Domingo, 7 de dezembro de 2025
APOIE
Menu

Caso participe do programa de remição de pena por leitura adotado no Distrito Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode se deparar com um acervo bibliográfico distante do repertório político e ideológico que marcou sua trajetória pública. Assim como os demais condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe, ele pode ler e comprovar entendimento sobre títulos que discutem racismo, memória, ancestralidade, encarceramento, feminismo, direitos humanos, diversidade sexual e crítica ao capitalismo.

Antes da posição de Bolsonaro, a decisão para aderir ao Ler Liberta precisa passar por uma autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Pelas regras, cada obra lida e comprovada resulta em quatro dias a menos na pena, limitado a 11 livros por ano para cada detento — o equivalente a um abatimento máximo de 44 dias anuais. Desde a última terça-feira (25), o ex-presidente iniciou o cumprimento da pena de 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.

“É uma grande oportunidade. Talvez ele tenha que trabalhar os letramentos dele. É uma pessoa extremamente preconceituosa, racista e homofóbica. Ele tem que passar por um processo de reeducação, e temas relacionados à democracia sempre são bem-vindos a qualquer que seja o réu. Mas em especial a ele”, comentou Marco Aurélio Carvalho, do Grupo Prerrogativas.

De manual antirracista a ficção científica

O programa do DF possui uma lista com 160 títulos, separados de acordo com a escolaridade do detento.

Caso Bolsonaro queira conhecer mais sobre as violações de direitos humanos da ditadura civil-militar brasileira, uma boa pedida é “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva. O livro conta a luta de Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, que foi desaparecido pela repressão. A obra virou filme premiado do diretor Walter Salles.

Bolsonaro pode se deparar com acervo bibliográfico distante do repertório de sua trajetória pública
Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Conhecido por falas misóginas, como “mulheres devem ganhar menos do que homens pois engravidam”, Bolsonaro teria uma boa oportunidade de desconstruir seu machismo com o título “Cartas de uma menina presa”, da feminista Débora Diniz.

Falando em questões de gênero, outra obra interessante para aumentar o repertório do ex-presidente é “A mão esquerda da escuridão”, da estadunidense Ursula K. Le Guin. O livro de ficção científica imagina um mundo em que as pessoas não têm sexo biológico definido.

Durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro afirmou discurso no Clube Hebraica, em São Paulo, que no seu governo não haveria um centímetro de terra demarcada para indígenas e quilombolas. “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro, e obras de Ailton Krenak incluídas na lista podem ajudar o capitão a repensar seus posicionamentos.

A tarefa não é simples, mas ele tem tempo para isso: mais especificamente, 27 anos e três meses.