Falta de planejamento e preconceito precarizam condições de vida dos ciganos na Itália

Falta de planejamento e preconceito precarizam condições de vida dos ciganos na Itália

Graziano Graziani

O incêndio que, no dia 6 de fevereiro, consumiu a vida de quatro crianças ciganas da etnia rom, na Itália, ocorreu em um acampamento situado junto à via da Appia Nuova, onde se encontram algumas das ruínas mais evocativas da Roma imperial. A morte de Raul, Fernando, Patrizia e Sebastian – o mais novo tinha quatro anos, o mais velho 11 – é uma das maiores tragédias que já atingiram a população cigana na Itália, mas não a única.

Em agosto de 2010, também em Roma, um menino de três anos morreu por causa de um incêndio e seu irmão ficou gravemente ferido; alguns meses antes, em Milão, um garoto de 13 anos foi morto pelo mesmo motivo. Um dia depois da tragédia, durante as homenagens prestadas aos falecidos, o Presidente da República Giorgio Napolitano fez uma importante declaração: os habitantes dos acampamentos serão transferidos para “habitações estáveis e seguras”.

O prefeito de Roma, Gianni Alemanno, que estava com ele, defende porém uma política diferente, que lida com o tema dos acampamentos nômades como uma emergência perene, a ser encarada como uma questão de política pública. Em 2008, a política romana voltada para esses acampamentos sofreu uma reviravolta autoritária, devido a um caso de homicídio de uma mulher por um romeno – em um primeiro momento, suspeitou-se dos ciganos.

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Na ocasião, o então candidato Alemanno esbravejou contra os campos nômades, prometendo uma política de punho de ferro. E acabou eleito. A realidade, entretanto, foi um pouco diferente. Diferente de seu predecessor de esquerda Walter Veltroni, Alemanno obteve 30 milhões de euros do governo central destinados para lidar com a questão, sem fazer grandes mudanças.

A grande diferença é que, se a administração Veltroni concebia os acampamentos como um momento de transição para habitações futuras, a administração de Alemanno se refere a eles como solução final. O objetivo passou a ser a concentração de pessoas com base na suposta ligação à etnia rom. Do dinheiro recebido para a emergência, dois terços (20 milhões de euros) foram gastos para instalar telecâmeras de vigilância nos acampamentos, pagar vigilantes armados e desocupar áreas. Tudo acompanhado com grande furor midiático. Afinal, com a questão dos ciganos “controlada” em Roma, as próximas eleições estariam ganhas.

As associações que se ocupam das políticas de imigração, como a ARCI, ou que trabalham nos acampamentos nômades em Roma, como a Topica, fazem notar que se trata de uma política duplamente errada. A começar pelo nome, o chamado “Plano Nômade”. Essa política pressupõe que os ciganos sejam todos nômades e queiram viver nos acampamentos em razão das tradições.

Na realidade, os ciganos estão assentados desde 1946. Noventa por cento dos 10 mil habitantes dos barracos nasceram e cresceram em habitações normais, e conheceram a experiência dos acampamentos nômades apenas na Itália. O fato de tratar o problema dos acampamentos de forma emergencial, através da Defesa Civil e da Cruz Vermelha, torna as condições de vida nos acampamentos similares às de um cárcere.

Os despejos forçados e as demolições dos acampamentos ocorridos em 2009 não ofereceram às famílias uma alternativa habitacional. Também criaram o fenômeno dos micro acampamentos, com as famílias que passaram a procurar um lugar qualquer onde encontrar refúgio. O acampamento de Tor Fiscale, onde morreram Raul, Fernando, Patrizia e Sebastian, era uma dessas localidades.

A comunidade cigana lamentou o fato que nenhum de seus expoentes ter sido consultado para elaborar o plano nômade. Nazzareno Guarnieri, cigano italiano, lembrou que, em Abruzzo, onde vive, os acampamentos foram superados graças a projetos autogerenciáveis da mesma comunidade cigana, que hoje naquela região vive inteiramente nas casas e apresenta uma alta taxa de escolaridade.

Impasse

No entanto, ninguém parece interessado em saber quais são as necessidades e os problemas da comunidade. As associações insistem que a verdadeira solução seria um plano de construção popular não somente para os ciganos, mas também para cidadãos romanos com problemas de moradia por aluguel. Entretanto, falar de aluguel em Roma é interferir nos interesses que vinculam o setor imobiliário à política.

Alemanno pediu ao governo mais poderes, ainda que, graças ao regime de emergência, estes poderes estão há dois anos nas mãos do prefeito. Declarou também que outros 30 milhões de euros são necessários para resolver o problema. Segundo a oposição, o pedido de novo financiamento serve para encobrir o fato que Roma gastou aqueles precedentes somente para obter um impacto midiático, porque as pessoas despejadas dos campos destruídos estão em grande parte concentradas em outros acampamentos, piorando as condições de vida.

A direção da Defesa Civil, chamada para lidar com a emergência embora não tenha experiência nos assentamentos ciganos, está próxima do partido de Berlusconi, do qual Alemmano faz parte. Mas o dinheiro para uma emergência que não tem fim é cobiçado por muitos. Guarnieri sublinhou que nos últimos anos triplicaram as associações que se ocupam dos ciganos, conscientes do fato que um Plano Nômade, que concebe os acampamentos como única saída, não resolverá o problema. A única solução são projetos de autogestão e inclusão habitacional, que, entre outras questões, custam muito menos.

Tratam-se de projetos de “acompanhamento do aluguel”, porque um dos problemas que os ciganos encontram nas grandes cidades é que, ainda que tenham condições de pagar uma casa, normalmente os condôminos não os querem em seu prédio. Mas, depois da campanha de ódio travada pela administração de Alemanno para os habitantes dos acampamentos, este tornou-se um objetivo ainda mais difícil de ser atingido.

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