Haitianos no Brasil não conseguem contato com famílias
Haitianos no Brasil não conseguem contato com famílias
Sem eletricidade nem linhas telefônicas, muitos haitianos estão isolados sem poder se comunicar com parentes residentes em outros países, como o Brasil, nem mesmo para simplesmente avisá-los que estão vivos. No consulado do Haiti em São Paulo, nesta quinta-feira (14), três haitianos tentavam contactar suas famílias, sem sucesso.
A secretária-geral do consulado, Kátia Codoletti, conta que tem recebido muitos e-mails de haitianos preocupados com suas famílias, apesar de a central do serviço ser em Brasília. A embaixada do Haiti calcula que, atualmente, existam cerca de 200 haitianos vivendo no Brasil – entre legalizados ou não.
No consulado, o estudante haitiano Adley Deler, de 24 anos, contou ao Opera Mundi que conseguiu falar com a avó por dois minutos na manhã de ontem, antes que a ligação caísse. Desde então, continua tentando contactá-la novamente, mas sem conseguir. Segundo o jovem, ela contou que, embora a vizinhança esteja destruída, a casa da família continua de pé.
“Os dois minutos que falamos serviram para aliviar, mas a dor continua”, diz Adley. “Todo bairro foi destruído, as pessoas estão desesperadas. Foi algo que ninguém estava aguardando. Chegou assim, causou um desespero total e foi horrível. É o tipo de coisa que só se vê em filmes”.
Adley também contou ter ouvido da avó que um prédio localizado do outro lado da rua foi totalmente destruído pelo tremor. “Todo mundo na rua está sem luz e sem energia”, relata.
Segundo ele, o fato de seus parentes não estarem feridos e sua casa não ter sido abalada é reconfortante. Mas, pondera o estudante, “não se trata apenas da minha família. Somos todos haitianos”.
Volta para casa
Adley, que está há um ano e dois meses no Brasil, pretende voltar ao Haiti assim que possível, porque, para ele, o país “precisa de todas as mãos haitianas disponíveis que houver”.
O jovem tem conversado com o consulado e o Rotary Club (que patrocina seu intercâmbio no Brasil) sobre a possibilidade de visitar o país. “Não vai ser aquela alegria por encontrar os parentes, por que sempre vai estar faltando alguma pessoa. O Haiti não vai estar igual”, prevê.
A prima de Deler, Patricia Batisti, de 23 anos, também estava no consulado. Ela estuda ciências contábeis na Universidade de Porto Príncipe e contou ter conversado com colegas da faculdade pouco antes do terremoto. Desde então, não conseguiu ter mais noticias deles. O prédio da universidade foi um dos edifícios destruídos pelo terremoto.
“Não sei mais o que esperar”, diz a estudante. “Lá não tem eletricidade, não tem nada, então não posso fazer contato, nada, nada mesmo”.
A família de Patricia possui uma casa numa cidade menor que, segundo soube, está intacta. Mas a jovem não tem notícias da residência em Porto Príncipe, nem sabe se sua mãe está bem ou não. “Se eu pudesse voltar, agora mesmo, enquanto conversamos, eu voltaria”, afirma.
Patrícia conta que, desde o desastre, tem passados os dias inteiros tentando contato por telefone e internet. “Não consigo falar com minha família, nem meus amigos. Queria muito saber o que aconteceu”, lamenta. Ela diz ainda que amigos que moram em países vizinhos também não têm notícias das famílias no Haiti.
Sem notícias
O refugiado Jean Marie, 40 anos – há nove no Brasil – conta que ainda não conseguiu estabelecer nenhum tipo de contato com seus pais, que moram no Haiti. Também não pôde falar com outros parentes ou amigos e, por isso, foi ao consulado para tentar conseguir informações.
As notícias que obteve são as mesmas do público brasileiro: ele só sabe o que vê na televisão. “É um desastre, mesmo”, consola-se.
Apesar de o compatriota Adley ter conseguido falar com seus parentes, isso não acalma Jean Marie. “É difícil descrever. Jamais pensava que aconteceria uma coisa dessas”, diz o refugiado.
Jean Marie também conta que não tem conseguido dormir direito desde o terremoto. “É angustiante. Quando deito, todas essas coisas vêm à cabeça”, diz Jean Marie, que morava perto da sede do governo haitiano, que desabou. “Se o palácio está destruído, minha casa pode estar também”, pressupõe.
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