Na Irlanda, megaleilão expõe falência do mercado imobiliário

Na Irlanda, megaleilão expõe falência do mercado imobiliário

Ernani Lemos e Juliana Yonezawa

O fim de fevereiro marca o início do décimo mês de ansiedade para a família de Z.A. Desde maio de 2010, a irlandesa de 41 anos tenta, sem sucesso, vender a casa que possui no condado de Wicklow, uma região montanhosa ao sul da capital Dublin. A propriedade chegou a valer quase 700 mil euros (cerca de 1,5 milhões de reais) nos anos do boom econômico da Irlanda e agora está à venda por apenas 400 mil. Ainda assim, não há interessados. Ou melhor, há quem se interesse, mas são poucos os que têm dinheiro para comprar.

Os bancos irlandeses, que no pico do crescimento da economia chegaram a conceder empréstimos de até 100% dos valores dos imóveis,  bateram às portas da falência no ano passado e só não entraram de vez no buraco graças a um resgate bilionário que receberam do governo, com recursos do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional.

Ernani Lemos/Opera Mundi

Na Irlanda, anúncios de venda de imóveis e propaganda de candidatos dividem o mesmo espaço

Sem os financiamentos bancários, o antes próspero mercado imobiliário da Irlanda estagnou e começou a entrar em colapso. Um dos maiores efeitos pode ser sentido no início desta semana, com o anúncio de um leilão para o mês de abril, que será o primeiro de propriedades desvalorizadas do país.

A notícia animou os compradores, mas muitos vendedores só querem mesmo se livrar de um problema. "Os lances iniciais podem chegar a menos de 30% do que os imóveis chegaram a valer no auge do boom", revelou ao Opera Mundi Stephen McCarthy, da Space4U, uma parceira da empresa britânica que vai comandar o leilão, a Allsop. "Desde que divulgou o comunicado sobre o evento, o escritório da Allsop em Londres recebeu ligações de interessados dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Dubai. Temos certeza de que esse leilão vai agilizar a recuperação do mercado", afirmou.

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O economista Ronan Lyons, que trabalha para o portal imobiliário daft.ie, também está otimista: "Este leilão poderá ser bem sucedido se o preço inicial de venda for baixo o bastante. Os compradores potenciais esperam descontos de pelo menos 50% do valor máximo atingido pelo imóveis, então os números precisam estar suficientemente baixos para atrair interesse."

Muitas das propriedades que serão leiloadas em abril estão sob curadoria de bancos. Os imóveis antes pertenciam a clientes que não conseguiram mais pagar os financiamentos. Z.A. tem medo de entrar em breve para esta lista de inadimplentes despejados, caso não consiga achar logo um comprador para a casa em que mora com o marido e com os três filhos. “Recebi uma ligação da imobiliária há poucos dias, sugerindo que nós baixássemos ainda mais o preço. Eles dizem que o valor é alto, mas eu paguei muito mais.”, desabafou.

A desempregada ainda tem mais da metade do financiamento do imóvel para pagar. Isso quer dizer que, se vender a propriedade por 400 mil euros (cerca de um milhão de reais), terá que usar quase todo o dinheiro para acertar as contas com o banco.

Ernani Lemos/Opera Mundi

McCarthy, da Space4U e Murphy, da Allsop Space’s no centro de Dublin após o anúncio do leilão

Cronologia da crise

O crescimento do país na primeira década de 2000 baseou-se no mercado imobiliário, quando os irlandeses construíram, compraram e exibiram com orgulho as novas propriedades. Hoje o assunto é praticamente um tabu social. Não se fala abertamente sobre financiamentos, dívidas e despejo. A crise financeira não tem rosto.

Z.A. e o marido vivem com o dinheiro que recebem da segurança social. Uma das filhas trabalha como vendedora em uma loja e ajuda a complementar a renda familiar. Junto, o dinheiro que os três recebem é suficiente para as despesas básicas com alimentação, transporte, saúde e lazer. É um padrão que ainda pode ser comparado ao da classe média brasileira. “Mas é simplesmente impossível pagar a dívida bancária com o que recebemos", disse Z.A.

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Uma rápida caminhada por qualquer quarteirão de Dublin é suficiente para notar dezenas de placas de venda na frente das elegantes casas de estilo georgiano. Algumas estão no mesmo local há vários meses. O problema econômico desencadeou uma crise política, que culminou com a dissolução do parlamento e a convocação antecipada de eleições gerais, realizada nesta sexta-feira (25/02). Ironicamente, agora é possível encontrar anúncios de venda de imóveis e de propaganda de candidatos dividindo o mesmo espaço em muros e grades residenciais da capital.

As imobiliárias acumulam propriedades para vender. Com a oferta excedendo em muito a demanda do mercado, a opção foi diminuir a comissão pelas negociações. Isso fez cair consideravelmente o lucro das empresas que negociam imóveis, já que os preços das casas também estão bem abaixo do nível que sustentavam há pouco mais de um ano.

Gary Murphy, da Allsop, espera que o leilão de propriedades desvalorizadas seja o início da recuperação da confiança do mercado. O evento está marcado para o dia 15 de abril. Cerca de 80 propriedades estarão disponíveis para os investidores. O catálogo com os imóveis à venda só será disponibilizado em 5 de março. A casa de Z.A. não estará na lista. Mas a desempregada deve diminuir novamente o valor da oferta pela residência em Wicklow e espera achar um comprador antes mesmo que seja batido o martelo pela primeira vez no leilão.



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