Colômbia: Ex-dirigente do grupo armado FARC, Jesús Santrich é morto
De acordo com a Segunda Marquetalia, grupo dissidente das FARC do qual Santrich fazia parte, guerrilheiro foi assassinado pelo Exército colombiano
O ex-dirigente da antiga guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Jesús Santrich, membro da dissidência chamada Segunda Marquetalia, que voltou às armas após os acordos de paz, foi morto em uma região da fronteira entre o território colombiano e a Venezuela nesta segunda-feira (17/05). A informação foi confirmada pela própria organização armada que acusou o Exército da Colômbia pelo assassinato.
Em nota publicada nesta terça-feira (18/05), o grupo afirmou que Santrich foi vítima de “uma emboscada executada pelos comandos do Exército da Colômbia, ontem, 17 de maio, na Serranía Del Perijpa, zona binacional fronteiriça entre El Chalet e as veredas Los Laureles, dentro do território venezuelano”.
“A caminhonete onde viajava o comandante foi atacada com fogo de fuzis e explosões de granadas. Consumado o crime, os assassinos cortaram o dedo mindinho de sua mão esquerda e, minutos depois, próximo ao lugar, rapidamente os comandos foram extraídos em um helicóptero, rumo à Colômbia”, informou.
A morte de Santrich ocorre em meio a um contexto de ofensivas contra o território da Venezuela por parte de grupos irregulares colombianos. Entretanto, a invasão de forças regulares do Exército da Colômbia ao território venezuelano, como indicado na nota do grupo, representaria uma violação da soberania do governo da Venezuela. Caracas e Bogotá não se pronunciaram.
Em seu comunicado, a Segunda Marquetalia ainda fez referência aos protestos desencadeados na Colômbia contra o governo do presidente Iván Duque e pediu que, “em homenagem a Santrich, não afrouxem sua justa luta, lançando-se com todas as suas forças a derrotar este maldito regime que está nos espremendo até a alma”.
Na terça-feira, Diego Molano, ministro de Defesa colombiano, já havia confirmado a morte de Santrich, mas disse que “a informação ainda estava sendo verificada”.
Quem foi Jesús Santrich?
Seuxis Paucias Hernández Solarte, mais conhecido como Jesús Santrich, tinha 53 anos e foi um dos principais comandantes das FARC. Sociólogo formado na Universidade do Atlântico, o guerrilheiro iniciou a vida política no movimento estudantil, participando da União Patriótica (UP). No ano de 1991, Santrich se alistou para a 19ª Frente da guerrilha FARC.
O ativista foi um dos dirigentes que participaram da delegação que negociou os Acordos de Paz, em Havana, no ano de 2016. Antes do acordo, esteve presente em duas mesas de diálogo de paz, primeiro com o governo de Andrés Pastrana, nos anos 90, e depois com o ex-presidente Juan Manuel Santos, também em 2016.
Após o acordo, Santrich foi eleito membro da direção nacional da Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC, atual Comunes), em 2017, quando a guerrilha deixou as armas para formar um partido político. O militante foi eleito congressista em 2018. Naquele momento, não pôde assumir o posto, pois recebeu uma ordem de detenção emitida pela Interpol por acusações dos Estados Unidos de supostos vínculos com tráfico internacional de drogas.
Vencendo a batalha judicial, que envolveu um pedido de extradição de Washington, Santrich foi autorizado a assumir o cargo somente em 2019. No entanto, duas semanas após deixar a prisão, o guerrilheiro retornou para a luta armada, liderando o grupo Segunda Marquetalia.

Wikicommons
De acordo com a Segunda Marquetalia, Santrich foi assassinado pelo Exército colombiano
Leia a nota do grupo na íntegra:
Informamos à Colômbia e ao mundo, com dor no coração, a triste notícia da morte do comandante Jesús Santrich, integrante da Direção das FARCS-EP, Segunda Marquetalia, em uma emboscada executada pelos comandos do exército da Colômbia, ontem, 17 de maio, na Serranía Del Perijpa, zona binacional fronteiriça, entre El Chalet e as veredas Los Laureles, dentro do território venezuelano. Até neste lugar se penetraram os comandos colombianos por ordem direta do presidente Iván Duque.
A caminhonete onde viajava o comandante foi atacada com fogo de fuzis e explosões de granadas. Consumado o crime, os assassinos cortaram o dedo mindinho de sua mão esquerda e, minutos depois, próximo ao lugar, rapidamente os comandos foram extraídos em um helicóptero, rumo à Colômbia.
À sua família, nossas mais sinceras condolências. Acompanhamos sua desolação infinita e a tristeza que toma sua alma. Santrich caiu livre; livre como queria. Livre sonhando a Nova Colômbia em paz completa, com justiça social, democracia e vida digna para sua gente, para os pobres da terra, os excluídos e descriminados e a população desarmada, nestes dias atacada brutalmente pelo exército e pela polícia nas ruas, por ordem da monstruosa tirania de Duque e Álvaro Uribe. Santrich partiu para a eternidade com todas as suas luzes acesas, com a visão geopolítica de Bolívar e Manuel, sonhando com a vitória da unidade, irmandade e a solidariedade dos povos do continente.
A notícia da morte de Santrich não salvará o arrogante tirano Iván Duque da ira popular desencadeada. Ao povo colombiano, mobilizado há 20 dias em protesto permanente contra o mau governo, pedimos, em homenagem a Santrich, que não afrouxem sua justa luta, lançando-se com todas as suas forças a derrotar este maldito regime que está nos espremendo até a alma. Os chamamos a seguir lutando nas ruas até ter um novo governo do povo e para o povo, mais humano, que pense na dignidade da gente e não só em acrescentar os privilégios das oligarquias, um governo sem corruptos nem ladrões do Estado, como queria o comandante caído na luta.
Saudações aos que já partiram, mas que seguem conosco, como Jesús Santrich, o homem que lutou de maneira consequente por uma paz para a Colômbia sem traições e sem deslealdade.
Povo colombiano, pela vitória, À LUTA!
FARC-EP























