Áudio vazado revela intenção da Colômbia de derrubar Maduro: 'ele precisa ir'

Claudia Blum disse que “ajuda humanitária” que a oposição tentou fazer entrar no país (e que o governo afirmou não ser ajuda nenhuma) foi “um fiasco”

O jornal colombiano Publimetro revelou nesta quarta-feira (20/11) um áudio de uma conversa ente o embaixador do país no EUA, Francisco Santos, e a futura ministra de Relações Exteriores, Claudia Blum. Os dois discutem a situação da Venezuela, a qual o embaixador classifica de “um pouco parada”, e reclamam que a CIA “não está se metendo".

Eles deixam claro que é do interesse da Colômbia a saída de Maduro  – caso contrário, tornará “impossível” a “vida da Colômbia. A conversa aconteceu em um restaurante de Washington e teria sido, segundo o Publimetro, gravada por uma terceira pessoa.

Além de falarem sobre a Venezeula, os dois criticaram o ex-chanceler colombiano Carlos Holmes e algumas decisões do presidente Iván Duque.


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“A CIA está ‘pffff’…”

Santos, que é ex-vice-presidente da Colômbia, e Blum discutem o que seria uma “solução” para a Venezuela – e reclamam da “ausência” da CIA (Agência Central de Inteligência) na questão.

Claudia Blum: Pachito, ajude-me a pensar. A solução não é um golpe militar, porque os militares não vão tirá-lo; os Estados Unidos (...) tampouco vão tirá-lo... Diálogo? Pois, o diálogo...

Francisco Santos: Hoje estava falando com um senhor, porque a CIA não está se metendo.

CB: Não, não está se metendo!

FS: A CIA está ‘pffff’…

CB: E agora, em campanha, não se sabe o que o Trump vai fazer...

FS: Se o Trump perceber que as eleições estão muito difíceis, se mete na Venezuela.

CB: Não o vejo assim. Vejo-o muito longe.

FS: Eu, a única [solução] que vejo é com ações encobertas lá dentro, para gerar ruído e apoiar a oposição, que está muito sozinha. 

O chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, se pronunciou e disse que a revelação dos áudios confirma a “ingerência” nos assuntos internos da Venezuela. “Não é o caso de acreditar que a prática diplomática colombiana possa se recompor: vazam conversas em que a nova chanceler se desespera porque não houve golpe na Venezuela”, disse, pelo Twitter.

Inter-American Dialogue
Santos e Blum (esq.): flagrados em conversa sobre Venezuela

Situação política

“A situação política venezuelana está um pouco parada”, disse o embaixador, que afirmou que pretende levar parlamentares europeus à fronteira do país com o propósito de manter sua tese de que há uma “crise” na região. “Cabe a mim inventar coisas para que eles [Estados Unidos] tenham a Venezuela em top of mind. Essa é a tarefa que tenho com a Venezuela”, afirmou Santos.

Santos disse que as coisas, no entanto, podem mudar. “Mas creio que isso vai se mexer. Aqui, havia várias cabeças que manejavam o assunto Venezuela de maneira distinta. O do Tiar, o Departamento de Estado queriam, a Casa Branca não. Não sei em que momento mudou a política na Casa Branca. Mas aqui, todavia, não entram em um acordo. Trump não vai se meter na Venezuela. Mas se este senhor não se for [Nicolás Maduro], a Colômbia não tem futuro. Se esse senhor não se for, vai tornar nossa vida impossível.”

Ajuda humanitária

Durante a conversa, Blum disse que a “ajuda humanitária” que a oposição tentou fazer entrar no país (e que o governo afirmou não ser ajuda nenhuma) foi “um fiasco”.

“As pessoas já não creem, não creem no que o governo [da Colômbia] fez. Essa ajuda humanitária foi um fiasco total. Então, aí há que se pensar numa estratégia. Falei com [o jornal oculta os nomes] e me disseram: ‘Cláudia, a única [solução] é um diálogo, mas um diálogo em que todos caibam.”

Estados Unidos

Na conversa, o embaixador também diz a Blum que o Departamento de Estado dos EUA está “destruído”. A nova chanceler responde que não “vai perder tempo com esse tipo de briga”.

Santos também fez um panorama a Blum (que ainda não tomou posse) e explica o mundo político dos EUA, além de sugerir prioridades frente à chancelaria.

“Eu quero que te conheçam”, diz Santos a Blum, enfatizando a necessidade de ir armando uma agenda estratégica porque Holmes não fez nada enquanto esteve no cargo – pois “não tinha estratégia”.

“Holmes não tinha estratégia no comando da Chancelaria. Além disso, corria e marcava reuniões nos Estados Unidos, mas logo depois as cancelava”, disse Santos.

Santos disse que, apesar das revelações, não renunciaria ao cargo. Blum também disse que mantém a intenção de assumir o cargo de ministra.

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