*Esta é a segunda parte da reportagem especial sobre as relações entre Guiné Equatorial e EUA. Leia aqui a primeira.
Na audiência, Andrew Swiger, executivo da ExxonMobil, afirmou que na Guiné Equatorial “muitas empresas têm relações familiares com algum membro do governo, e virtualmente todos os servidores do governo têm seus próprios interesses comerciais”. Ele contou que era “impossível fazer negócios…sem fazer negócios com um membro do governo ou o parente de algum membro do governo”.
A ExxonMobil e a Amerada Hess disseram ao Senado que a Sonavi monopoliza os serviços de segurança, então não havia outra opção a não ser contratá-la. Porém, o relatório do Senado não evitou que o clã Obiang recrutasse mais facilitadores norte-americanos, em especial o herdeiro Teodorin.
Embora alguns bancos tenham se recusado a abrir contas para ele, o herdeiro contratou Michael Berger e George Nagler – um advogado especialista em falência sediado em Los Angeles e outro que trata de direito imobiliário e financeiro, de Beverly Hills – para montar empresas de fachada e contas bancárias controladas por Teodorin, mas sem vínculos legais com ele.
Foi através de uma dessas empresas, a Sweetwater Malibu Inc., que Teodorin comprou sua mansão em Malibu. E no caso de outra empresa, a Sweet Pink, Teodorin nomeou como presidente a rapper Eve, sua namorada à época.
Todo ano, o herdeiro do ditador da Guiné fazia uma festança em sua casa que tinha até nome próprio, a “Nguema Summer Bash”. Em 2007, o advogado Berger marcou presença. “Muito obrigada por me convidar para sua festa e por ser tão bom para mim”, escreveu o advogado, por e-mail, no dia seguinte. “A comida estava excelente, a bebida estava melhor ainda, a casa, a vista, o DJ, e o tigre branco… SO COOL!”
No mês seguinte, Teodorin conseguiu que Berger fosse convidado ao “Kandy Halloween Bash”, a festa de Dia das Bruxas realizada na mansão da revista Playboy. O flyer da festa prometia “modelos com o corpo coberto de pinturas”, “go-go dancers” e “mil gatas escolhidas a dedo e com os modelitos mais sexy”.
Depois dessa festa, Berger enviou outro e-mail efusivo a Teodorin. “Me diverti horrores. Conheci muitas mulheres bonitas… Se elas souberem que você está procurando uma noiva, mulheres do mundo todo vão ficar ainda mais loucas por você”.
Os lobistas e profissionais de RH não pensaram duas vezes sobre trabalhar para Obriang, apesar da corrupção flagrante e das violações de direitos humanos cometidas pelo seu regime – desde que ele pagasse bem.
Um dos especialistas contratados foi Lanny Davis, ex-consultor especial do presidente Bill Clinton, um proeminente oportunista de Washington que já teve em sua carteira de clientes apoiadores do golpe de 2009 em Honduras e Laurent Gbagbo, presidente da Costa do Marfim que foi forçado a sair do poder. Ironicamente, Davis, que tinha um contrato anual de um milhão de dólares, processou seu antigo chefe por não pagar a conta.
A investigação inicial do Departamento de Justiça dos EUA e da ICE a respeito das atividades de Teodorin no país veio a público em 2009, em reportagem na revista Harper’s. Documentos da investigação mostravam que Teodorin conseguiu complementar o seu parco salário ministerial de cinco milhões de dólares por mês criando um “imposto revolucionário” sobre a extração de madeira, que as madeireiras internacionais deviam pagar a uma empresa de sua propriedade.
No ano passado, um relatório do Senado dos EUA detalhou as atividades de Berger, Nagler e outros profissionais que trabalhavam para Teodorin, mostrando que ele transferiu mais de 100 milhões de dólares para os EUA através dessas empresas de fachada.
A luva brilhante de Michael Jackson
Hoje em dia, Teodorin ainda consegue contratar norte-americanos para ajudá-lo a resolver seus problemas financeiros e corporativos. Além das empresas que já trabalham para ele, o filho de Obiang contratou os serviços de uma pequena empresa de contabilidade de Los Angeles chamada James McCaleb.
De acordo com o seu site, a McCaleb – que também tem um escritório em Honolulu, no Havaí – ajuda seus clientes a “concentrar todos os recursos no que mais importa: aumentar a renda e pagar menos impostos”. A McCaleb, que registrou várias das empresas usadas por Teodorin, não respondeu aos telefonemas do site 100Reporters pedindo uma entrevista.
A petição governamental para confisco de bens afirma que um intermediário não identificado de Los Angeles ajudou Teodorin a comprar as relíquias de Michael Jackson, registrando-se para o leilão em Beverly Hills e na China.
O intermediário enviou um e-mail para a casa de leilões em que dizia: “Por favor, certifique-se que o nome Teodorin não apareça em lugar algum, ele deve ser invisível”. Logo depois, o mesmo intermediário fez lances vencedores sobre diversos itens, num total de 1,4 milhão de dólares. As mercadorias foram então faturadas na conta de “Amadeo Oluy” e enviadas para a Guiné Equatorial.
Teodorin contratou diversos advogados para lidar com seus problemas legais nos EUA. Um dos maiores é a atual tentativa do governo de bloquear seus bens em função das diversas ações judiciais movidas por ex-empregados de sua propriedade em Malibu, em Los Angeles, que denunciam falta de pagamento. Nos processos, os ex-empregados fornecem muitas informações sobre o luxuoso estilo de vida de Teodorin.
A equipe de advogados recém contratada inclui alguns peixes pequenos, mas também renomados advogados como Duane Lyons do escritório Quinn Emanuel (Luons foi defensor do governo de Los Angeles) e Juan Morillo, do escritório Cleary Gottlieb, que figura na lista dos 50 melhores advogados com menos de 45 anos dos EUA.
Teodorin e o governo do pai empregam também a Qorvis Communications, empresa de relações públicas de Washington que chegou a faturar 70 mil dólares por mês dos dois clientes. Como mostra um recente artigo no site Salon, a Qorvis, que também trabalha para os governos do Bahrein e da Arábia Saudita, é especialista em tentar enganar o algoritmo do Google ao soltar um fluxo constante de press releases positivos a respeito de seus clientes na esperança de enterrar as inevitáveis notícias ruins relacionadas aos seus nomes.
Ainda em 2009, o procurador-geral Eric Holder disse, no Fórum Global em Doha, que “quando os ‘cleptocratas’ saqueiam os cofres de suas nações, roubam seus recursos naturais e desviam a ajuda para o desenvolvimento, eles estão condenando suas crianças à fome e doenças. Em face desta injustiça, recuperar os ativos [desse saque] é um imperativo global”.
Assim como o auto-controle por parte dos países que se beneficiam desse saque.
Jantares e black-tie
No dia 15 de dezembro de 2011, o presidente Obiang recebeu uma ajuda de outro facilitador norte-americano, quando ganhou o prêmio “Inspiração da África”, concedido em um jantar na Fundação Leon H. Sullivan, no hotel Marriott-Wardman Leon, em Washington.
O evento foi realizado para homenagear os destinatários de suas “exemplares contribuições para melhorar a vida das pessoas mais vulneráveis da África”. O prêmio foi dado à União Africana, e Obiang o recebeu como presidente da entidade. O governo da Guiné Equatorial alegou, como era previsto, que o presidente foi pessoalmente honrado.
Um comunicado de imprensa dizia que a elegante Hope Masters, líder da fundação, elogiou-o “pela sua liderança exemplar e por suas contribuições na reconstrução de Guiné Equatorial”. Na página do governo no Flickr há diversas fotos de Obiang durante a cerimônia – incluindo uma com Masters –, todas com a legenda: “presidente Obiang ganha prêmio Sullivan”.
A fundação diz que “capacita pessoas desprivilegiadas ao redor do mundo”, o que faz, na maioria das vezes (julgando pelo seu site) através de videoconferências, happy hours, jantares chiques em estilo black tie e premiações. Pelos seus esforços diligentes em ajudar os menos afortunados do mundo, somando salário e benefícios, Masters recebeu cerca de US$ 194 mil em 2006. Seu marido, Carlton, que é afiliado á fundação, dirige uma firme de consultoria que faz negócios na África.
O presidente da fundação é Andrew Young, o antigo embaixador norte-americano nas Nações Unidas e também ex-prefeito de Atlanta. Ele agora dirige a GoodWorks Internacional, uma empresa de consultoria que já trabalhou com diversos governos africanos notoriamente corruptos. Seu sócio na Goodworks, Carlton Masters, é casado com Hope Masters.
Em outubro de 2011, ativistas reclamaram para a fundação depois que ela lançou um release que incluiu Obiang na lista de pessoas que deveriam receber uma menção honrosa no jantar. A fundação lançou então uma série de tweets se desculpando, negando que seria uma homenagem a Obiang. A confusão seria resultado de “um infeliz erro no release”, erro taxado como “HORROROSO”. A fundação, diz outro tweet, “NUNCA faria tal homenagem”.
Em resposta a perguntas enviadas por e-mail, Aly Ramji, coordenador de projetos especiais na Fundação Sullivan, negou que o presidente Obiang ou seu governo tenham feito doações para a fundação. Ainda assim, segundo a transcrição do seu discurso feito no jantar, Obiang diz que “a Guiné Equatorial contribui hoje no financiamento” da fundação “como já foi feito no passado”.
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