Coreia do Sul propõe rever aliança militar com EUA para acalmar tensões com Pyongyang
Presidente Lee Jae Myung disse querer pedir desculpas a Kim Jong Un pela tentativa de golpe e provocações do governo anterior
Um ano após a tentativa de golpe fracassada na Coreia do Sul, o presidente Lee Jae Myung, do Partido Democrático, declarou nesta quarta-feira (03/12) a intenção de formalizar um pedido de desculpas em nível estatal a Pyongyang pelas provocações que partiram da gestão anterior e, se necessário, reduzir os exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos para diminuir as tensões intercoreanas.
Sem o aval do Congresso, em 3 de dezembro de 2024, o então mandatário de extrema direita pelo Partido do Poder Popular, Yoon Suk Yeol, decretou unilateralmente a lei marcial ao acusar, sem provas, supostas ameaças de “forças antiestatais” contra o país. Investigações posteriores revelaram que o ex-presidente teria propositalmente lançado contra a Coreia do Norte drones com panfletos críticos ao governo de Kim Jong Un para fomentar a crise na península, incitar o vizinho a retaliar e, assim, legitimar o decreto.
Na coletiva com o tema “Nova Democracia, Seu Primeiro Ano”, Lee sinalizou a possibilidade de ceder nas relações com Washington, e reiterou a sua posição de atuar como um “pacemaker” (“marcapasso”, na tradução em português) para uma nova conversa entre o presidente norte-americano Donald Trump e Kim, cenário que poderia dar abertura às negociações. “Se for necessário para incentivar o diálogo e, se servir como uma alavanca estratégica para os Estados Unidos, podemos discutir [a revisão dos exercícios militares]”, indicou o sul-coreano.
De acordo com Lee, os Estados Unidos têm maior influência sobre quaisquer decisões tomadas pela Coreia do Norte, e reconhece que Kim entende a nação norte-americana – e não o seu país em si – como sendo a única a poder determinar garantias reais de segurança. Vale lembrar que os posicionamentos oficiais emitidos por Pyongyang tendem a classificar a Coreia do Sul como um “fantoche” dos Estados Unidos, e rejeitam a possibilidade de aproximação com o país vizinho devido à firme aliança ocidental.
Apesar da intenção de emitir um pedido oficial de desculpas, Lee destacou que o atual cenário político interno dificulta, porém, tal gesto, admitindo “temer” que a ação implique em “batalhas ideológicas” e seu governo seja rotulado “pró-Coreia do Norte”.

Um ano após a decretação fracassada da lei marcial na Coreia do Sul, presidente sul-coreano Lee Jae Myung realiza a coletiva intitulada `Nova Democracia, Seu Primeiro Ano’
Gabinete Presidencial da Coreia do Sul
Submarinos nucleares
O presidente sul-coreano reafirmou seu compromisso com o princípio da não proliferação ao ser questionado sobre a dissuasão e política nuclear. Segundo ele, Seul “não tem intenção de sair do quadro de uma Península Coreana livre de armas nucleares”.
Em 31 de outubro, o Ministério da Defesa da Coreia do Sul manifestou a pretensão de desenvolver submarinos movidos a energia nuclear com o objetivo de rastrear navios norte-coreanos e chineses. A medida, que depende da validação norte-americana, foi prontamente endossada por Trump.
Embora os aparelhos cobiçados pelo governo de Lee tenham tido apoio instantâneo do republicano, é importante lembrar que há um trâmite anterior: para garantir urânio enriquecido como combustível, é necessário revisar o Acordo de Energia Nuclear Coreia-Estados Unidos, já que as cláusulas previstas no tratado impedem Seul de usar materiais nucleares para fins militares.
Na coletiva, Lee sustentou que questões como enriquecimento de urânio, reprocessamento de combustível gasto e a aquisição de tais submarinos “não violam as normas de não proliferação”, pois não se tratam do desenvolvimento em si de armas nucleares. “Garantir submarinos movidos a energia nuclear nos dá flexibilidade estratégica e autonomia […. Os submarinos] não estarão equipados com ogivas nucleares”, defendeu.
Para Lee, o compromisso de Trump – com quem teve duas bilaterais em menos de seis meses de gestão – em apoiar o desenvolvimento das embarcações se configuram como “a maior conquista até agora”. Segundo ele, Seul e Washington caminham em direção a uma “parceria 50-50” para a produção de urânio enriquecido.
“O presidente Trump disse: ‘Se a Coreia do Sul produzir seu próprio urânio enriquecido, ainda vai sobrar bastante — vamos a cinquenta por cinquenta.’ Então concordamos em abrir uma joint venture, e o Secretário de Comércio (Howard) Lutnick agora está conduzindo as discussões”, revelou.
Inicialmente, o republicano propôs que a construção dos submarinos em questão seja na Filadélfia, mas Lee esclareceu na coletiva que a Coreia do Sul possui uma “eficiência incomparável” quando se trata de construção naval. “É mais realista, econômico e seguro construí-los aqui”, insistiu.
Nas palavras do presidente sul-coreano, as capacidades de sua nação continuam suficientes para dissuadir a Coreia do Norte, e os gastos com a defesa excedem o produto interno bruto anual do vizinho. Declara também que a força militar nacional está entre as cinco melhores do mundo, mesmo sem o destaque das forças norte-americanas na península.























