Censurar obra da Bienal por razões políticas é contraditório, diz artista argentino

Censurar obra da Bienal por razões políticas é contraditório, diz artista argentino

Sabrina Duran

O artista plástico argentino Roberto Jacoby, convidado da 29ª Bienal de São Paulo, aponta os curadores e diretores da mostra como os responsáveis pela interdição de sua obra.

Jacob teve uma de suas obras interditadas na exposição sob alegação de uso de bem público – o prédio da bienal, no caso – para fins de propaganda política, o que é proibido pelo artigo 37 da lei 9.504/97, que determina normas para os processos eleitorais.

A obra de Jacoby, intitulada El alma nunca piensa sin imagen (A alma nunca pensa sem imagem), traz uma foto da candidata à presidência Dilma Rousseff, do PT, e do candidato pelo PSDB, José Serra, no que seria uma simulação de campanha política. Também conta com a intervenção de falsos cabos eleitorais. Em um grande painel, Dilma aparece sorridente na foto, enquanto Serra tem cara de poucos amigos. A obra de Jacoby foi tapada nesta quarta-feira (22/9) com papel e poderá não ser vista no próximo sábado, dia 25, quando a exposição será aberta ao público.

Reprodução/Site da Bienal
El alma nunca piensa sin imagen (A alma nunca pensa sem imagem)

Com curadoria de Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, a Bienal desse ano tem como mote a relação intrínseca e indissolúvel entre arte e política. Todas as obras expostas seguem esse fio condutor. Em entrevista ao Opera Mundi, Jacoby contou que é abertamente partidário de Dilma e do PT e que a decisão da barrar seu trabalho contraditória, uma vez que foi a própria Bienal que o convidou e também quem fez a consulta sobre a regularidade à PRE-SP (Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo), para justificar a decisão de censurar a obra.

No pedido de informações enviado à PRE-SP no dia 21 de setembro, a Fundação Bienal argumenta que, “para sua surpresa, ao verificar a montagem da instalação, deparou-se com uma obra representando verdadeira campanha política, cujo espaço reservado àquele artista argentino está sendo utilizado para fazer propaganda eleitoral a favor da candidata Dilma Rousseff à Presidência da República, representando o Partido dos Trabalhadores”.

A surpresa foi, na verdade, do próprio Jacoby. O artista afirma que os organizadores da Bienal conheciam de antemão o conteúdo de sua obra e que o argumento é uma “grande mentira”.

Uma fonte, que não quis se identificar, afirmou ao Opera Mundi que a denúncia teria sido motivada pela pressão de alguns patrocinadores do evento – a fonte não informou quais – sobre os diretores e curadores da mostra.

O pedido de informações foi reencaminhada pela PRE-SP à Procuradoria Geral Eleitoral, que cuida dos casos relacionados à eleição presidencial. Segundo a assessoria da PRE-SP, a Procuradoria Geral Eleitoral deve analisar a questão e tomar as providências cabíveis. Procurada pela reportagem para falar sobre o assunto, a Bienal disse que nenhum responsável pela mostra se pronunciaria.

O artista argentino foi convidado também para a parte histórica da Bienal, que tem um trabalho coletivo que ocupa uma parede das paredes do segundo andar do prédio.

Leia a entrevista exclusiva de Roberto Jacoby ao Opera Mundi:

O mote dessa Bienal é a relação intrínseca entre política e arte. Como o  senhor avalia a decisão de censurar sua obra por uma razão política?
É uma coisa dúbia. A Bienal me convidou, enviamos nosso projeto e eles aprovaram, tanto é que a mesma foto que agora foi censurada está no catálogo da exposição. O que eles vão fazer? Vão tirar a foto do catálogo?

(Para acessar o catálogo, disponível no site da Bienal, clique aqui.
No texto de divulgação, que não foi alterado após a decisão, a obra é classificada como uma oportunidade de debate: "Em ano de eleições presidenciais brasileiras, a obra torna-se uma oportunidade de reflexão, embora sempre indireta e ficcional, sobre as formas de propaganda partidária".)

Como o senhor se sentiu com a decisão?
Não me ofendi, mas fiquei preocupado, não por mim, mas pela Bienal e pela arte contemporânea. A censura não me ofende, mas me preocupa a ideia que [os curadores] têm de arte. Por que fazer uma exposição sobre arte e política? Que fizessem então uma de arte e decoração de interiores. Falem de outra coisa, de arte e dinheiro, arte e narcotráfico, mas não de arte e política. Queremos é que os curadores calem a boca e que não falem mais do que não lhes interessa e do que não sabem.

Então eles já conheciam o conteúdo da obra?
Sim, mas agora estão dizendo que foi uma surpresa. Isso é uma grande mentira. É só olhar o catálogo. E a pior coisa é que não foi a Justiça que nos proibiu, não foi a Procuradoria (Regional Eleitoral em São Paulo), mas a Bienal, que me convidou e que disse estar muito honrada por me ter aqui. Foi ela que fez a denúncia à Procuradoria.

O que fizeram com sua obra na exposição?
Taparam-na toda com papel.


O sr. crê que o público iria entendê-la como arte e não como propaganda política?
O que está em uma Bienal é arte. Na Bienal há pedaços de ferro, de terra, cimento, parede velha e ninguém diz que isso não é arte. E por que [minha obra] não vai ser arte? A arte contemporânea se caracteriza por quebrar limites, ela não está confinada. Se não há o debate não existe a arte contemporânea.

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