Sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
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A crescente tensão geopolítica mundial tem levado diversos países europeus a reativar ou fortalecer o serviço militar — seja retomando a obrigatoriedade ou ampliando incentivos para atrair voluntários. Atualmente, entre os 27 países da União Europeia, dez já mantêm algum tipo de alistamento compulsório.

A França é o país mais recente a se unir a essa tendência. Nesta quinta-feira (27/11), o governo de Emmanuel Macron lançou um programa de serviço militar voluntário para jovens entre 18 e 19 anos para reforçar as Forças Armadas do país. O programa começará em 2026 e terá uma duração de 10 meses. Os voluntários receberão um salário de mil euros por mês (aproximadamente R$ 6.200).

Nos últimos meses, o movimento ganhou novo impulso com Bélgica e Alemanha adotando estratégias para ampliar seus contingentes. O governo belga enviou cartas a jovens oferecendo um salário de dois mil euros por mês (aproximadamente R$ 12.400) para quem aceitar servir voluntariamente durante um ano.

Por sua vez, o governo alemão adotou uma postura semelhante: o alistamento permanece voluntário, mas a gestão do chanceler Friedrich Merz anunciou novos incentivos, elevando a remuneração para 2.600 euros mensais (cerca de R$ 16.120) com o objetivo de atrair mais jovens às Forças Armadas.

A Opera Mundi, José Ignacio Torreblanca, professor de Ciências Políticas da Universidade Espanhola UNED, disse que esse movimento reflete uma nova percepção de insegurança no continente.

Segundo ele, os países europeus respaldam a decisão de alistamento militar em relação uma suposta ameaça russa. “Com o enfraquecimento da relação transatlântica, já não podemos contar 100% com a garantia de segurança dos Estados Unidos. Os dividendos da paz do final da Guerra Fria já se esgotaram, e a redução no tamanho dos Exércitos europeus — tanto no orçamento quanto no número de efetivos — atingiu o seu limite. Por isso estamos vendo alguns governantes europeus ressurgirem o serviço militar”, afirmou.

Mudança recente e recrutamento feminino

Outros exemplos na região reforçam essa tendência. Lituânia, Letônia e Croácia haviam abolido o recrutamento, mas reintroduziram o alistamento nos últimos anos — a Lituânia em 2015, a Letônia em 2023 e a Croácia a partir do ano que vem.

A Dinamarca, membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e aliada estratégica no apoio à Ucrânia, também avançou: além do alistamento masculino por sorteio quando não há voluntários suficientes, agora as mulheres também podem ser recrutadas pelo mesmo sistema. Na Suécia e Noruega (que não integra a União Europeia), o recrutamento feminino já é obrigatório.

exército alemanha

Alemanha quer retomar alistamento militar
ISAF Headquarters Public Affairs Office / Wikimedia Commons

Torreblanca acredita que a tendência de revitalizar os Exércitos europeus deve persistir. “Vai continuar porque é preciso dissuadir uma Rússia que está gastando muito mais em defesa, que deseja e pode mudar as fronteiras da Europa através da força”, afirmou.

Países ibéricos

A Espanha suspendeu o serviço militar obrigatório em 2002, e a grande maioria dos espanhóis entre 18 e 70 anos é contrária ao retorno do recrutamento, segundo pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores feita em maio deste ano.

Ainda assim, 40% da população aceitaria receber uma formação militar básica, de acordo com enquete de março de 2025 realizada pelo Instituto DYM.

O país vizinho, Portugal, também eliminou a obrigatoriedade do serviço militar. Desde 2004, a nação conta apenas com militares profissionais ou voluntários.

Para Torreblanca, a maior parte dos países europeus não deve retomar o serviço obrigatório neste momento. “Os governos estão avaliando se podem aumentar seus contingentes com voluntários, oferecendo melhores salários e maiores incentivos para atrair mais gente. Obrigar os jovens seria politicamente delicado agora. Por isso alguns países estão optando pela via dos benefícios”, avaliou.