Bolsonaro viaja à Índia para assinar acordos comerciais e se reunir com 'alma gêmea'

Presidente brasileiro é convidado de honra do primeiro-ministro Narendra Modi nas comemorações do Dia da República

Jair Bolsonaro (sem partido) viaja nesta quinta-feira (23/01) para Nova Delhi, capital da Índia, onde promete assinar entre 10 e 12 acordos comerciais para estimular a cooperação nas áreas de segurança cibernética, saúde e energia. É a primeira viagem internacional do presidente no ano. O encontro bilateral foi confirmado durante a Cúpula dos BRICS, que reuniu representantes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul em novembro de 2019.

O primeiro-ministro indiano Narendra Modi, de extrema direita, é o político com quem Bolsonaro demonstra maior afinidade no bloco, segundo analistas. Na comitiva brasileira, também estão os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Osmar Terra (Cidadania) e Tereza Cristina (Agricultura). Com eles, viajarão representantes do agronegócio, dentre os quais exportadores de feijão, de carne suína e de frango que buscam ampliar seu mercado consumidor.

No sábado (25/01), Bolsonaro se reunirá com Modi e com o presidente Ram Nath Kovind e pretende visitar o Memorial de Mahatma Gandhi, líder dos movimentos pela independência indiana na primeira metade do século 20. No dia 26, o presidente brasileiro participará, como convidado, das comemorações do Dia da República, e em 27 de janeiro se encontrará com empresários locais.


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Com 1,4 bilhão de habitantes, a Índia tem a segunda maior população mundial e é a sétima maior economia do planeta. Em 2019, o Brasil teve um déficit comercial de US$ 1,49 bilhão na relação com o país asiático, o que significa que gastou mais com importações do que arrecadou com exportações. 

Política externa

Na interpretação do professor Fábio Luis Barbosa dos Santos, do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Índia tem um histórico de maior autonomia que o Brasil em suas relações exteriores. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele menciona alguns acontecimentos relevantes do século 20 que alteraram a maneira como o país se relaciona com as grandes potências mundiais.

“Até a metade do século, Índia e China são vistas como países irmãos. Quando ocorre uma rebelião armada no Tibet [região autônoma da China], municiada pela CIA [Agência de Inteligência dos EUA], nos anos 1950, parte da população tibetana encontra refúgio da Índia [país vizinho], e isso acaba sendo crucial para alimentar um antagonismo entre os países”, completa. “Então, a Índia se aproxima da União Soviética, que passa a ter um papel importante, inclusive com provimento militar”.

Segundo o pesquisador, o grau de autonomia da Índia em relação aos Estados Unidos era elevado até o final dos anos 1980, na comparação com países da América Latina, por exemplo. O ponto de virada na política externa e na economia se dá em 1991, quando o governo adere ao neoliberalismo. “Então, passam a ocorrer movimentações no sentido de aproximação com os Estados Unidos. Não é um alinhamento, como no caso do Brasil, mas é uma aproximação importante.”

O professor da Unifesp descreve a Índia como “um grande mercado”, mas ressalta que a aproximação entre o presidente brasileiro e o primeiro-ministro indiano pode ser uma das principais razões da visita.

“Eu vejo uma profunda afinidade entre Modi e Bolsonaro, como se fossem ‘almas gêmeas’. Desde o modo agressivo de falar até os delírios de grandeza, o militarismo, a xenofobia. Eu não descartaria a possibilidade de eles terem ‘se descoberto um ao outro’, como pessoa e como projeto”, afirma.

Principal liderança do nacionalismo hindu, Narendra Modi é acusado de perseguir a comunidade muçulmana, cerca de 15% da população indiana, por meio de restrições legais. Estudantes, mulheres, jornalistas de oposição e membros de castas inferiores também atribuem a Modi a responsabilidade pela escalada de violência, autoritarismo e censura no país nos últimos anos.

Economia

Os principais investimentos indianos no Brasil são no setor de transmissão de energia, agrotóxicos e fabricação de veículos pesados. O Brasil, por sua vez, realiza investimentos em solo indiano nas áreas de motores elétricos, terminais bancários e componentes de veículos pesados. Em 2019, os intercâmbios comerciais totalizaram US$ 7,02 bilhões.

O livro Growth and Inequality: The Contrasting Trajectories of India and Brazil [em português, "Crescimento e desigualdade: as trajetórias contrastantes de Brasil e Índia"], publicado em 2017 em uma parceria entre o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e o Instituto Para o Desenvolvimento Humano de Nova Delhi (IHD), apresenta elementos para um olhar comparativo sobre a economia dos dois países. A pesquisa, realizada pelos brasileiros Alexandre de Freitas Barbosa e Maria Cristina Cacciamali e pelo britânico Gerry Rodgers, examina a desigualdade e o crescimento econômico à luz de disparidades de gênero, região, casta, raça e acesso à educação.

Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro e Modi demonstraram afinidade durante a Cerimônia de Encerramento do Fórum Empresarial do Brics, no Brasil

Professor e pesquisador de História Econômica do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), Barbosa lembra que os dois países registraram crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos anos 2000. A diferença é que o crescimento, no Brasil, levou a uma redução da desigualdade, enquanto que, na Índia, a desigualdade se aprofundou.

“Hoje, a economia brasileira está completamente parada, estagnada, vivendo de soluços, enquanto que a Índia mantém seu crescimento – embora seja um crescimento baseado na desigualdade. Eles estão vivendo uma situação quase que oposta do Brasil, porque, apesar de todas as mudanças na CLT, nosso mercado de trabalho ainda assegura um conjunto de direitos básicos”, pondera. 

Barbosa sublinha que qualquer paralelo entre Brasil e Índia deve considerar diferenças estruturais entre os países: a população indiana é seis vezes maior e cerca de dois terços das ocupações estão na zona rural. Além disso, o trabalho regular formal representa apenas 7% da força de trabalho na Índia – 50% são autônomos e 30% tem empregos “casuais”, uma espécie de trabalho assalariado, precário e instável, semelhante à modalidade de trabalho intermitente prevista na reforma trabalhista de Michel Temer (MDB). No Brasil, em 2019, a taxa de informalidade no mercado de trabalho superou o patamar de 41%, a maior proporção já registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sobre a visita de Bolsonaro a Modi, o pesquisador é taxativo: “A aproximação com a Índia é mera propaganda, sem qualquer embasamento real. O fluxo de comércio entre os dois países é ridículo. O Brasil exporta poucas commodities, como soja e petróleo, enquanto que a Índia vende para o Brasil alguns poucos medicamentos”, analisa. A venda de petróleo bruto representa 35% das exportações brasileiras à Índia em 2019, e a de óleo de soja representa 10%. 

Segundo Barbosa, a subserviência de Bolsonaro a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, impede que haja uma cooperação multilateral como se pretendia no período de fortalecimento dos BRICS, durante o governo Lula (PT), por exemplo. “Pela ausência de uma política externa voltada para o equilíbrio das relações de poder globais, o governo brasileiro vende, como estratégia de marketing, que as duas grandes nações do sul global vão ampliar seus níveis de comércio. Para isso, seria preciso tomar medidas para ampliar o comércio intra-industrial, e não está sendo feito nada nesse sentido”, finaliza. “É uma visita protocolar”.

Protestos

Produtores rurais indianos lançaram, no último final de semana, uma campanha contra a visita de Bolsonaro. A Federação de Produtores de Cana-de-Açúcar da Índia afirma que o governo brasileiro é corrupto e autoritário e acusa o Brasil de tentar derrubar na Organização Mundial do Comércio (OMC) os subsídios concedidos pelo governo indiano, colocando em risco a sobrevivência de milhares de famílias.

O açúcar promete ser um dos temas-chave da visita de Bolsonaro. Este mês, o presidente brasileiro se reuniu com ruralistas do setor e disse que o Brasil estuda meios de apoiar a Índia no fortalecimento de seu programa de etanol, incluindo formas de aumentar a produção do biocombustível e sua mistura com gasolina – o que poderia reduzir estoques de açúcar no país asiático e alavancar os preços do açúcar no mercado internacional. Hoje, a mistura não passa de 7%. O objetivo é chegar a 20% até 2030. 

Em entrevista recente ao Brasil de Fato, o historiador e jornalista indiano Vijay Prashad assinalou que, há cerca de dez anos, uma das prioridades dos BRICS era defender subsídios para medicamentos e para a agricultura, de modo a proteger os produtores. Porém, as pautas se transformaram conforme as mudanças na conjuntura de cada país integrante do bloco.

“O BRICS sempre foi limitado pelo caráter de classe dos governos, e vai continuar assim. Agora que a Índia, o Brasil e a África do Sul estão sendo governados por classes muito próximas dos Estados Unidos, o BRICS vai continuar, mas com a Rússia e a China no outro polo. Isso muda a orientação geopolítica”, analisou.

Sobre as semelhanças entre os governos brasileiro e indiano, Prashad afirmou na ocasião: “Os dois países tiveram jornadas de subdesenvolvimento parecidas. São países muito grandes, dominantes em sua própria região em termos de tamanho e economia. Mas, só porque Bolsonaro é um palhaço e Modi é outro, não significa que sejam iguais. Temos que olhar tanto para a teoria que explica por que eles surgiram – e eu acredito que o motivo é comum – quanto para a natureza específica da história de cada país”.

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