interino da Colômbia. E o Evo, na conversa particular que tive com ele, que durou muito tempo, falou: ‘querem tumbar el índio’ [querem derrubar o índio]”, contou.


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Na mesma época, Amorim disse que se encontrou com representantes da direita boliviana, e que sentiu  total inflexibilidade por parte deles. “Esse pessoal, encarnado principalmente pelo [Luis Fernando] Camacho, não quer conversa. Dessa vez em que estive na Bolívia, aproveitei também para ter conversas com líderes da direita. Eles são radicalmente contra a ascensão dos índios”, afirmou.

Reprodução
Celso Amorim: não há dúvidas de que o que se passou na Bolívia foi golpe

Golpe

O ex-chanceler disse não haver dúvidas do que o que se passou na Bolívia foi um golpe. “Evo Morales saiu porque houve um movimento com armas, com presença de policiais fortemente armados, e que deixaram também outras pessoas estarem armadas. As próprias Forças Armadas, ao se declararem neutras, na verdade, propiciaram, forçaram a renúncia de Evo”, afirmou.

Segundo Amorim, a atitude dos militares foi “chocante”, já que Morales, após a auditoria da OEA (Organização dos Estados Americanos), chegou a convocar novas eleições.

“O Evo é muito esperto, muito sábio, mas pediu uma auditoria da OEA, o que é ate uma certa ingenuidade, porque mesmo antes de sair [o parecer do órgão], a gente já sabia qual ia ser o resultado. Seja como for, ele pediu, a OEA disse que houve irregularidades - não chegou a dizer que eram suficientes para determinar uma total reviravolta, mas provavelmente poriam em dúvida a vitória no primeiro turno e recomendou então novas eleições. E ele aceitou”, disse.

As afirmações do ex-ministro sobre a Bolívia são um trecho de uma entrevista maior, que será publicada ainda nesta semana em Opera Mundi.

Assista ao primeiro trecho da entrevista de Celso Amorim:


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