Sexta-feira, 7 de agosto de 2026
APOIE
Menu

Uma pesquisa iniciada há 20 anos pelo médico português Miguel Seabra, 51, resultou na descoberta de uma terapia genética para reverter a perda de visão progressiva causada pela coroideremia, uma doença hereditária até o momento sem cura. Os resultados clínicos iniciais, publicados na prestigiosa  Lancet, sugerem que o mesmo tipo de terapia poderia ser aplicada em casos mais comuns de cegueira – como a degeneração macular relacionada com a idade, a terceira principal causa de deficiência visual no mundo.

Divulgação

Cirurgia feita na Universidade de Oxford, em Londres, em paciente em tratamento com a terapia

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

O tratamento consiste em substituir os genes CHM, defeituosos em pessoas com coroideremia, por cópias saudáveis. O processo é feito por meio de uma cirurgia que descola a retina e introduz um vírus inofensivo portador das cópias genéticas. Uma vez na retina, o gene saudável produz proteína e impede o processo de deterioração das células fotorreceptoras. É a primeira vez que uma terapia genética é aplicada nas células humanas sensíveis à luz.

Leia também:
OMS aprova plano para redução de doenças visuais

Mais lidas

Para chegar a esse tratamento, foi preciso primeiro decodificar a função do gene responsável pela patologia e estudar seu mecanismo em ratos de laboratório – processo que rendeu a Seabra o prêmio “Seeds of Science” em 2012. “Os resultados superaram nossas expectativas”, comemorou Seabra em entrevista a Opera Mundi. “Em apenas vinte anos partimos da detecção do gene para o tratamento da doença, isso é encorajador”, afirmou. O português foi o líder científico da fase pré-clínica do projeto, cujos testes em humanos foram desenvolvidos na Universidade de Oxford, sob comando do oftalmologista Robert McLauren.

Iniciada há 20 anos, ela pode reverter perda de visão causada pela coroideremia; técnica pode ajudar em outros casos, mostram estudos

NULL

NULL

Todos os seis pacientes entre 30 e 63 anos que se submeteram à cirurgia apresentaram melhoras, sendo inclusive revertidos os danos à visão daqueles cuja doença estava mais avançada. Ainda não há certeza se os efeitos serão definitivos – mas têm permanecido estáveis há pelo menos dois anos, tempo em que o primeiro paciente começou a ser acompanhado.

Divulgação

O desafio em Portugal  

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, Seabra desenvolveu sua  carreira – e sua notória pesquisa – no exterior, e hoje tem mais de 100 artigos científicos publicados e 7.500 citações de trabalhos de sua autoria. Concluiu o doutorado na Universidade do Texas, onde também foi professor. Tornou-se docente titular no Imperial College de Londres -cotada entre as dez melhores universidades do mundo-, antes de regressar a Portugal.

[Miguel Seabra também preside agência de formento à pesquisa em Portugal]

Desde 2012 preside a agência nacional de fomento à pesquisa no país (na sigla, FCT). É precisamente no cargo que Seabra tem acumulado críticas da comunidade científica portuguesa, descontente com a fuga de cérebros do país e os cortes ao número de bolsas concedidas – que chega a 40% nos níveis de doutorado e 65% de pós-doutorado em relação a 2013. Não há informações oficiais sobre desemprego ou emigração científica.

“Queremos um sistema mais competitivo”, defende Seabra. A estratégia é diminuir a dependência dos cientistas do Estado e incentivar a competitividade e a busca de financiamento em empresas ou editais internacionais. Isso se reflete nas taxas de aprovação nos concursos nacionais para bolsas, que caiu de cerca de 40% para menos de 10%. De outro lado, pesquisadores e associação de bolsistas têm se contraposto a tal política, alegando ser penosa à ciência a médio e longo prazo, além de não resolver – e, em alguns casos, piorar – a burocracia.