Fábrica de suicídios : Contrato de trabalho da Foxconn tem itens polêmicos e inacreditáveis

Em 2010, quatorze funcionários da fábrica da Foxconn se suicidaram. Para a Apple, é um lugar bem agradável

Marco Braghieri | Linkiesta

Na carta de admissão, felicitações “por fazer parte da família Foxconn”. Mas entre o cabeçalho e a assinatura do contrato exigida de cada operário chinês da gigante fábrica de montagem de iPhones e iPads, entre outros aparelhos, há ainda itens (inacreditáveis) a destacar, que não foram modificados desde 2010, quando ocorreram numerosos casos de suicídio nas instalações da Foxconn.

O segundo item: “Se eu tiver maiores dificuldades ou frustrações, procurarei meus familiares ou o diretor da empresa (...)”. E ainda: “Não farei mal nem a mim mesmo nem aos outros; a fim de permitir que a empresa proteja a mim mesmo e aos demais, confirmo que posso ser mandado ao hospital caso venha a ter problemas físicos ou mentais”.

No mesmo tom, no item 3, a Foxconn compromete os próprios funcionários a algo mais: “Em caso de infortúnios não acidentais (entre os quais suicídio e ferimentos autoprovocados etc.), confirmo que a empresa seguiu as leis e regulamentos e me comprometo a não processá-la, a não fazer exigências excessivas e não empreender ações drásticas que possam prejudicar a reputação da companhia ou causar problemas à operação cotidiana.” A carta integral pode ser encontrada no site Shangailist (www. shanghailist.com).

As condições de trabalho na Foxconn sempre geraram muita da polêmica. Em 2010, 14 funcionários se suicidaram. A empresa, dirigida pelo empresário Terry Gou, aumentou os salários e até a Apple se pronunciou sobre os suicídios. “Estamos em contato direto com os diretores da Foxconn e acreditamos que esta questão esteja sendo levada a sério”.

O próprio Steve Jobs, polêmico cofundador da Apple, afirmou, em julho de 2010: “Chegando lá você encontra uma fábrica, mas também restaurantes, cinemas, hospitais e piscinas.

Para uma fábrica, é até um lugar bem agradável”. A companhia, que emprega cerca de 600 mil pessoas e tem sua sede em Taipei, Taiwan, instalou redes de proteção ao redor de suas instalações, como divulgado pela BBC. Também se comprometeu a rever as horas de trabalho, os salários e as horas extras dos funcionários. Compromissos estes que, segundo a Sacom (Students and Scholars Against Corporate Misbehavior), não foram cumpridos.

A Sacom – fundada em Hong Kong em 2005 – é uma organização sem fins lucrativos formada por estudantes, que trata de melhorar as condições gerais de trabalho.

O relatório mais recente da Sacom descreve essa situação nos três campi (assim definidos) da Foxconn: Shenzhen, Chengdu e Chongquing, que prestam serviços para a Apple, HP, Nokia, Dell e outras empresas.
 
Foram realizadas cerca de 120 entrevistas com os trabalhadores, jovens de 16 a 30 anos, todos protegidos pelo anonimato. As conclusões do estudo “são baseadas nas entrevistas com os operários e nas observações dos pesquisadores”. Os trabalhadores, segundo a ONG, continuam sendo obrigados a fazer hora-extra; e continua sendo praticado um estilo militar de gerenciamento, sobretudo com relação aos novos funcionários.

Assim como há um ano, os compromissos assumidos pela Foxconn (e pela Apple), relata a Sacom, permanecem letra morta. Os salários continuam sendo calculados erroneamente, e as horas extras, não pagas.

No total, as horas de trabalho extracontrato chegam a 80, 100 por mês. Faltaria também proteção aos trabalhadores, e não haveria informação suficiente sobre os agentes químicos envolvidos no manuseio dos componentes eletrônicos.

O empresário da Foxconn, Terry Gou, 117º  lugar na lista de pessoas mais influentes do mundo, segundo os leitores da revista Time, está afastando as atenções da empresa para longe das instalações chinesas.

O investimento inicial no Brasil seria de 12 bilhões de dólares. Ainda em 2010, a Foxconn realocou algumas instalações da faixa produtiva no Sul da China para o interior do país, onde os salários são mais baixos.

Tradução: Carolina de Assis

Texto publicad originalmente em Linkiesta
 

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