Terça-feira, 6 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

A uma semana das eleições em Honduras, as elites legitimam o pleito, que aparentemente será realizado sob o regime golpista que elas ajudaram a promover. Seu posicionamento é claro: estão com um dos candidatos com maior possibilidade de vitória, o liberal Elvin Santos, que defende melhor seus interesses.

A alternativa a Santos é o nacionalista Porfírio Lobo, que, embora represente o partido da direita, é visto pela elite como uma ameaça, como alguém que pode colocar a oligarquia novamente em situação desfavorável, implantando medidas populares como fez o presidente deposto Manuel Zelaya.

Em entrevista ao Opera Mundi, Adolfo Facussé, um dos principais oligarcas hondurenhos e presidente da Associação Nacional de Industriais (Andi), falou sobre a destituição de Zelaya, os quatro meses do governo golpista e as perspectivas eleitorais.

No início da conversa de duas horas, o empresário se mostra ponderado e aberto ao diálogo. Com o tempo, vai se soltando e assume enfaticamente que o que ocorreu em Honduras foi um golpe. Critica, é verdade, a maneira como Zelaya foi apeado do poder – foi levado de sua casa de madrugada, ainda de pijamas, e expulso do país. Mas defende que este é o mal menor, pois era necessário fazê-lo de alguma forma.

“Se você está dirigindo e um cachorro atravessa seu caminho de um lado da rua e uma senhora do outro, o que você faz? Mata o cachorro para não matar a senhora, mal menor versus mal maior. Foi o mesmo com Zelaya. Ainda que violentando a Constituição, valeu a pena tirá-lo [do poder], já que estava incomodando a todos”, argumenta.

Salário mínimo

Facussé insiste que a iniciativa privada “não tem nada a ver com este enterro”, referindo-se ao golpe. Mas acaba falando de “nossa gente” para referir-se ao governo de Roberto Micheletti.

O líder industrial garante que os principais setores do país são de tendência liberal e, no início, apoiavam Zelaya, até que “ele começou a guerra com o setor privado”. Ele cita como exemplo o aumento em torno de 60% no salário mínimo, que passou de 3.400 lempiras (pouco menos de 180 dólares) para 5.500 (cerca de 290 dólares).

No entanto, o analista econômico Héctor Soto considera que o incremento foi acertado, pois “havia uma diferença enorme entre a inflação e o salário”. Apesar do aumento, o salário mínimo ainda se mantém abaixo do preço da cesta básica, avaliada em 6.200 lempiras (327 dólares).

O empresário, porém, critica o impacto da medida com base nos custos para a pequena empresa, um impacto que Soto também admite como elevado. Desta forma, Facussé defende os ideais da classe. “Nós somos os mais interessados em que o povo tenha maior poder aquisitivo. Com nosso projeto, o país se levanta, e com o [projeto] deles, se afunda”.

 

Contudo, Zelaya manteve os índices de crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto) em 6%, um ponto percentual acima do governo anterior, que iniciou uma etapa de melhoria econômica, tirando o país de uma série histórica que girava entre 2% e 3%.

Perdas na economia

Agora, com o golpe de Estado, esses 6% de crescimento foram perdidos em quatro meses. Segundo um estudo realizado pelo Grupo Sociedade Civil, onde Soto trabalha, as perdas foram provocadas pelos toques de recolher, bloqueios de estradas, fechamento das fronteiras, aeroportos e postos de fiscalização, suspensão dos recursos financeiros provenientes de agências multilaterais e de países em particular, queda no turismo e na produção agrícola, menor investimento estrangeiro, falta de crédito e de apoio a pequenas e médias empresas e cancelamento de projetos sociais, o que levou a uma perda equivalente a cerca de 790 milhões de dólares – o que representa 6% do PIB.

Com exceção dos bloqueios das estradas, cujo custo é estimado pelo estudo em 37 milhões de dólares, as demais situações são atribuídas ao clima criado pela ditadura hondurenha. No entanto, Facussé põe toda a culpa em Zelaya. “Para conseguir sua restituição, só se tem castigado o país com o congelamento de créditos, o bloqueio do tratado comercial com a União Europeia, o afastamento dos turistas”.

Com esta perspectiva, Facussé espera a vitória do candidato liberal Elvin Santos nas eleições de 29 de novembro. Para ele, Porfírio Lobo provoca desconfiança. “Zelaya era um oligarca de direita rodeado de gente de esquerda. Pepe [como Lobo gosta de ser chamado] é um homem de esquerda rodeado por gente de direita. O sistema de Zelaya não funcionou, não sabemos se o de Pepe vai funcionar”. Ele conclui: “Qualquer um que faça mudanças que nos afetem terá nossa resistência”.

Líder industrial de Honduras revela familiaridade com golpistas e apóia candidato liberal

NULL

NULL

NULL