Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
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O presidente chinês Xi Jinping voltou a alertar nesta terça-feira (03/02) sobre o avanço de “práticas de bullying unilateral” no cenário internacional, durante encontro com o presidente uruguaio Yamandú Orsi, que realiza visita de Estado à China. A declaração ocorre em meio a tensões geopolíticas no mundo e reforça o posicionamento de Pequim em defesa de um sistema internacional multipolar.

Durante conversas no Grande Salão do Povo, em Pequim, Xi Jinping afirmou que “o mundo atravessa mudanças sem precedentes em um século, a situação internacional está volátil e turbulenta, e as práticas de bullying unilateral estão se tornando mais desenfreadas”. O líder chinês destacou que a China está disposta a trabalhar com o Uruguai para “fortalecer a solidariedade e cooperação em todo o Sul Global”.

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Orsi, que assumiu a presidência uruguaia em março de 2025, respondeu alinhando-se à defesa do multilateralismo. O presidente manifestou que seu país está pronto para trabalhar com a China na promoção do respeito aos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, na defesa do multilateralismo e na proteção do sistema comercial internacional, além de avançar nas relações entre América Latina e Caribe com a China e defender os interesses comuns do Sul Global.

Atualmente, o país sul-americano preside simultaneamente a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e o Grupo dos 77 mais China (G77+China).

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China e Uruguai

As relações diplomáticas entre China e Uruguai, estabelecidas em 3 de fevereiro de 1988, representam uma das transformações mais significativas da política externa uruguaia. Durante quase quatro décadas após a Revolução Chinesa de 1949, o Uruguai manteve vínculos diplomáticos com Taiwan, mantendo contatos apenas marginais com a República Popular da China.

Com o retorno da democracia em 1985, o governo de Julio María Sanguinetti começou a avaliar o custo de não estabelecer relações com o gigante asiático em plena abertura econômica. Em 1988, sob a chancelaria de Enrique Iglesias, Montevidéu reconheceu oficialmente Pequim como único governo legítimo da China, rompendo com Taipei.

A partir da entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001, o intercâmbio bilateral disparou: em 2013, a China superou o Brasil como principal parceiro comercial uruguaio, destinatário atual de quase 30% das exportações do país (carne bovina, celulose, soja e lã).

O vínculo evoluiu de comercial para político-estratégico: em 2016, durante o governo de Tabaré Vázquez, foi estabelecida a Associação Estratégica; em 2018, o Uruguai tornou-se o primeiro país do Mercosul a aderir à Iniciativa Cinturão e Rota; e em novembro de 2023, sob a presidência de Luís Lacalle Pou, a relação foi elevada a Associação Estratégica Integral durante visita de Estado a Pequim.

Nos últimos anos, o Uruguai emergiu como principal defensor e articulador da proposta de um Tratado de Livre Comércio (TLC) entre o Mercosul e a China, posição que tem gerado tensões dentro do bloco sul-americano. Montevidéu manifestou firme intenção de avançar em negociações comerciais bilaterais com Pequim, embora a oposição de Argentina e Brasil a acordos unilaterais que violem as normas do Mercosul tenha dificultado a concretização.

A China demonstrou disposição para o acordo, que aceleraria o acesso de produtos uruguaios ao mercado chinês e posicionaria o país como nodo logístico no sul do Atlântico e plataforma para empresas chinesas na América Latina. A questão do TLC permanece como um dos principais temas da agenda bilateral e fonte de debate na integração regional sul-americana.

Xi Jinping manifestou que a aprovação das recomendações para a formulação do 15º Plano Quinquenal da China, durante a quarta sessão plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista, abrirá novas oportunidades para o Uruguai e países ao redor do mundo.

Presidentes do Uruguai e da China tiveram reunião bilateral em Pequim
Huang Jingwen / Xinhua

O mandatário chinês também destacou que os dois países deveriam fortalecer o alinhamento de estratégias de desenvolvimento e aprofundar a cooperação na construção de infraestrutura, e outras áreas como comércio, finanças e agropecuária.

Por sua vez, Orsi destacou que o crescimento das relações com a China representa agora uma política de Estado do Uruguai, com apoio unânime dos partidos políticos e da sociedade.

A visita marca um recorde na diplomacia uruguaia: trata-se da maior delegação já organizada pelo país para uma visita de Estado a qualquer nação, não apenas à China.

As conversações ocorrem exatamente 38 anos após o estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, em 3 de fevereiro de 1988. Xi Jinping observou que, apesar da longa distância geográfica, China e Uruguai compartilham ideais semelhantes e profunda amizade. “Sob as novas circunstâncias, os dois países devem dar continuidade às tradições passadas, aprofundar a parceria estratégica abrangente e deixar que a árvore da amizade China-Uruguai continue crescendo e florescendo”, declarou.

Orsi reforçou que a parceria estratégica abrangente entre os dois países está no seu melhor momento histórico. O presidente uruguaio reafirmou o firme apoio à política de Uma Só China e ao princípio “Um País, Dois Sistemas”, além de expressar aspiração em elevar a cooperação bilateral a um nível superior.

Entre as áreas prioritárias de cooperação mencionadas pelos líderes estão setores emergentes como desenvolvimento verde, economia digital, inteligência artificial e energia limpa, além dos campos tradicionais de comércio, investimento, ciência e tecnologia, combate à pobreza e intercâmbios culturais, educacionais e esportivos.

Após as conversações, os chefes de Estado testemunharam a assinatura de onze documentos de cooperação (ainda não divulgados), nas áreas de promoção de investimentos e comércio, entre outras.

Os dois países emitiram também uma Declaração Conjunta sobre o Aprofundamento da Parceria Estratégica Abrangente China-Uruguai.