Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
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Em medida oficializada nesta quarta-feira (21/01), o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, instituição controlada pelo Grupo Master.

Segundo o BC, entre as medidas previstas está a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.

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Com esta decisão, já são três as instituições ligadas ao Grupo Master que são alvo de liquidações extrajudiciais decretadas pelo BC: na última quinta-feira (15/01) foi anunciada a liquidação da antiga REAG Investimentos (atual CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários) e em 18 de novembro de 2025 foi oficializada a mesma ação contra o Banco Master, principal empresa do grupo.

Essa nova decisão elevará ainda mais o número de pessoas afetadas pelo escândalo das empresas do Grupo Master. Vale lembrar que somente o caso do Banco Master afetaria pouco mais de 1,6 milhão de clientes, quantidade que extrapola a capacidade de ressarcimento do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mecanismo de proteção a correntistas, poupadores e investidores.

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Não obstante, para compreender completamente a dimensão do escândalo envolvendo o Banco Master e outras empresas interligadas é preciso avaliar os desdobramentos do caso não só nas decisões do BC como também do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para a cientista política Julia Almeida, mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “o caso do Banco Master revela como as instituições brasileiras estão profundamente atreladas aos interesses econômicos de sua elite”.

“O patrimonialismo, a utilização do Estado para fins privados, fica muito evidente nesse caso, e isso gera um grave problema de confiança institucional, mas, sobretudo, revela como funciona o capitalismo brasileiro”, pondera a acadêmica.

Entenda o caso

As medidas adotadas pelo BC contra as empresas do Grupo Master são consequência das investigações feitas pela Polícia Federal (PF) a partir da Operação Compliance Zero, que analisa um possível esquema de fraude promovido pelas empresas do grupo, em especial o Banco Master, e seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro.

Vale recordar que, no dia em que a operação da PF foi deflagrada, Vorcaro foi detido quando tentava embarcar para os Emirados Árabes, razão pela qual teve decretada a sua prisão preventiva em regime fechado – status no qual foi mantido por 11 dias . Atualmente, ele se encontra em prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica.

De acordo com as apurações da PF, Vorcaro e o Banco Master são suspeitos de diversos crimes econômicos como: emissão de títulos falsos, manipulação de balanços para inflar o patrimônio e comercialização de carteiras de crédito inexistentes. No caso deste último possível crime, boa parte dessas carteiras inexistentes teria sido vendida ao Banco Regional de Brasília (BRB).

Ademais, também está sendo investigada uma possível campanha digital para atacar a imagem do Banco Central, com argumentos que questionariam a decisão de liquidar o Banco Master. Essa iniciativa teria consistido na contratação de influenciadores e páginas digitais para promover narrativas favoráveis à empresa e depreciativas ao BC.

Tamanho do escândalo

Em entrevista a Opera Mundi, a economista Bianca Valoski, mestre em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirmou que “a dimensão política e a gravidade das fraudes investigadas podem levar o caso a se configurar como a maior fraude bancária da história do país”.

Valoski explica que “a estratégia de crescimento do Banco Master, um banco de investimentos de médio porte, baseou-se em um modelo de alto risco. Para atrair investidores, ele oferecia certificados de depósito bancário, os chamados CDBs, com rentabilidade extraordinariamente alta”.

“Os recursos captados eram então direcionados para financiar operações arriscadas, como o investimento em empresas em recuperação, e para expandir seus negócios em crédito consignado, crédito pessoal, gestão de recursos, seguros e fusões e aquisições”, comentou a economista.

Segundo as investigações da PF, há documentos mostrando que o Master teria emitido títulos falsos e manipulado balanços para inflar o patrimônio, além de comercializar carteiras de crédito inexistentes, especialmente ao BRB.

Ademais, a situação de liquidação do Banco Master gerou desdobramentos do caso que estão sendo analisados no TCU e no STF – nesta segunda instância, o magistrado responsável pelo processo é o ministro Dias Toffoli.

Will Bank e Banco Master tiveram suas liquidações extrajudiciais decretadas pelo BC
Portal do Cooperativismo Financeiro

Reação do governo

Para Valoski, o BC atuou de forma preventiva, “assegurando que bancos e demais instituições mantenham níveis adequados de capital e liquidez, além de políticas de risco compatíveis com seus modelos de negócio”.

“O Poder Judiciário pode e deve analisar os aspectos jurídico-legais da atuação do Banco Central, mas é importante que o mérito técnico das decisões prudenciais seja preservado”, acrescenta.

A economista também acredita que “o governo está certo em solicitar que esses órgãos atuem em conjunto e em cobrar do BC que promova uma investigação sobre possíveis fraudes em fundos de investimentos, como forma de prevenir novos acontecimentos”.

Extrema direita reforçada

Já a cientista política Julia Almeida, que também é professora de Direito na Universidade Anhembi Morumbi, a extrema direita também ganhou novo fôlego com o caso do Banco Master, devido aos questionamentos pelo envolvimento dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

No caso de Moraes, as dúvidas surgiram a partir de rumores sobre um suposto contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia no qual trabalha a advogada Viviane Barci, esposa do ministro do STF.

“Isso fortalece uma narrativa do confronto institucional contra o STF, que vem sendo elaborada há anos. Consolida a ideia de que ‘o STF é um inimigo’, que atua ilegalmente, de forma abusiva, para frear as lideranças e o projeto da extrema direita”, ressalta Almeida.

Questionamentos aos ministros

Almeida frisa que “a participação do escritório da esposa de Alexandre de Moraes em negócios ligados ao banco, com previsão de recebimento de valores superiores a cem milhões de reais, e o envolvimento de Dias Toffoli com empreendimento privado (um resort) relacionado ao Banco Master, são fatos escandalosos”.

“Mesmo que não haja ilegalidade comprovada, a proximidade entre interesses econômicos privados e a atuação de ministros da Corte Constitucional compromete a atuação e a legitimidade da Corte, ainda que se considere a sua natureza político-jurídica”, analisa.

A cientista política destaca o caso de Alexandre de Moraes, lembrando que “seu protagonismo no enfrentamento à extrema direita lhe conferiu autoridade política e simbólica, a qual se enfraquece quando surgem indícios de atuação voltada ao benefício de interesses econômicos próprios e de sua família”.

A atuação do TCU e de seu presidente Vital do Rêgo Filho, buscando levantar suspeitas sobre a decisão do BC de liquidar o Banco Master – por considerar a medida supostamente “ilegal” e “precipitada” – também tem levantado questionamentos.