Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Segundo o jornal Pagina12, a nomeação de Carlos Alberto Presti, filho de um torturador da ditadura, como novo ministro da Defesa da Argentina reflete “o ciclo completo” das Forças Armadas argentinas na destruição de documentos prova de crimes contra a humanidade cometidos no período militar.

Em texto publicado nesta quarta-feira (26/11), o periódico afirma que Presti, que substitui Luis Petri no cargo — por ter sido eleito deputado no pleito legislativo de 26 de outubro — “manterá seu status militar, rompendo com uma tradição de mais de 40 anos que busca a desmilitarização da defesa e o caráter apartidário das Forças Armadas”.

O Pagina12 também lembrou que o novo ministro do governo de Javier Milei é “filho de Roque Presti, que, como comandante do 7º Regimento de Infantaria em La Plata, foi responsável por sequestros e desaparecimentos durante os primeiros anos da ditadura”.

Segundo o jornal, a nomeação e a promoção da defesa das Forças Armadas pelo governo nacional” ocorrem em um momento em que o sistema Judiciário da Argentina investiga autoridades militares “por ordenar a destruição de documentos que poderiam servir como prova em casos de crimes contra a humanidade”.

A publicação lembra que, no início de novembro, Félix Pablo Crous, chefe da Unidade de Assistência a Casos de Violações de Direitos Humanos durante o Terrorismo de Estado da Procuradoria-Geral da República (UAVDDHH) denunciou o vice-almirante Juan Carlos Coré, diretor-geral do Estado-Maior da Marinha do país.

A denúncia afirmou que Coré “assinou uma mensagem naval confidencial ordenando a transferência do Arquivo Geral da Marinha (AGA) do bairro de San Telmo para um local conhecido como Oficina Central”. Além da transferência de localidade, a mensagem estipulava que “a partir de 10 de fevereiro, as informações seriam destruídas”.

O Pagina12 resgatou as denúncias da Associação de Arquivistas do Serviço Público Argentino (AFPA). No site da organização, está disponível uma entrevista de Mariana Nazar, membro do Conselho Diretor da AFPA à emissora argentina Barricada TV.

Na ocasião, março de 2025, Nazar afirma que a AFPA denunciou a medida da Marinha em transferir o arquivo, explicando que “para eliminar documentação pública, é necessário um protocolo de ação completo que inclua consulta ao Arquivo Geral da Nação, identificação das séries documentais, elaboração de atas, atribuição de responsabilidades, assinatura de alguém em um termo de “isto será destruído” e justificativas para a destruição”, e não apenas uma mensagem, como a de Coré.

Presidente da Argentina, Javier Milei, e novo ministro da Defesa, Carlos Alberto Presti
Ministério da Defesa da Argentina

Assim, a medida de Coré foi suspensa por ordem judicial em fevereiro de 2025. Segundo o Pagina12, a medida foi prescrita pela juíza Alicia Vence, de San Martín. Posteriormente, decisões semelhantes foram tomadas por juízes em La Plata, Mar del Plata, Bahía Blanca e na capital Buenos Aires.

Com base nisso, Crous acusou Coré de “negligência no cumprimento do dever — visto que sua decisão violou normas internas relativas ao manuseio de arquivos — e de tentativa de destruição de provas”.

Assim, foi iniciada a investigação pelo procurador Ramiro González e o caso está sendo conduzido pelo juiz federal Daniel Rafecas, que preside o maior caso de crimes contra a humanidade na Cidade de Buenos Aires, segundo o Pagina12.

Crous acusou Coré com base em uma prática de intenção de destruir documentos oficiais ou práticas semelhantes. Segundo o chefe da UAVDDHH, em fevereiro de 2024, o subsecretário de Defesa Civil e Proteção Humanitária, Guillermo Madero, se recusou a enviar a documentação que a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi) – responsável pela busca de bebês roubados durante a ditadura – estava solicitando ao Ministério da Defesa.

Em 26 de maio de 2024, a própria ministra da Segurança, Patricia Bullrich, também se recusou a cooperar com a Conadi por considerá-la uma “organização militante”, citou o jornal argentino.

Em 2 de julho de 2024, o ex-ministro da Defesa, Luis Petri, formalizou a resolução para eliminar equipes de levantamento e análise que trabalhavam com os arquivos das Forças Armadas para contribuir com investigações de casos de crimes contra a humanidade.

Já em 13 de agosto de 2024, o próprio presidente Milei eliminou, com a aprovação de um decreto, a Unidade Especial de Investigação (UEI), que funcionava dentro da Conadi.

Em meio de 2025, o mandatário de extrema direita “rebaixou a Secretaria Nacional de Direitos Humanos à categoria de subsecretaria, reduziu o status do Arquivo Nacional da Memória (ANM), que abriga o acervo documental da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), e do Museu do Sítio ESMA”, lembrou o Pagina12.

Crous avaliou que tais decisões “foram o prelúdio da mensagem” de Coré ordenando a destruição dos arquivos.

“Da mesma forma, a esterilização do Arquivo Nacional da Memória poucos meses depois da tentativa frustrada de eliminar os documentos mantidos no Arquivo Geral da Marinha apenas demonstra o esforço persistente e coordenado para obstruir a preservação de provas dos crimes cometidos durante a ditadura, cujos mais altos funcionários devem ser identificados por meio da investigação pertinente”, enfatizou.