Quarta-feira, 7 de outubro de 2026
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A tomada de consciência de classe e o desejo de melhora das condições vida são sinais que o Egito vive um processo revolucionário. Esta é a afirmação feita por Aldo Sauda, estudante de Direito que, desde agosto, se mudou do Brasil para o Cairo, para acompanhar o efervescente quadro político da região.

“Hoje há mais de 12 mil civis em tribunais militares, mais do que na época de Mubarak. Porém, ninguém mais aqui tem medo de ser preso ou torturado. A população egípcia perdeu o medo de lutar contra este Estado”, afirma Sauda.

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Aldo Sauda/Arquivo pessoal

Na opinião do estudante, ainda não é possível saber como tudo vai terminar. “Uma mudança real na sociedade egípcia passa pela retirada do poder dos militares. Este poder não é só demonstrado pela força, mas principalmente pelo fator econômico. É preciso ver se os egípcios conseguirão isso.”

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O espaço mais democrático do Egito

Sauda acredita que as manifestações na praça Tahir continuam com força, mesmo após a queda de Mubarak. Para ele, as pessoas perceberam que, apesar da vitória com a saída do ditador, essa não é a única resposta para os problemas do Egito e que a revolução precisa continuar.

“Os manifestantes vão para a praça com os seus irmãos, amigos e primos, não na condição de integrantes de partidos políticos, até porque não existem organizações políticas sólidas no país. Há um forte sentimento familiar, que é algo muito interessante. O que sem tem aqui é povo atomizado na rua”, aponta.

Aldo Sauda/Arquivo pessoal

Por outro lado, Sauda comenta que esse caráter informal dos protestos evidenciam a falta de um projeto mais amplo ou de uma organização das exigências da população. Contudo, ele pondera, que isso é fruto do longo período de ditadura que impediu a formação de partidos e movimentos políticos organizados.

Ele também destaca o importante papel exercido pelas mulheres egípcias. Sauda explica que, em uma sociedade machista, a inserção das mulheres, em condição de igualdade com os homens, evidencia, para toda a sociedade, a necessidade da valorização da mulher.

“O exército e o povo são uma só mão” ?

Para Sauda, o exército é o principal alvo da insatisfação do povo egípcio. Uma situação bem diferente da vivenciada no dia da queda de Mubarak, quando os militares foram saudados pela população que cantava: “O exército e o povo são uma só mão!”.

“Eu pergunto aos meus amigos egípcios se eles também louvaram o exército e eles afirmam que sim. Mas esses mesmos amigos e boa parte da população que está na Tahir demonstram agora um ódio muito forte em relação aos militares”, diz.

O uso excessivo da força e da violência generalizada, por parte dos polícias, é uma das coisas que mais surpreenderam o estudante. Ele comenta que as ações das forças de segurança indicam que o objetivo não é manter uma suposta ordem e sim atingir fisicamente as pessoas.

Aldo Sauda/Arquivo pessoal

Não por acaso, um dos momentos mais lembrados e comemorados desde o início das manifestações pelas pessoas com quem ele conversa é o dia 28 de janeiro. Foi quando ocorreu uma batalha entre os manifestantes e os polícias, e a população saiu vitoriosa. “Desde esse episódio a polícia egípcia ainda não recuperou a força que tinha”.

Outro fato que ele aponta como decisivo, naquela ocasião, foi a percepção, por parte dos altos generais egípcios, de que quando os militares foram convocados para controlar as manifestações, foram apresentadas claramente duas opções: um genocídio generalizado dos manifestante ou a deposição do Mubarak.

“Os militares mais influentes politicamente optaram pela substituição do presidente para tentar acalmar a população. Mas algumas pessoas têm percebido que o exército não é a mudança que elas esperavam”.
 

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