Quarta-feira, 7 de outubro de 2026
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Grupo que revolucionou tango tradicional se apresenta em São Paulo nesta quinta-feira

Eles revolucionaram a cena de tango portenho com irreverência, provocação e brutalidade ao fundir a história musical de duas gerações.  À forte sonoridade das orquestras típicas tangueiras, acrescentaram atitude punk e estética moderna: no palco da OTFF (Orquestra Típica Fernandez Fierro), o clássico gênero musical argentino é tocado de forma visceral por jovens de cabelos longos e dreadlocks, roupas descombinadas e óculos escuros.

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Mas o estilo roqueiro dos integrantes vai além da música e da performance dos shows. Influenciados pela ideia do “faça você mesmo”, o grupo decidiu se organizar de forma autogestionária e produzir seus próprios discos sem a interferência de empresários e grandes produtoras por acreditar que o trabalho cooperativo é mais potente.

O trabalho inovador poderá ser visto em São Paulo nesta quinta-feira (14/03), no Sesc Vila Mariana, em apresentação única. No show, a orquestra irá tocar o repertório de seu último disco, o TISC. Gravado em estúdio em Buenos Aires e masterizado em Los Angeles, a quinta produção independente da OTFF conta apenas com composições próprias e os músicos prometem inovar, mais uma vez, o tango.

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O grupo se inspira no pianista e compositor argentino Osvaldo Pugliese, que nos anos 1960 se diferenciou de outros tangos contemporâneos, como o Gothan Project, ao manter a composição acústica clássica do gênero. “O tango continua sendo um material de experimentação, uma música viva”, explica a Opera Mundi Flavio “El Ministro” Reggiani, um dos quatro bandeonistas da OTFF.

Fernando Linares/Opera Mundi

A proposta inovadora desagradou àqueles mais apegados aos protocolos tradicionais do tango, mas atraiu muitos jovens que nem mesmo se interessavam pelo gênero musical muito vinculado às nostálgicas milongas ou aos clichês turísticos do país. Logo que surgiu nas ruas de San Telmo aos domingos em 2001, a orquestra despertou o interesse do publico que perguntava aonde poderia escutar mais desse “novo tango”.

A nova cara do tango: o CAFF

“Imagine que os lugares tradicionais de tango não eram do nosso agrado e muito menos, para as pessoas que diziam ‘eu não escuto tango e nem sei dançar; gosto do Fernandez Fierro”, conta “El Ministro” se referindo a regras internas das milongas, em que não sabe dançar o gênero não é bem-visto na pista.

A OTFF apenas ganhou um espaço próprio em 2004, quando fundaram o CAFF (Club Atlético Fernandez Fierro) no lugar de um grande galpão com piso de terra no bairro de Almagro. Os músicos reformaram o local e deixaram-no com cara própria: objetos de arte contemporânea e cortinas coloridas enfeitam o local, grafites e escritos políticos tomam conta das paredes de tijolos e o palco é cercado por arquibancadas e um conjunto diverso de cadeiras e móveis antigos. O globo de vidro de casas noturnas antigas e as luzes coloridas dão o toque final ao local.

Com cara jovem e música diferente, o CAFF se ergueu como o principal espaço musical da cena alternativa em Buenos Aires. Artistas de diferentes correntes do tango e de outros gêneros se apresentam no local, sendo que alguns são antigos integrantes do OTFF que formaram novos conjuntos.

Espectador pode esquecer-se dos clichês tradicionais do tango ao entrar no show da Orquestra Típica Fernandez Fierro

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De crianças a idosos, a OTFF lota as mesas e arquibancadas do galpão todas as quartas-feiras em sua apresentação semanal. Antes e depois do show, pessoas circulam para pegar bebidas, empanadas e o tradicional fernet no bar ao som de clássicos do rock; de vez em quando, trombam também com os próprios músicos conversando com os seus amigos.

Marina Mattar/Opera Mundi

O princípio anarquista de autogestão da orquestra também está presente no CAFF que, desde a bilheteria até a manutenção, é organizado de forma cooperativa pelos integrantes do grupo. A partir deste espaço, a OTFF organiza uma radio online com o lema “uma viagem ao tango de hoje”.

Não à banda de rock

A OTFF segue o modelo das “orquestras típicas” de tango, que tem como base ao menos 3 violinos, 3 bandoneons, piano, contrabaixo e que também pode incorporar violão, violoncelo e cantor. Atualmente, o grupo conta com 13 integrantes na faixa dos 30 anos divididos nessas diferentes funções.

O projeto de formar uma orquestra típica de tango, e não uma banda de rock ou de qualquer outro gênero musical, surgiu em 1998 e estava relacionada ao desejo desses jovens músicos de explorar e recuperar uma história quase perdida.

Marina Mattar/Opera Mundi

“Esta formação foi a que nos cativou desde o princípio, a orquestra tem uma potência sonora realmente comovente e é capaz de muita sutileza e violência”, explica “El Ministro”. Além disso, o bandeonista explica, “ainda há muito a ser descoberto e aprofundado no tango”.

Hoje, a OTFF é uma das poucas orquestras típicas de tango de Buenos Aires e, quando surgiu, em 2001, era ainda mais exceção. Esse tipo de formação clássica chegou quase a se extinguir devido a uma questão de custos, mantendo-se apenas os grupos financiados por universidades, teatros ou pelo governo argentina.

Tango visceral

“A OTFF nasceu em resposta a essa situação para dizer que é possível fazer um projeto por mais difícil e insolvente que seja, desde que exista vontade real de capacidade de organização”, afirma “El Ministro”. A ideia de recuperar a formação acústica tradicional traz consigo a nostalgia tão característica ao tango e que é muito presente também na performance musical do grupo.

Completamente entregues aos sons, os músicos interpretam as canções com a profundidade e a força típicas ao gênero musical do Rio da Prata. Walter “El Chino” Laborde, o cantor da OTFF, ainda traz o componente dramático do tango com toques teatrais: ele troca de roupa e acessórios durante o show e, por vezes, canta com os olhos vendados.

Despido de jargões passados e sem nenhuma plasticidade daqueles que tentam repetir a história, a OTFF encarna, nos palcos, o espírito tangueiro melancólico e visceral.

Serviço:

Orquestra Típica Fernandez Fierro
14/03, às 21h no SESC Vila Mariana (Rua Pelotas, 141 – São Paulo)
R$24,00 inteira
Não recomendado para menores de 12 anos

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