Quinta-feira, 8 de outubro de 2026
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A tartaruga-de-pente é uma das quatro espécies ameaçadas de extinção que passam por El Salvador

Um rincão escondido do Oceano Pacífico, a salvadorenha Baía de Jiquilisco, está se convertendo em um paraíso de quelônios ameaçados. Entidades ambientalistas nacionais e internacionais, órgãos do governo e os pescadores da região realizam atividades que mantêm incubadoras de ovos de tartaruga e concebem mecanismos para que as comunidades se envolvam em seu cuidado.

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Há quatro espécies de tartarugas que visitam constantemente El Salvador: de pente (Eretmochelys imbricata), de couro (Dermochelis coriacea), oliva (Lepidochelys olivacea) e verde (Chelonia mydas agassizii).

“Ali se vê uma”, disse Obed Rodríguez em sua pequena lancha no meio do mar, apontando a cabeça de uma tartaruga-de-pente que emerge das águas. O animal se deixa ver por completo durante alguns segundos e submerge novamente. O pescador faz parte da equipe que desde maio desenvolve um programa de cuidado de ovos, patrocinado pela Icapo (Iniciativa Carey do Pacífico Oriental), um projeto regional com sede nos Estados Unidos para pesquisar e proteger as populações da espécie nesta região do oceano. “Esta é a zona onde as de pente fazem seus ninhos, e não é raro vê-las nadando”, contou.

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Sobre a tartaruga-de-pente pende a ameaça maior. É capturada para aproveitamento de sua carne e seus ovos, mas, sobretudo, para uso de sua carapaça – de escudos translúcidos nas cores amarela, âmbar, vermelho, marrom e preto – na elaboração de objetos de decoração, pentes, armação para óculos e joias. Entre 200 e 300 fêmeas continuam fazendo ninho nas praias do Pacífico entre o México e o Peru, e metade delas o fazem na Baía de Jiquilisco, indicam pesquisas do Icapo e do Centro Científico para as Pescas do Sudoeste do Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos.

Desde 2009, o governo local proíbe o aproveitamento da carne, do óleo, dos ossos e da carcaça dos quelônios

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Já não há incentivos para que os pescadores vendam ovos de tartaruga para os restaurantes em El Salvador. Desde 2009 vigora total proibição do aproveitamento desse produto, bem como da carne, do óleo, dos ossos, da carcaça e de exemplares dessecados. Por medo de terem os ovos apreendidos pelas autoridades, os pescadores preferem entregá-los ao projeto do Icapo, que paga US$ 2,5 por 14 unidades, sendo que uma ninhada pode ter até 160 ovos, explica Rodríguez.

A penetração do mar na costa de Usulután determina a forma característica do mapa salvadorenho nesta baía do sudeste. Os indígenas a chamavam Xiriualtique, ou baía das estrelas, porque suas águas tranquilas refletiam o céu estrelado. Ali se encontra a maior extensão de mangues do país. Em 2005, esta região foi incluída na lista Ramsar de mangues de importância internacional, e em 2007 a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) a declarou Reserva da Biosfera Xiriualtique-Jiquilisco a Baía das Estrelas.

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Desde 2009 o governo salvadorenho proíbe a venda de carne, carcaça e ovos das tartarugas, o que incentiva os projetos de preservação

Pouco a pouco, seus habitantes assumem que a região deve ser preservada, apesar da forte presença hoteleira em áreas vizinhas, que coloca em dúvida a capacidade local se mantê-la a salvo. Contudo, no ano passado foram postos 1,7 milhão de ovos e deles nasceram e foram liberadas para o mar 1,5 milhão de tartaruguinhas, a maioria de pente e oliva, as de maior presença neste país, segundo o Ministério do Meio Ambiente e de Recursos Naturais.

No final de agosto, o explorador e documentarista francês Fabien Cousteau chegou a esta costa para rodar um filme. “Não se trata apenas de filmar o progresso que houve na proteção das tartarugas marinhas em El Salvador, mas também de contar uma história de esperança”, declarou. A organização não governamental que Costeau fundou, a Plante um Peixe, e sua iniciativa local, Vivazul, trabalham com comunidades das praias El Amatal e Toluca, onde estabeleceram áreas para incubar até 200 mil ovos e liberar a maior quantidade possível no mar.

A ONG Funzel (Fundação Zoológica de El Salvador) persegue uma meta mais ambiciosa: que a população local organize suas próprias atividades econômicas em torno da conservação de tartarugas, sem intermediação de organizações ambientalistas. Por exemplo, que desenvolvam seus próprios viveiros e cobrem dos turistas pelo privilégio de libertar uma tartaruga no mar. “Fazemos isto em um plano-piloto na Ilha de Méndez, e a ideia é ampliá-lo cada vez mais”, assegurou o ecologista Emilio León. O preço deste serviço é de US$ 7 por visitante. “O futuro é promissor”, enfatizou.

Terremoto

Os projetos de preservação das tartarugas marinhas estiveram sob risco em agosto, quando um terremoto de 6,7 graus na escala Richter foi sentido em El Salvador. O tremor foi pouco percebido pela população, mas jogou por terra meses de trabalho para preservar as quatro espécies, todas em risco de extinção.

“Os moradores dizem que era uma onda de dez metros de altura, que arrasou com tudo”, diz León sobre um sismo na costa pacífica, cuja onda destruiu vários viveiros com 45 mil ovos de tartaruga, no dia 26 de agosto.

O maior dano aconteceu na Ilha de Méndez, sul do departamento de Usulután, na Baía de Jiquilisco, lugar favorito de desova das tartarugas. Os criadouros destruídos na Ilha de Méndez estão a cargo da Funzel.

“Contra a força da natureza nada podemos fazer, a não ser continuar trabalhando para levantar o que foi destruído”, disse León, diretor do Programa de Conservação da Tartaruga Marinha da Funzel. 

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