"Durante muito tempo me senti abandonada pela Colômbia", diz Ingrid Betancourt

"Durante muito tempo me senti abandonada pela Colômbia", diz Ingrid Betancourt

Daniella Cambaúva

À primeira vista, é difícil imaginar que a franco-colombiana Ingrid Betancourt esteve presa por seis anos e quatro meses na selva colombiana em poder das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em entrevista exclusiva ao Opera Mundi, Ingrid se mostrou completamente diferente da mulher que há três anos ficou conhecida em vídeo gravado no cativeiro, onde aparecia com olhos cansados, pele castigada pelo sol e longos cabelos negros. A pele lisa, cabelos e unhas bem tratados e a elegância em gestos e roupas mostram uma nova mulher.

Ingrid foi sequestrada em 23 de fevereiro de 2002 quando era candidata à presidência da Colômbia. Ela, a assessora Clara Rojas e jornalistas foram abordados pelos guerrilheiros quando viajavam para San Vicente del Caguán, no sul do país, uma região que o então presidente Andrés Pastrana (1998-2002) havia liberado de operações militares com o intuito de negociar com as FARC.

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Oito anos depois do fatídico dia, a ex-senadora desembarca em São Paulo para divulgar seu livro Não há silêncio que não termine, recém-lançado pela editora Companhia das Letras – um relato sobre a experiência de ter sido refém de uma das maiores guerrilhas da América Latina.

Com tranquilidade e olhar sereno, Ingrid conta que começou a escrever o livro em fevereiro de 2009 e o concluiu um ano e oito meses depois. Segundo ela, uma tarefa necessária para superar as dificuldades que enfrentou na selva.

“Queria compartilhar, contar o que havia acontecido durante todos esses anos. E a escrita foi um caminho. Havia a necessidade de dar um significado a tudo que vivi e senti também a responsabilidade de dar um depoimento”, disse nesta quarta-feira (3/11).

Ingrid foi libertada em 2 de julho de 2008 pela Operação Jaque, orquestrada pelo exército nacional, então coordenado por Juan Manuel Santos, atual presidente da Colômbia e ministro da Defesa na época. Ela e mais 14 reféns foram soltos sem que um tiro sequer fosse disparado. A estratégia: os militares fingiram ser integrantes da Cruz Vermelha.

Apesar do êxito, a operação também foi criticada por ter invadido o espaço aéreo brasileiro. Posteriormente, o presidente Álvaro Uribe (2002-2010) pediu desculpas publicamente pelo uso do emblema da organização humanitária nos helicópteros. “Para mim, a Operação Jaque foi impecável. Criaram condições para não colocar em risco a vida dos sequestrados. Chegaram sem armas. Enganaram [os guerrilheiros], mas 15 vidas foram salvas”, ressaltou.

Indenização

Por se sentir prejudicada pelos anos de sequestro, Ingrid pediu em julho desse ano uma indenização ao Estado pelas perdas econômicas e danos morais. Após quinze dias e inúmeras críticas, ela desistiu do processo. Ainda assim, insiste que se sentiu abandonada não apenas pelo presidente Uribe, mas também por todo o país.

“Por muitos anos me senti abandonada. Não só pelo governo, mas por toda a população colombiana. Ninguém falava dos sequestrados. Havia também muito cinismo, pessoas em liberdade dizendo 'sim, precisamos sacrificar as pessoas que estão nas mãos das FARC', como se fala em coquetéis, sem nenhum tipo de sentimento por aqueles que estão naquela situação”, afirmou.

Afastamento da política

A trajetória política de Ingrid é extensa. Filha de uma tradicional família colombiana, educada na Europa, a cientista política foi em 1994 eleita deputada pelo Partido Liberal Colombiano, de centro-esquerda. Em 1998, com um discurso de combate à corrupção e de preservação ambiental, fundou o partido Oxigênio Verde. No mesmo ano, candidatou-se ao Senado e foi eleita com mais de 150 mil votos, recorde naquela eleição. Porém, quando o assunto são as futuras candidaturas, Ingrid é enfática: voltar à política não está em seus planos.

“Não me sinto mais atraída pela política”, disse, transparecendo a decepção que carrega. Apesar da falta de apreço pelas discussões políticas, não deixa de comentar uma das principais questões da Colômbia atualmente, o conflito entre guerrilha e governo.

“Um acordo entre o governo e as FARC seria a melhor solução, mas não sei se as FARC estão dispostas. O governo sim, Santos já sinalizou, porém, [os guerrilheiros] estão marcados com o tráfico de drogas e não vejo neles qualquer reflexão política para negociar”, afirmou.

Mesmo defendendo o diálogo como solução, Ingrid hesita em se posicionar diante do recente afastamento da senadora Piedad Córdoba do Congresso, sob acusação de envolvimento com as FARC. Uma das principais figuras da mediação do conflito colombiano, Piedad participou da libertação unilateral de 12 sequestrados nos últimos anos.  “Não. Não sei o que pensar sobre o assunto”, respondeu após um longo silêncio. Piedad deverá ficar afastada do cargo por 18 anos.

Relação com a Colômbia

Atualmente, Ingrid trabalha na Fundação Ingrid Betancourt pela Liberdad, que busca ajudar famílias de sequestrados pelas FARC. Ela vive entre Paris, onde mora o filho Lorenzo, e Nova York, com a filha Melanie. Ingrid revela a vontade de se estabelecer em algum lugar, porém, a Colômbia está fora de cogitação.

“Por enquanto, não quero viver na Colômbia. Minha relação com o país vem se deteriorando, não somente pelo sequestro, mas também pelo pós-sequestro. São muitos pesadelos. A memória existe, lembrar é fácil, mas as emoções que vêm junto... é tudo muito difícil”, conclui a ex-senadora.



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