O baixo índice de participação nas eleições haitianas deste ano são uma amostra da descrença da população em suas lideranças e até mesmo no sistema eleitoral, afirma o economista e professor da Universidade de Porto Príncipe Camille Chalmers, diretor da PAPDA (Plataforma Haitiana Para um Desenvolvimento Alternativo).
Segundo ele, a população haitiana se deu conta de que o Estado “não a respeita”. “Votar [no Haiti] não é um exercício democrático, porque temos eleições coloniais, mercantilizadas e, em muitos lugares, controladas pela economia criminal, o dinheiro da droga”, diz.
Wálmaro Paz/Opera Mundi
Camille Chalmers: “votar [no Haiti] não é um exercício democrático”
Opera Mundi: Por que o índice de abstenção nas eleições foi tão elevado?
Camille Chalmers: O nível de abstenção nas eleições de nove de agosto foi mais alto do que o declarado. Falam de 18 por cento de comparecimento, mas entendemos que foi menor. Esta abstenção massiva se explica por vários motivos. O primeiro deles é o fato de que o povo haitiano, depois da ruptura com a ditadura duvalierista de 1986, quis construir sua democracia, suas instituições e isto foi totalmente obstaculizado pelo império e por seus representantes. Quando analisamos as conjunturas eleitorais de 1990 até 2015, nos damos conta de que há um retrocesso. A participação em 1990 foi massiva, a participação em 2006 foi menor, mas ainda importante e agora é insignificante.
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OM: Quais as causas disso?
CC: O pessoal se deu conta é que são instituições que não tem nenhuma representatividade, que não respeitam o povo do Haiti e não atendem suas necessidades. O povo se deu conta que esta organização das instituições e o seu controle é feito de fora. Isso se manifestou de forma muito grosseira e agora já totalmente documentada nas eleições de 2010 e 2011, quando o povo votou e a OEA, a Minustah e os Estados Unidos decidiram que não tinham o direito de escolher seu presidente e designaram Martelli, que nem deveria que estar no segundo turno. Assim, as pessoas se deram conta muito bem da manipulação que se fez através do controle externo e perderam confiança no processo. Para eles, votar não é um exercício democrático, porque temos eleições coloniais, mercantilizadas e, em muitos lugares, controladas pela economia criminal, o dinheiro da droga.
OM: Mas o processo está em andamento. O que o povo fez?
CC: São três elementos que o movimento social haitiano exigiu. No início, quando se começou a discutir o processo eleitoral e a colocação em marcha de um novo Conselho Eleitoral Provisório, vimos que teríamos que fazer uma descolonização, uma desmercantilização e uma desgangterização das eleições, que são as três condições fundamentais para se avançar até eleições realmente democráticas. O povo não tem confiança no aparelho eleitoral. Não tem confiança no processo eleitoral, e por muitas razões: inclusive por que o presidente Martelli fez campanha para um partido, o PHTK, utilizando todos os recursos do Estado, veículos do Estado, dinheiro do Estado, o que é formalmente proibido pelo decreto eleitoral e o CEP [comissão eleitoral] não fez nada.
OM: Como explicar isso?
CC: O povo, ao mesmo tempo em que se dá conta de que é um jogo tramposo, uma armadilha onde não há possibilidade de ganhar, vê que é uma ocasião de se ganhar algum dinheiro, porque gastam muito na campanha. Há uma corrupção da ideia do processo que não é um ato cívico, um ato cidadão de reconstrução democrática, mas sim uma ocasião para se fazer um pouco de dinheiro.