Leia trechos da entrevista de Bento XVI sobre temas polêmicos

Leia trechos da entrevista de Bento XVI sobre temas polêmicos

Redação

O papa Bento XVI, que reconheceu a validade da camisinha para ajudar a reduzir o risco de contaminação pelo vírus da AIDS, abordou também outros temas polêmicos nos quais a Igreja Católica está envolvida, como a intolerância religiosa, a relação com o islamismo, o combate às drogas, a proibição da burca e a suposta omissão do papa Pio XII (1939-1958) sobre o massacre de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

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As declarações fazem parte de um livro em formato de entrevista que será lançado na próxima terça-feira (23/11) na Alemanha, país natal do papa. O depoimento foi concedido a um conterrâneo de Joseph Ratzinger, o jornalista Peter Seewald, em mais de 20 horas de conversa.

Leia abaixo alguns trechos do livro, divulgados neste sábado (20/11) pelo jornal católico L'Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano.


Sexualidade e camisinha
 
Concentrar-se só no preservativo quer dizer banalizar a sexualidade, e esta banalização representa justamente a perigosa razão pela qual tantas e tantas pessoas não veem mais na sexualidade a expressão do amor, mas apenas uma espécie de droga, a ser ingerida. Por isso também que a luta contra a banalização da sexualidade é parte do grande esforço a fim de que a sexualidade seja valorizada positivamente e possa exercitar o seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidade.

Pode haver alguns casos justificados, por exemplo quando uma prostituta utiliza um preservativo, e este pode ser o primeiro passo rumo a uma moralização, um primeiro ato de responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do fato de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo aquilo que se quer. Entretanto, este não é o modo verdadeiro e próprio para vencer a infecção por HIV. É realmente necessária uma humanização da sexualidade.
 
Islamismo e tolerância

Os cristãos são tolerantes e, enquanto tais, permitem também que os outros tenham suas compreensões peculiares de si. Alegramo-nos com o fato de que nos países do Golfo Pérsico (Catar, Abu Dabi, Dubai, Kuwait) existam igrejas nas quais os cristãos podem celebrar a missa e esperamos que assim seja em todos os lugares. Por isso, é natural que também entre nós os muçulmanos possam reunir-se para orar nas mesquitas.

Quanto à burca, não vejo razão para uma proibição generalizada. Diz-se que algumas mulheres não a usam voluntariamente, mas que, na realidade, são uma espécie de violência imposta a elas. É claro que com isso não se pode estar de acordo. Se, porém, quiserem endossá-la voluntariamente, não vejo por que se deva impedir isso.

Drogas
 
Muitos bispos, sobretudo aqueles da América Latina, me dizem que onde passa a estrada do cultivo e do comércio da droga - e isto advém em grande parte desses países - é como se um animal monstruoso e mau estendesse a sua mão sobre aqueles países para arruinar as pessoas. Creio que essa serpente do comércio e do consumo da droga que engole o mundo é um poder do qual nem sempre conseguimos fazer uma ideia adequada. Ele destrói os jovens, destrói as famílias, leva à violência e ameaça o futuro de todas as nações.

Esta também é uma terrível responsabilidade do Ocidente:  há demanda por drogas e, assim, surgem países que fornecem aquilo que depois acabará por consumi-los e destruí-los. É uma espécie de fome de felicidade que não consegue saciar-se com aquilo que se tem; e que depois se refugia, por assim dizer, no paraíso do diabo e destrói completamente o homem.

A Igreja e o Holocausto

Pio XII fez todo o possível para salvar as pessoas. Naturalmente, sempre se pode perguntar: "Por que não protestou de maneira mais explícita"? Creio que ele tinha consciência de quais seriam as consequências de um protesto público. Sabemos que, por conta dessa questão, pessoalmente, ele sofreu muito. Sabia que deveria falar, mas a situação o impedia.

Agora, pessoas mais razoáveis admitem que Pio XII salvou muitas vidas, mas argumentam que tinha ideias antiquadas sobre os judeus e que não estava à altura do Concílio Vaticano II. O problema, entretanto, não é esse. O importante é aquilo que fez e aquilo que procurou fazer, e acho que falta realmente reconhecer que ele foi um dos grandes justos e que, como nenhum outro, salvou tantos e tantos judeus.

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