Assassinato de cantor argentino expõe ao mundo crise de violência na América Central
Assassinato de cantor argentino expõe ao mundo crise de violência na América Central
A morte do popular cantor argentino Facundo Cabral ocorrida no último sábado (09/07) coloca no olho do furacão os elevados índices de violência e criminalidade que têm castigado a América Central nos últimos anos. Assediada pelos cartéis do narcotráfico e por gangues criminosas, a região é considerada por um estudo realizado pelas Nações Unidas como a mais perigosa do mundo.
Especialistas em segurança na região afirmam que a área agora chamada de Triângulo do Norte da América Central (formado por Guatemala, Honduras e El Salvador) se converteu no centro de operações de criminosos em razão da repressão e das inúmeras perseguições que esses grupos têm sofrido no México nos últimos anos.
Os países, além de poucos recursos para combater o problema, sofrem com um legado sangrento devida a décadas de guerra civil. Na Guatemala (1960-1996), 250 mil pessoas perderam a vida nesses confrontos. Já em El Salvador (1980-1992), as mortes totalizaram 75 mil.
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O salvadorenho Roberto Cañas, especialista em segurança pública e participante de elaborações de acordos de paz, defende a tese que as disputas políticas tenham de ser deixadas de lado, pois os senhores da droga se tornaram os principais inimigos de seu país.
Um recente estudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) indica que os países da região desembolsam em torno de 6,5 bilhões de dólares por causa da violência, o que se traduz em 8% do PIB (Produto Interno Bruto) da região.
A América Central é considerada uma das regiões mais violentas do mundo de acordo com relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Toma como exemplo a atual taxa de homicídios, 33,3 para cada 100 mil habitantes, a mais elevada do mundo.
Cañas sustenta que o assassinato do cantor argentino tem todas as características de um ataque planejado pelo narcotráfico, e que estaria na verdade dirigido ao polêmico empresário nicaraguense Henry Fariña, dono de vários negócios de apostas e redes de prostituição.
“O crime não é político, tem todas as características de uma vendetta entre máfias. Como saber o que Farina fez ou deixou de fazer para desagradar os cartéis? Estes chefões não são de brincadeira”, disse Cañas ao Opera Mundi.
Facundo Cabral, de 74 anos de idade, morreu na madrugada de sábado em um carro na Cidade da Guatemala, após sofrer uma emboscada que, aparentemente, estava dirigida a Farina, seu promotor. Pouco antes, o músico argentino havia negado uma escolta do hotel onde estava hospedado para viajar justamente em uma caravana com Fariña, que também foi atingido e se encontra em estado grave.
As investigações indicam que três automóveis interceptaram o veículo e, em seguida, fuzilaram a caravana onde Cabral e Fariña viajavam. O músico recebeu três tiros fatais.
Cabral é conhecido como um dos músicos mais importantes da América Latina por suas mensagens pacifistas e músicas românticas, além de sempre ter se posicionado contra as ditaduras militares no continente durante as década de setenta e oitenta.
O argentino foi declarado en 1996 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência e a Educação) como “mensageiro da paz”.
Famoso pela canção No soy de aquí, ni soy de allá (Não sou daqui nem de lá, em tradução livre), seu legado alcança mais de uma dezena de álbuns, seja em estúdio ou de shows ao vivo, além de uma modesta carreira literária. Sua bibliografia trata, em boa parte de sua infância rodeada de pobreza, sua vida errante e seus princípios religiosos.
Em uma recente visita a San Salvador, o chanceler da Guatemala, Haroldo Rodas, reconheceu que seu país se converteu em um ido “narcoestado”, devido aos grupos criminosos que passaram a ter influência nas instituições do governo.
Segundo Rodas, o assassinato de Cabral segue o padrão do crime organizado, mal que afeta toda a região e que este se tratou “sem dúvida, de um ataque pré-concebido”, afirmou.
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