“Praça Tahrir, por favor”. São duas e meia da manhã e a movimentação de pessoas e carros nas ruas do Cairo dá a impressão de que algo está acontecendo ou prestes a acontecer. Pegar um taxi não demora nem mesmo um minuto, apesar da grande demanda. É madrugada de quinta pra sexta, primeira noite de descanso no mundo árabe, onde o fim-de-semana é na sexta e no sábado. A maior cidade da África, com seus 15 ou 20 milhões de habitantes (ninguém sabe ao certo) fervilha entre a areia do deserto, as rígidas tradições e o cosmopolitismo.
Ahmed (nome fictício) tem 23 anos e já ensaia uma conversa com o taxista. “Rápido, por favor, porque quero participar do fajr (primeira oração do dia para os muçulmanos). Temos que orar a Alá pelo nosso país”. O taxista entende o pedido do jovem e tenta acelerar, enquanto ouve na rádio uma estação que toca os versos do Corão o dia inteiro, sem nenhuma interrupção.
Efe

Vista geral da Praça Tahrir, no Cairo, neste sábado (23/06), onde milhares de pessoas protestam às vésperas da divulgação dos resultados eleitorais
O trajeto de taxi margeia o rio Nilo e mostra um pouco da dimensão desta metrópole. Barcos muito iluminados se transformam em boates para os residentes ocidentais, turistas e egípcios da classe média-alta e os hoteis da região, de gosto kitsch e duvidoso, não economizam no mármore e nas referências mais óbvias, com cleópatras e pirâmides em cada letreiro. Carros de luxo engarrafam o sempre confuso trânsito do Cairo. Não muito longe dali, algumas dezenas de pessoas pescam no mítico rio. Outras tomam chá quente e fumam shisha, o cachimbo de água tao típico do Oriente Médio, sentados em cadeiras de plástico nas pontes que atravessam o Nilo.

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Efe

Egípcios participam de manifestação na Praça Tahrir nesta sexta-feira (22/06)
“Inshalá o Egito possa voltar a ser o país que sempre foi. Não podemos continuar com a junta militar governando”, diz Ahmed. Política virou o assunto preferido dos egípcios desde a revolução do início do ano passado. O tema que antes não era discutido por ninguém passou a ser mais comum do que futebol ou clima. A conversa de botequim (que no Egito seria sem cerveja, mas com muito chá) passou a começar sempre com a mesma pergunta “Como você vê a situação política do país no momento?”. O taxista, que traja uma túnica branca muito tradicional, não desconversa. Pelo contrário. Motivado pela discussão, concorda com a necessidade de que os militares deixem o poder, e continua: “A sharia (lei islâmica) deveria ser implementada no Egito. Esta é a minha esperança com a Irmandade (Muçulmana). Há muito tempo sou membro da juventude do Partido Liberdade e Justiça (braco político da Irmandade) e sei que eles vão ganhar no Parlamento quantas vezes forem feitas eleições”. A Irmandade Muçulmana e os salafistas obtiveram 70% dos votos nas eleições legislativas de novembro de 2011, mas o Parlamento foi dissolvido na semana passada, sob a acusação de inconstitucionalidade do processo eleitoral. Mustafa, o taxista, aproveita o semáforo vermelho e mostra a sua carteira de afiliado do partido.
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Num país fragmentado, a Irmandade Muçulmana ainda se apresenta como o único movimento realmente capaz de unir a população de todo o Egito. Defendendo valores islâmicos e com um discurso populista, a Irmandade parece estar por cima dos rumores e críticas, mostrando-se quase sempre como a única opção realmente conhecida da população. O movimento se organiza semanalmente em pequenas assembleias distritais, organizadas por gênero e idade, além de atuar socialmente nas comunidades, com apoio médico e educativo e atividades lúdicas para a população. “Não acho que Mursi (candidato da Irmandade Muculmana) seja a melhor opção, mas a situação não nos permite muita escolha. Defendo Mursi porque sou contra Shafiq (candidato que representa o grupo feloul, ex-membros do regime de Hosni Mubarak)”, conclui Ahmed, com o taxi se aproximando de Tahrir.
A corrida de taxi leva 15 minutos. Depois de oito quilômetros e 11 libras egípcias (aproximadamente 3,75 reais), já é possível sentir o espírito de Tahir. Bandeiras, barraquinhas de milho, pessoas vendendo algodão doce, controle para se aproximar das ruas adjacentes e muitas tendas por todos os lados.
“Cada vez que eu venho à praça, sinto de novo a revolução. É como se eu recarregasse as energias. Ver tanta gente lutando pela mesma causa é motivante”, conta Ahmed.
A maioria das pessoas que se encontra na praça faz parte de grupos partidários da Irmandade Muçulmana. Os grupos anti-Shafiq e revolucionários geralmente se unem durante o dia, mas não passam a noite na praça. A impressão é que a praça Tahrir se transformou numa grande mesquita a céu aberto.
Alguns muçulmanos começam o ritual da ablução, conhecido como Wudu, que consiste em lavar três vezes as extremidades do corpo expostas à sujeira, num sinal de respeito e pureza antes de qualquer oração.
Às 3h09, pontualmente, ouvem-se os muezins (encarregados da mesquita) chamando à primeira das cinco orações diárias. Os altofalantes ajudam na tarefa e o ambiente da praça rapidamente é tomado de misticismo e silêncio. As milhares de pessoas que estão reunidas na praça se voltam à direção de Meca, como indica a tradição, e iniciam os precisos ritos, acompanhados com atenção e paciência monásticas. Jovens, mulheres, crianças, vendedores, todos param suas atividades e conversas paralelas e ouvem os versos do Corão e as preces da comunidade.
“Não vamos sair de Tahrir. Venceremos pacificamente (insiste no advérbio). Enquanto a SCAF (Conselho Superior das Forcas Armadas) continuar no poder, nos continuaremos na praça. Cada dia que passa, temos mais força”, explica um dos líderes da juventude da Irmandade Muçulmana. Quando perguntado sobre os rumos da revolução e sobre o medo de alguns setores de que se transforme numa revolução islâmica, o líder é categórico: “Somos maioria e estes são os valores do Egito. Queremos que a Irmandade governe para todos, sem distinção, mas sempre respeitando as nossas crenças”. E completa: “Até mesmo para entender a revolução é preciso ler o Corão. Nós nos reunimos nas sextas-feiras em Tahrir porque este é o dia sagrado para os muculmanos. Segundo o profeta Maomé, o melhor dia do nascer do sol é na sexta-feira. Adão foi criado numa sexta, foi expulso do paraíso numa sexta, morreu numa sexta. E o Juízo Final será numa sexta. Por isso estamos aqui hoje, na sexta-feira”.
Terminada a oração, comida e água são distribuídas entre os manifestantes e o clima fraternal dá a impressão de que todos se conhecem. Saudações, apresentações de novos amigos, mãos dadas (comum entre os homens no Oriente Médio) e mais conversas sobre a situação política do Egito. O sentido de comunidade dos muçulmanos que estão na praça Tahrir deixaria com inveja qualquer grupo de jovens pentecostais ou senhoras católicas em excursão para Aparecida. Como num passe de mágica, surgem sacolas plásticas com doces árabes, pão com ful (o feijão local) ou com baba ganug (uma pasta de berinjela) e koshari (o prato nacional egípcio, que consiste numa mistura de arroz, lentilhas, macarrão, grão de bico e molho de tomate). Tudo isso antes das quatro da manhã.
O sol ensaia aparecer, mas para estes residentes temporários da praça Tahrir, é hora de descansar. Para os que não têm tendas, as calçadas viram camas improvisadas. E são centenas, talvez alguns milhares, de pessoas dormindo em Tahrir. As bandeiras que antes eram agitadas agora servem para tapar os olhos do sol que ja chegou ao Cairo.
Ao fundo, algumas dezenas de pessoas já começam os primeiros protestos: “Yaskot Yaskot Hokm al Askar” (“Abaixo, abaixo, o controle militar”. A frase virou o símbolo da revolução e é o toque do celular mais popular do Egito.
Às 5h30 o metrô abre e muitas pessoas começam a voltar para suas casas. Já é dia e o céu tenta ser mais azul, enganando a poeira e a poluição do Cairo, mas rende-se e mantém seu tom acinzentado.
Tahrir não é a mesma do início da revolução. Mas Tahrir resiste e continua sendo o princípio (e talvez um dia o fim) das mudanças políticas de um novo Egito.