A cena é mais do que curiosa, ela representa a batalha vivida entre agricultores e a sociedade civil sobre o uso de agrotóxicos na França. A bordo de centenas de tratores, produtores rurais desembarcaram em Paris, nesta quarta-feira (08/02), para uma manifestação que denuncia restrições no uso de pesticidas nas lavouras, além de outras obrigações que pesam sobre o setor.
A FNSEA, a mais importante federação agrícola francesa, estima que “cerca de 500 tratores e mais de 2.000 agricultores” participaram de uma manifestação na zona sudoeste da capital até a Esplanada dos Inválidos, no centro da cidade.
“Temos cada vez mais interdições nas nossas plantações e cada vez menos soluções para produzir”, lamenta em entrevista à RFI Guillaume Wullens, presidente da Confederação dos plantadores de beterraba (CGB) da região de Pas-de-Calais (norte). “O impacto dessa decisão sobre a cultura da beterraba é um exemplo de como a agricultura francesa se vê diante de um impasse, com grande risco de perda de rendimento”, alerta, estimando em “até 30% de perdas na produção de beterraba”.
O estopim do descontentamento foi a decisão do governo francês, em 23 de janeiro, de renunciar à autorização de inseticidas neonicotinoides para o cultivo de beterraba-sacarina, após uma decisão do tribunal de Justiça da União Europeia que considera ilegal qualquer exceção em relação a esses produtos.
A Comissão Europeia adotou nesta quinta-feira (08/02) regras que reduzem os limites autorizados para a presença residual em alimentos, inclusive importados, de dois neonicotinoides, moléculas que aceleram o declínio das colônias de abelhas e cuja pulverização já é proibida na UE. O inseticida é amplamente utilizado no Brasil.
Proibidos desde 2018, os neonicotinoides vinham sendo usados de forma excepcional havia dois anos. Isso permitiu que fossem aplicados preventivamente em sementes de beterraba para evitar a icterícia, uma doença viral transmitida por pulgões.
“Vai provocar duas coisas: perda de rendimento e o desinteresse dos agricultores sobre essa cultura, o que pode resultar em mais importação de açúcar, enquanto sabemos muito bem produzir na França”, diz Wullens.

Twitter/La FNSEA
FNSEA, mais importante federação agrícola francesa, estima que "cerca de 500 tratores e mais de 2.000 agricultores" participam do protesto
O produtor de beterraba justifica que o uso desse tipo de agrotóxico já foi amplamente abandonado na França devido às exigências governamentais, citando como exemplo o cultivo do trigo. “A sua utilização na beterraba não significa mais do que 5% do que se usava até agora. Ou seja, já diminuímos em 95%”, alega.
Os produtores de beterraba destacam que “a agricultura francesa precisa de muita pesquisa e que o tempo agrícola é mais longo do que a política”. Eles acrescentam que os agricultores já sofrem com o aumento do preço dos combustíveis e se sentem “incompreendidos pela sociedade civil”. “Se querem continuar a comprar produtos franceses, tem que dar condições de produzir”, finaliza.
“Como usuário de neonicotinoides, não sinto que estou envenenando o mundo”, disse, irritado, Damien Greffin, outro produtor e ativista sindical presente ao protesto. “Nesse ritmo, a agricultura vai desaparecer”, destaca, referindo-se à proibição do inseticida “fosmete”, usado contra as moscas que atacam cerejeiras e que, segundo ele, “compromete” o cultivo de cerejas, ou ainda o uso de herbicidas nos canteiros de endívias.
“Queremos mostrar ao governo que os meios de produção não podem ser banidos sem alternativa”, acrescentou, por sua vez, outro agricultor, Cyril Milard.
A Confederação Camponesa, terceiro sindicato do setor na França, não aderiu ao protesto. Em nota, lamentou a rejeição de “qualquer avanço ecológico”. “A ambição de progresso social enfrenta as posições mais reacionárias e conservadoras”, destacou a organização, considerada de esquerda.
A ONG ambiental Gerações Futuras lembrou que os neonicotinoides são “mais tóxicos do que o temido inseticida DDT”, proibido na década de 1970. A entidade denuncia práticas “dignas da agricultura dos anos 1960, não dos anos 2020”.
O ministro francês da Agricultura, Marc Fesneau, recebeu uma delegação de manifestantes para falar sobre “o futuro dos setores agrícolas”, segundo uma nota à imprensa. Ele apresentará quinta-feira (09/02) “um plano de ação e apoio em resposta à decisão europeia” de proibir qualquer derrogação sobre o uso dos neonicotinoides.
A União Europeia é criticada por ter proibido os neonicotinoides em seu território, mas continuar exportando para outros países. O Brasil é o principal destino de mais da metade dos registros de exportações desses agrotóxicos da UE, de acordo com dados da Agência Europeia das Substâncias Químicas.