Protestos na Patagônia chilena ganham força e conquistam a atenção de Piñera
Manifestantes ampliaram demandas e se tornaram um forte movimento social
Efe (28/02/2012)

Habitantes da cidade de Coyhaique carregam faixa com o slogan “Seu problema é meu problema”, em apoio a Aysén
O aeroporto provincial de Aysén, que na semana passada esteve ocupado pelos manifestantes e líderes comunitários dessa região da Patagônica chilena, recebeu na tarde desta terça-feira (28/02) o também patagônico ministro de Energia, Rodrigo Álvarez, que chega para tentar resolver o conflito que já dura 17 dias e tem colocado novamente em cheque o presidente chileno, Sebastián Piñera.
Nas duas semanas em que o tema teve pouca prioridade na pauta do governo, se viu o que era somente uma manifestação contra o aumento do preço dos combustíveis e o racionamento energético na região se tornar um amplo movimento social, cujas reivindicações se amparam em novas políticas públicas e maior autonomia.
Para o pescador Iván Fuentes, presidente do recém-criado MAS (Movimento Social de Aysén), a peculiar geografia vertical do país exige uma nova relação com as províncias: “nossos governos insistem num centralismo absoluto, que talvez sirva para os países ‘quadrados´. Aqui, onde a distância com a capital é muito maior, isso não funciona”.
Efe (27/02/2012)

A escassez de alimentos em Aysén se agrava a cada dia. Os supermercados têm 90% menos do que o necessário
Além da crise energética, a região agora sofre uma de abastecimento. Isso porque a principal medida de pressão dos manifestantes foi o fechamento de todas as vias de acesso terrestre à zona. Portanto, os principais supermercados possuem 90% menos que o necessário em alimentos de primeira necessidade, incluindo verduras, frutas, laticínios e carnes.
Segundo o porta-voz do Palácio de La Moneda, Andrés Chadwick, o ministro Álvarez deverá permanecer na Patagônia até o fim de semana, onde apresentará um plano de subsídios energéticos para toda a região de Aysén, além de contar com o aval do governo para negociar sobre outras demandas apresentadas pelos movimentos sociais, e também para tentar acalmar os ânimos, depois que se entidades internacionais de direitos humanos denunciaram abusos nos violentos confrontos entre manifestantes e as forças policiais.
O governo corre contra o tempo para solucionar o conflito antes que a volta às aulas, em março, reative a disputa com o movimento estudantil. Outras províncias também já ensaiaram um contágio dos protestos. Em assembleia comunitária na cidade de Calama, capital mineira do norte do Chile, foi decretado “estado de mobilização permanente”, para exigir que uma maior porcentagem dos recursos do cobre extraído na região fosse reinvestida na economia local.
O estopim energético
A crise em Aysén (província mais setentrional da Patagônia chilena, com aproximadamente 100 mil habitantes) começou em 11 de fevereiro, quando as organizações comunitárias decidiram, junto com os grêmios de caminhoneiros locais, fechar todas as vias terrestres que ligam a zona à única fronteira com a Argentina, em protesto contra os altos preços dos combustíveis e o racionamento energético, fatores que tem causado insatisfação generalizada em diferentes cidades, principalmente Puerto Aysén e Coyhaique, a capital da província.
As regiões patagônicas chilenas não possuem ligação terrestre entre si ou com o resto do Chile, o que obriga o acesso através do território argentino. Este obstáculo faz com que os combustíveis e muitos outros produtos sejam, nas regiões patagônicas, os mais caros do país. Em Coyhaique, o litro de gasolina comum não sai por menos de 1,100 pesos (equivalente a R$ 4). Nas pequenas cidades distantes da capital provincial, gasolina comum pode superar os 1,500 pesos, o que equivaleria a R$ 5,50 por litro – em Santiago, o litro da gasolina comum custa em média 760 pesos (equivalente a R$ 2,70).
O imposto específico sobre os combustíveis foi criado em 1985, depois que um forte terremoto afetou Santiago e boa parte da zona central do país. O então ditador Augusto Pinochet estabeleceu a cobrança adicional aos impostos em caráter provisório, para usar os recursos na reconstrução do país, mas logo a tornaria permanente, o que não foi alterado após o retorno da democracia ao país. Atualmente, o imposto específico corresponde a aproximadamente um terço do preço dos combustíveis.
No caso da estrada, apesar de o governo do ex-presidente Ricardo Lagos ter apresentado projetos que visavam estender a Rodovia 5 Sur até Aysén, a iniciativa esbarrou no fato de que 70 mil hectares do setor norte da província pertencem ao empresário norte-americano Douglas Tompkins, que é ligado a causas ecológicas e tem rechaçado sistematicamente os projetos que visam construir estradas em suas propriedades, algumas delas transformadas em parques ecológicos. Até o momento, Piñera não apresentou nenhuma proposta com respeito este tema.
“Tu problema es mi problema”
A falta de resposta para o problema energético fez o conflito se prolongar, e enquanto esperavam respostas de Santiago, os organizadores das primeiras manifestações foram construindo alianças com diferentes grupos sociais da região, conformando o MSA, criado sob o lema “tu problema es mi problema” (“Seu problema é meu problema”).
“Fomos descobrindo que todas as comunidades lidam com problemas que podem encontrar soluções conjuntas, e também a vontade recíproca de lutar junto por todas essas demandas”, explica Fuentes.
O que no começo era um slogan para estimular a união entre as diferentes organizações sociais, logo se transformou num lema que se espalhou por todo o Chile, servindo também para expressar a solidariedade das demais províncias, onde se organizaram manifestações de apoio a Aysén – a hashtag #TuProblemaEsMiProblema permanece entre as mais utilizadas no trend topics Chile do Twitter e em outras redes sociais há mais de sete dias.
Além do slogan de sucesso, o MSA também lançou um manifesto com 11 pontos programáticos: além do problema energético e da falta de acesso terrestre, o movimento solicita reformas estruturais em educação e saúde, programas visando equidade laboral, regionalização dos recursos hídricos, mineiros e pesqueiros, além de maior autonomia política, com o estabelecimento de plebiscitos vinculantes periódicas, para que a população possa decidir sobre os temas relevantes da região.
Segundo Fuentes, apesar da violência dos confrontos, o movimento é pacífico e não busca resultados políticos. “Sempre estivemos reunidos com as autoridades que nos procuraram e estamos abertos ao diálogo, o cenário político nacional não nos importa, porque é completamente alheio à nossa realidade”, diz o pescador, que garantiu que os poucos militantes políticos ligados ao movimento formam parte de frentes regionalistas, não vinculadas com os dois grandes blocos políticos do país (a governista Aliança e oposicionista Concertação, respectivamente de direita e de centro-esquerda).

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