O dia seguinte à posse de Nicolás Maduro para um terceiro mandato na Venezuela foi marcado por uma articulação internacional para reforçar a vitória eleitoral do chavista. Movimentos e lideranças populares se reuniram em Caracas no sábado (11/01) na cerimônia de encerramento do Festival Internacional Antifascista para manifestar apoio ao governo venezuelano, mas também para marcar posição com uma frente de esquerda formada por diferentes regiões do mundo.
O evento reuniu 200 delegados de mais de 120 países na capital venezuelana. Os convidados internacionais acompanharam a posse de Maduro nesta sexta (10/01) e debateram uma agenda de ações para enfrentar a extrema direita global. O festival terminou com a assinatura de um documento assinado pelos movimentos que se comprometem, entre outras coisas, a avançar na consolidação de uma “internacional antifascista”.
O documento assinado também estabelece a criação do chamado “Foro de Caracas”, um espaço para a discussão e articulação permanente das esquerdas. Outras propostas incluem a realização de um encontro internacional antifascista para grupos religiosos, povos originários e juristas, além do lançamento da internacional feminista, popular e antifascista em 8 de março.
Adrian Odle é professor de Direito no St. Vincent and the Grenadines Community College. Ele participou do evento e disse que mais do que criar uma agenda comum, a articulação é importante para mostrar a força das esquerdas globais em uma atuação de oposição à extrema direita global.
“Uma coisa que temos que dizer é que não só os Estados Unidos, mas o Ocidente em geral permanece junto para combater a nossa frente de esquerda. E quando estamos juntos, nós temos capacidade de enfrentar esse bloco extremista e de apoiar qualquer país que determina sua própria política e seu próprio destino”, disse ao Brasil de Fato.
Ismael Sanchez, membro do comitê central do Partido Comunista de Espanha (PCE), destaca que a ocupação dos espaços virtuais, como redes sociais e páginas de internet, por parte dos conservadores exige uma resposta rápida.
“Estamos vivendo um momento de auge do fascismo. Então é lógico e necessário convocar uma articulação internacional antifascista. Todos aqueles que defendem a dignidade dos povos, os direitos humanos e a paz têm a obrigação de constituir uma organização antifascista. Na Europa, 380 organizações de extrema direita estão legalizadas. Se chamam de neofascistas, mas são fascistas e participam das eleições para impor discurso de ódio a partir das instituições públicas”, afirmou ao Brasil de Fato.
A posse de Maduro também foi um grande mote do evento. O dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, foi responsável por ler a declaração final e reforçou o apoio dos movimentos ao governo venezuelano que, segundo ele, é uma das “principais trincheiras contra o imperialismo” no mundo. Ele também afirmou que é importante ser solidário com Cuba, Venezuela e Palestina, mas é fundamental “fazer as lutas em cada país”.
O secretário da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio para os Povos (Alba- TCP), Manuel Bertoldi, concorda com essa ideia. Segundo ele, é preciso construir uma mobilização popular que tenha como proposição transformar a sociedade.
“Há uma ofensiva forte dos EUA, principalmente com Trump. Então temos que reforçar a nossa unidade e ter mobilização popular nas ruas que seja acompanhada de processos radicais de transformação do nosso povo porque a direita também está disputando essa mobilização”, afirmou ao Brasil de Fato.
O presidente Nicolás Maduro tomou posse nesta sexta-feira (10/01) em Caracas na Assembleia Nacional venezuelana. Em seu discurso, o chavista disse que os próximos seis anos de mandato serão “marcados pela paz”. Em meio a uma pressão da oposição que ameaçou interferir na cerimônia, o presidente disse que “prometeu paz e entregou paz”.

O pleito venezuelano se transformou em uma disputa global protagonizada pelos Estados Unidos que, desde 2017, é um dos principais atores que não reconhece o governo de Nicolás Maduro e impõe um bloqueio contra a economia venezuelana por meio da proibição da venda de petróleo no mercado internacional.
Para a militante mexicana Maria Vergara Alba, há um simbolismo que esse evento aconteça na Venezuela justamente por essa disputa com outras potências.
“Esse é um espaço para a militância internacional se encontrar e construir uma agenda conjunta. Para defender os processos democráticos, sociais, ambientais. Inclusive é muito bom que aconteça na Venezuela porque os venezuelanos enfrentam de maneira terrível uma manipulação midiática brutal. Nunca vimos isso contra um país antes”, disse ao Brasil de Fato.
O presidente venezuelano foi responsável por fazer o discurso de encerramento do evento. Ele comemorou a cerimônia de posse e disse que o 10 de janeiro foi um dia “de síntese” de todos os esforços que o governo venezuelano fez para enfrentar os desafios colocados por outras potências globais: “e o povo venezuelano triunfou”.
Ele também criticou a fala do presidente do Chile, Gabriel Boric, que chamou o governo venezuelano de “ditadura”. Maduro afirmou que a fala é uma demonstração da “covardia do poder político do Chile”. Durante o discurso, o chefe do Executivo também homenageou as Forças Armadas e pediu que a América do Sul esteja em “alerta” para as ações dos Estados Unidos.
O mandatário também reforçou a importância da articulação dos movimentos contra o crescimento de grupos de extrema direita que, de acordo com ele, fazem parte de um movimento “fascista”.
“No mundo já há consciência sobre o perigo das correntes fascistas, alguns preferem uma linguagem moderada de chamar de extrema direita, de reacionária, nós chamamos pelo de nome: fascismo”, disse.
Maduro disse que, na Venezuela, a líder da oposição, María Corina Machado, é a “representação do fascismo”. Ele ainda afirmou que a ultraliberal é “filha de Álvaro Uribe” e não foi capaz de mobilizar sua base no país, mesmo querendo dar um “golpe de Estado”. O presidente terminou seu discurso afirmando que é preciso “pegar em armas” contra o fascismo: “a Venezuela está se preparando”.
O presidente lembrou da nova rodada de sanções imposta pelos EUA contra oito funcionários do governo venezuelano nesta sexta. No encerramento do evento, ele condecorou os sancionados.
O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe foi um dos assuntos do encerramento do festival. Neste sábado, o colombiano pediu que o governo de seu país promova uma intervenção militar na Venezuela para impor “novas eleições”. Em nota, o festival antifascista respondeu as declarações de Uribe e chamou o ex-presidente colombiano de “narcotraficante”.
O próprio presidente Gustavo Petro respondeu a fala de Uribe pedindo para que o setor político que apoia o ex-presidente “pare de pensar em matar nossos irmãos”.