Terras raras podem ser ‘novo Pré-Sal’, avaliam especialistas
Brasil possui 21% das reservas mundiais dos elementos em disputa, mas exploração desses recursos requer avanço em tecnologia e criação de marco legal
Desde a chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, em janeiro deste ano, a questão das terras raras tornou-se um dos temas mais importantes do debate nas relações internacionais.
Em seus primeiros dias, a nova administração norte-americana deixou claro seu interesse por se apropriar de reservas desses minerais em outros países: esse afã se viu, logo de cara, em negociações com a Ucrânia, com Trump exigindo de seu homólogo, Volodymyr Zelensky, os direitos de exploração dos recursos ucranianos como pagamento pela ajuda militar dada pelos Estados Unidos na guerra contra a Rússia.
O Brasil não tardou em ser alvo dessa estratégia da Casa Branca. Em julho, dias depois de anunciado o tarifaço de 50% a centenas de produtos brasileiros que ingressam ao mercado norte-americano, Washington mencionou as terras raras brasileiras como uma das condições para uma negociação visando a diminuição das tarifas – postura que foi criticara pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O afã norte-americano pelas terras raras tornou o Brasil alvo inevitável dessa política, já que o país possui 22% das reservas mundiais conhecidas atualmente, sendo assim o segundo maior detentor desses minerais, atrás somente da China, que tem 53%.
Mas o que são as terras raras? Quais elementos formam parte desse conceito e por que elas se tornaram tão importantes? E, finalmente, como o Brasil pode aproveitar melhor essas riquezas?
Opera Mundi entrevistou dois especialistas, um geólogo e um professor de Relações Internacionais, para entender o que está em jogo e o papel que o Brasil pode desempenhar no tabuleiro da disputa mundial pelas terras raras.
Grupo dos 17
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos situados no grupo três da tabela periódica, dos quais 15 estão listados no grupo conhecido como lantanídeos, incluindo o lantânio e outros minerais relacionados: cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio.
Os outros dois elementos de terras raras são o ítrio e o escândio, que também possuem características semelhantes aos demais.
Pelo fato de eles estarem situados no mesmo grupo na tabela periódica, esses minerais têm propriedades químicas muito semelhantes, e isso tem consequência na maneira em que eles se apresentam na natureza.
Segundo José Haroldo da Silva Sá, doutor em Geociências pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente consultor do Governo Estadual da Bahia, os elementos de terras raras “geralmente são encontrados juntos, muitas vezes em um mesmo mineral, em proporções diferentes, mas estão sempre juntos, o que tem implicações muito importantes com relação ao refino, ou seja, a extração individual de cada um desses elementos”.
China e Brasil na frente
Apesar de o Brasil aparecer em segundo no ranking das maiores reservas, existe potencial para o país se aproximar da China no primeiro lugar, que atualmente parece distante em termos quantitativos.
O doutor Silva Sá afirma que as maiores jazidas brasileiras de terras raras estão situadas em Araxá e Poços de Caldas, em Minas Gerais; em Catalão, no Estado de Goiás; e em grande parte da região amazônica.
“Porém, estudos mais recentes mostram que há um potencial enorme de reservas nos estados do Sul do Brasil, e também no sudoeste da Bahia”, acrescenta Silva Sá.
O especialista acredita que essas estimativas “indicam que o Brasil tem um potencial de crescimento da reserva muito maior que a China”.
“A China já investiu muito no conhecimento geológico e em pesquisa, exploração mineral. A possibilidade de encontrar novas reservas importantes na China é menor do que a nossa, já que mais da metade do nosso território ainda precisa ser mapeado numa escala conveniente para que se possa identificar oportunidades e potencialidades minerais”, explica.
Novo Pré-Sal
O tamanho das reservas já conhecidas e o potencial de descoberta de novas jazidas, caso o mapeamento do território seja ampliado, são dois fatores que levam alguns analistas a enxergarem nas terras raras a possibilidade de um “novo Pré-Sal”.
Porém, os que acreditam nessa hipótese alertam para uma dificuldade que o Brasil não teve quando lidou com aquelas reservas gigantescas de petróleo reveladas nos Anos 2000.
O cientista político Bruno Lima Rocha, que também é professor de Relações Internacionais, lembra que “quando houve a descoberta do Pré-sal, o Brasil já era recordista mundial de explorações em águas profundas e tinha uma equipe de geólogos fantástica, além de ter a própria Petrobras, uma empresa estatal que naquele então já tinha mais de 50 anos de especialização no tratamento desses recursos”.
“No caso das terras raras, nós não temos essa autarquia especializada, então é preciso, em primeiro lugar, ter uma estratégia nacional para a exploração desses recursos, que deve decidir, por exemplo, se devemos criar uma nova estatal especializada no tema, ou criar um departamento de terras raras dentro da Petrobras, mas precisa ser algo muito potente, tanto para organizar a capacidade instalada, que o país já tem, como para fortalecer uma equipe de engenharia de minas e geociências, que também tem, mas precisa ser ampliada”, analisou Lima Rocha.
O analista também defende que o governo brasileiro crie um fundo soberano exclusivo, ou um novo canal de financiamento, para reforçar a estrutura necessária visando a exploração das jazidas de terras raras, e sugere, como exemplo, “aplicar 0,5% de imposto sobre exportações primárias (minerais e agropecuárias) e reverter isso em investimentos para a produção e exportação de terras raras, e também para correr atrás da tecnologia necessária para criar desenvolvimento a partir disso”.
“Acho que não estamos tão longe dessa capacidade. É preciso um planejamento, claro, mas nós temos as condições em termos de técnicos, de engenharia e de fontes de financiamento. Não há condições em termos de política interna, ao menos no curto prazo”, acrescentou o professor de Relações Internacionais, lembrando que o país viverá em 2026 um ano de eleições presidenciais, o que torna imprevisível o cenário político a partir do ano seguinte.

Brasil possui segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás somente da China
Camila Cunha / EBC
China e BRICS na frente dos EUA
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, por sua sigla em inglês), em seus informes mais recentes, apontam que o Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de elementos de terra raras.
Mesmo sendo a segunda maior reserva mundial, em termos quantitativos, o país está muito atrás da China, detentora das maiores reservas globais, com cerca de 46 milhões. Porém, também há uma diferença significativa sobre o terceiro lugar, que pertence à Índia, dona de 6,9 milhões de toneladas.
Essa estimativa foi feita por pesquisadores norte-americanos, que posicionam seu próprio país na sétima colocação mundial, com reservas de 1,9 milhão de toneladas – nesse quadro, os Estados Unidos ficam atrás, também, de Austrália, Rússia e Vietnã.
Vale observar, ademais, que na lista das dez maiores reservas de terras raras do mundo estão os cinco países fundadores do BRICS: a China está em primeiro, o Brasil em segundo, a Índia completa o pódio na terceira posição, a Rússia fica em quinto e a África do Sul ocupa o décimo lugar.
Porém, o doutor em Geociências José Haroldo da Silva Sá, ressalta outro fator que coloca a China na vanguarda no que diz respeito à exploração das terras raras.
“A tecnologia necessária para a extração e o refino dos minerais é uma questão primordial, e hoje apenas a China tem equipamentos avançados o suficiente para extrair, separar e refinar cada um desses 17 elementos. Os Estados Unidos estão correndo atrás, tentando alcançar essa capacidade, mas ainda não chegou ao nível dos chineses”, enfatizou.
Modelos de exploração e marco legal
Devido a esse fator, o doutor reconhece que “se o Brasil decidir buscar parceiros para a exploração desses recursos, o ideal seria uma parceria com a China, desde que essa possível parceria inclua transmissão de tecnologia e de conhecimento”.
Ademais, Silva Sá concorda com o professor Lima Rocha em que, mesmo sem ter as mesmas tecnologias chinesas, o país tem condições de explorar sozinho as reservas de terras raras, caso decida por esse caminho.
“Estamos montando um grupo de pesquisa com um laboratório em Belo Horizonte, que é uma iniciativa muito boa, e temos que buscar apoio das universidades para adquirir essa competência. É importante salientar que o Brasil tem capacidade intelectual suficiente para alcançar avanços nessa área, mas essa capacidade precisa ser estimulada, precisa de investimentos”, relata o especialista.
O analista político Bruno Lima Rocha defende o mesmo princípio, de que o Brasil tem condições de explorar sozinho os recursos, caso decida investir nessa possibilidade.
Na hipótese de optar pela exploração através de parcerias, o professor afirma que “o ideal seria buscar um contrato que nos permita desenvolver ciência e tecnologia, e no atual cenário, em que há interesses, por exemplo, de China, Rússia e Estados Unidos, os que menos entregam tecnologia são os Estados Unidos”.
“Porém, se formos pensar em termos pragmáticos, na mesma linha da política externa cautelosa do atual governo, o ideal seria um pool de empresas, como aconteceu, por exemplo, na exploração do Campo de Libra, onde tivemos um pool com empresas ocidentais e empresas chinesas”, enfatiza Lima Rocha.
Ao concluir, o professor destacou a importância de “criar uma normativa do Governo Federal – e que seja aprovada no Congresso, para não ser burlada pelos estados – deixando claro que ‘as terras raras e minerais estratégicos podem ser explorados por empresas estrangeiras’ a partir de determinados parâmetros, criando assim um marco legal, e a partir daí atrair investimentos”.























