Cartas do Chile: o outubro vermelho

Situação por aqui está longe de se normalizar: ainda que o governo tenha sido obrigado a desistir do aumento da passagem do metrô, o povo segue mobilizado

Estimado Fabio,

Por estas terras, estes últimos 10 dias foram especialmente significativos. Inaugurou-se no Chile um protesto social que ultrapassou, em muito, o que até então era conhecido. A raiva acumulada desatou, a partir do exemplo dos estudantes secundaristas, entre um segmento significativo de nosso povo explorado e humilhado, e adquiriu – e segue adquirindo – traços inesperados.

É que destruir e incendiar estações de metrô (cerca de 60), “saquear” massivamente supermercados, farmácias, lojas comerciais de todo o tipo e, então, fazê-las arder, não é algo menor e sim extraordinário! É verdade que o governo e os aparatos repressivos também “contribuíram” para esse esquema (as empresas de seguros não cobrem os saques e depredações provocadas pelos conflitos sociais, mas sim os incêndios... de modo que “colaboraram” para esta tarefa até os próprios donos dos locais afetados), mas, além disso, é inquestionável que o povo pobre participou massivamente nessa recuperação e até teve que disputar com os traficantes ou com grupos delinquentes organizados, centenas de milhares de mercadorias de todo o tipo. 

A repressão brutal por parte da polícia não tardou (ainda que é o pão de cada dia aqui, desde várias décadas) e como não foi suficiente, o Piranha (ou Piñera) teve que botar os milicos armados nas ruas. Desde sexta-feira (18/10) à noite, o Chile se militarizou, já que diante da desobediência popular foi decretado primeiro o “Estado de Emergência” e, depois, o “Toque de Recolher” (das 18:00 às 7:00 do dia seguinte). A violência que a repressão imprimiu sobre o povo foi brutal. Ainda se seguem contando os mortos (o governo reconhece até agora 20, mas sem dúvida são muito mais, pois as denúncias de pessoas desaparecidas aumentam dia após dia); já se vai uma centena de companheiros e companheiras que perderam algum de seus olhos pelas balas de borracha e projéteis que os militares e a polícia atiram diariamente sobre os manifestantes; são milhares de detidos, feridos, dezenas de mulheres violentadas, etc.

Talvez você saiba que nós estamos vivendo em Valparaíso há dois anos (talvez tenha conhecido em sua viagem), um porto pobre onde os efeitos de décadas de políticas econômicas neoliberais são demolidores. Nós temos nos somado diariamente aos protestos, e ver os jovens combatendo – provenientes, em sua maioria, dos setores populares – nos enche de energia e esperança. É impressionante vê-los combater, armar barricadas, sentir a ajuda mútua, recuperar-se do gás de pimenta que a polícia lança em todo lugar - e que provoca irritação, fecha a garganta, não permite respirar, que provoca coceira pelo corpo inteiro. Enfim, a luta é tremendamente desigual, porque esta nova “Batalha do Chile” tem a mesma dificuldade que a anterior, é o retrato da luta de um povo que tem como as únicas armas sua dignidade e convicção, uma organização fragmentada, muita improvisação, muitas pedras...

Rafael Edwards/FlickrCC
Manifestações no Chile: outubro vermelho

Pois bem, os ataques do povo atingiram o coração mesmo da rede de transporte e abastecimento alimentício. Esta Explosão Popular se desdobrou de tal maneira que se calcula que 25 mil locais comerciais foram afetados pelos “saques”, depredações e incêndios em todo o país. Da recuperação (não o saque) social (centenas de famílias pobres se uniram nas jornadas recuperativas) e do bendito fogo, passou-se para a mobilização massiva que somente em Santiago levou para as ruas 1 milhão e meio de pessoas sexta-feira passada. Ontem (domingo, 27/10), Valparaíso também se mobilizou massivamente (calcula-se que 200 mil pessoas saíram em marcha). Em todo o caso, em Valparaíso o comércio, formalmente estabelecido, está majoritariamente paralisado. Os comerciantes protegeram com placas de ferro seus estabelecimentos para que não fossem saqueados – diariamente centenas de manifestantes descem dos morros da cidade para incendiar ou saquear algum estabelecimento.

A situação por aqui está longe de se normalizar. Ainda que o governo tenha sido obrigado a desistir do aumento da passagem do metrô, o povo segue mobilizado, pois este fato (o aumento da passagem) não fez nada mais do que ascender a faísca de uma rebelião que vinha sendo forjado há alguns anos.

O mal-estar do povo é profundo (contra os baixos salários, aposentadorias miseráveis, conluios empresariais, políticos, policiais e militares corruptos, padres pedófilos, em geral, contra a precarização da vida do povo oprimido), de modo que muitos apostam que a mudança seja do mesmo calibre. O governo busca calar o povo por meio de uma feroz repressão e aposta em derrotá-lo pelo cansaço. 

Minha impressão é que toda essa semana seguirá sendo de grandes mobilizações no país e que a repressão pode se aprofundar. O povo quer a cabeça de Piñera, mas este canalha se aferra ao poder. Para além do que ocorra no curto prazo, creio que este outubro vermelho desferiu qualitativamente um duro golpe ao neoliberalismo no Chile. Aqui as pessoas dizem que “assim como o neoliberalismo nasceu no Chile, também irá morrer globalmente a partir daqui”. O povo já sabe como paralisar este país, ou seja, a ponta de fogo contra o capital. É muito provável que, ainda que as águas possam se aquietar nas próximas semanas, este aprendizado popular (de rebelião contra a propriedade) possa ser replicado nos meses e anos por vir, convertendo-se num exemplo a ser imitado em outras latitudes. 

Já não me alongo mais. Apesar da repressão, entre o povo se respira alegria, esperança, satisfação, felicidade. E é que tinha razão o velho Marx quando, nas confissões às suas filhas, dizia que sua ideia da felicidade era “lutar”. Assim, portanto, tentamos por aqui contribuir, na medida de nossas possibilidades, para esta luta popular, combinando-a com o cuidado com Emiliano (nossa cria), que é parte também da luta. 

Te deixo um forte abraço, companheiro.

Juan Cristóbal.


Juan Cristóbal Cárdenas é economista, Doutor em Estudos Latino-americanos (UNAM), professor da Universidade do Chile e da Universidade de Valparaíso. Tradução de Fabio Maldonado.

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