China aposta em defesa da paz e investimento regional para fortalecer relação com América Latina e Caribe
Documento traz diretrizes sobre defesa da soberania e investimentos em educação, infraestrutura e modernização
Em uma cerimônia realizada nesta quarta-feira (10), no Ministério das Relações Exteriores, em Pequim, a China lançou o terceiro Documento sobre a Política da China para com a América Latina e o Caribe, reafirmando sua disposição de aprofundar relações estratégicas com a região.
O evento contou com a participação de representantes de governos latino-americanos e caribenhos e destacou a política de Pequim de cooperação baseada em ganhos compartilhados, desenvolvimento sustentável e respeito à soberania.
Durante o lançamento, o ministro Assistente dos Negócios Estrangeiros da China, Cai Wei, afirmou que o documento busca colocar em prática as diretrizes apresentadas pelo presidente Xi Jinping, fortalecendo os “Cinco Programas” de solidariedade, desenvolvimento, civilização, paz e conectividade entre os povos. “O objetivo é injetar novo vigor no desenvolvimento das relações entre a China e a região”, declarou.
O documento é conhecido na China como “Livro Branco” e é usado por Pequim para detalhar sua política externa, estratégias de desenvolvimento e prioridades de cooperação internacional, oferecendo transparência sobre objetivos e propostas de atuação em diferentes regiões do mundo.
Este é o terceiro documento deste tipo para a região. Os dois primeiros foram lançados em novembro de 2008 e novembro de 2016, orientando e fortalecendo as relações de Pequim com os países latino-americanos e caribenhos.
Ganhos compartilhados e desenvolvimento independente
Cai Wei destacou que a política chinesa com a América Latina e o Caribe é pautada pelo respeito à independência e à soberania dos países da região. “As relações não têm como alvo nenhum país e não devem ser interpretadas como interferência externa”, explicou, reforçando que a cooperação é voltada para benefícios mútuos e fortalecimento do desenvolvimento independente.
O ministro enfatizou ainda que Pequim pretende compartilhar a experiência da modernização chinesa com os países da região e ajudar na ampliação da capacidade de desenvolvimento sustentável. “Vamos assegurar o bom uso da linha de crédito anunciada pelo Presidente Xi Jinping, cujo valor é equivalente a 66 bilhões de yuan”, afirmou, ressaltando que os recursos serão destinados a projetos de infraestrutura, energia limpa, telecomunicações 5G, economia digital, inteligência artificial, alimentos, cultura e mineração.
Educação, ciência e intercâmbio cultural
O documento também prevê investimentos em educação e formação profissional, incluindo bolsas de estudo governamentais, capacitação técnica e intercâmbios esportivos e culturais. Cai Wei reforçou a importância de aprofundar o diálogo intercivilizacional e derrubar barreiras entre culturas, promovendo “a coexistência harmoniosa e o resplandecimento mútuo entre diferentes civilizações”.
Entre as iniciativas anunciadas estão a criação de novas rotas aéreas diretas, o Diálogo de Turismo China–América Latina e Caribe, o Fórum de Amizade entre os Povos da China e da América Latina e Caribe e o Fórum de Cooperação de Governos Subnacionais. “O objetivo é promover cada vez mais conhecimento mútuo e conectividade entre os povos”, disse Cai Wei.
Cooperação social e combate à desigualdade
O ministro destacou que a China continuará ajudando os países latino-americanos e caribenhos a melhorar suas instalações médicas, formar profissionais de saúde e ampliar projetos de cooperação sanitária. O documento também aponta para a redução da pobreza, fortalecimento de políticas sociais e modernização de serviços públicos, especialmente em países mais vulneráveis e pequenos Estados insulares da região.
“Precisamos fortalecer intercâmbios em todos os níveis, ampliar o diálogo sobre governança e desenvolvimento social, e trabalhar juntos para gerar benefícios concretos aos povos da região”, afirmou Cai Wei.

Cai Wei concluiu seu discurso convocando os países da região a transformar o documento em ações concretas de cooperação
Bruno Falci/Brasil de Fato
Defesa da paz e soberania regional
Em tom político, o ministro reafirmou o compromisso da China com a paz e a soberania da América Latina e do Caribe. “A China reitera seu apoio à Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, à Declaração sobre a proscrição das armas nucleares na região e à solução pacífica de disputas internacionais”, disse.
Sobre Taiwan, Cai Wei foi enfático: “A questão de Taiwan é o interesse mais vital da China e a linha vermelha que não pode ser ultrapassada. Acreditamos que os países latino-americanos e caribenhos continuarão aderindo firmemente ao princípio de Uma Só China”.
Memória histórica e solidariedade internacional
O lançamento do documento também lembrou a importância da memória histórica. Em setembro deste ano, a China comemorou o 80º aniversário da vitória contra a agressão japonesa e a vitória global sobre o fascismo, enfatizando a necessidade de preservar a história e valorizar a paz. “Precisamos defender juntos a justiça e a equidade internacionais e impedir que alguém tente reverter o curso da história”, declarou Cai Wei.
Um futuro compartilhado China–América Latina e Caribe
Cai Wei concluiu seu discurso convocando os países da região a transformar o documento em ações concretas de cooperação. “Vamos unir nossos esforços e marchar de mãos dadas, transformar este documento em resultados práticos e escrever juntos um novo capítulo para a formação de uma comunidade com futuro compartilhado China–América Latina e Caribe”, disse.
Para Pequim, a iniciativa representa não apenas o fortalecimento de relações bilaterais, mas também a consolidação de um projeto de cooperação Sul-Sul capaz de gerar alternativas à hegemonia global do Norte e promover desenvolvimento sustentável, justiça e soberania para toda a região.
Livro Branco para a região se organiza em cinco programas estratégicos
1: Solidariedade – inclui intercâmbios de líderes, apoio aos interesses centrais da China (como o princípio da China única), diálogo intergovernamental e cooperação trilateral. A China busca ampliar a influência da ALC em fóruns internacionais e apoiar integração regional e iniciativas coletivas, como o Fórum China-CELAC.
2: Desenvolvimento – envolve a implementação da Nova Rota da Seda, cooperação em comércio, investimentos, infraestrutura, energia, manufatura, agricultura, ciência, tecnologia, inovação, espaço, meio ambiente e mudanças climáticas. A China apoia projetos sustentáveis e centrados nas pessoas, fortalece o comércio bilateral e promove transferência de tecnologia.
3: Civilização – fortalece intercâmbios culturais, educativos, esportivos e acadêmicos. Inclui promoção de patrimônio cultural, bolsas de estudo, Confucius Institutes, educação digital, intercâmbio de atletas, cooperação em mídia e fortalecimento de think tanks.
4: Paz – inclui segurança regional e global, cooperação militar, combate a crimes transnacionais, segurança cibernética e não proliferação de armas. A China apoia resolução pacífica de conflitos, zonas livres de armas nucleares e governança inclusiva da internet.
5: Conexão entre Povos – envolve governança social, redução da pobreza, saúde, turismo, intercâmbio de governos locais, juventude, mulheres e sociedade civil. O foco é melhorar a vida das pessoas, fortalecer capacidade local e facilitar intercâmbio cultural e econômico.























