A receita brasileira contra a fome

José Graziano leva experiência do Fome Zero para o mundo

Ricardo Kotscho | Revista Brasileiros

 

José Graziano da Silva, 61 anos, um professor baixinho e careca, muito boa gente, que nasceu por acaso em Illinois, assim como o presidente americano Barack Obama, e veio para o Brasil com três meses, nunca passou fome na vida. Filho de fazendeiro – do agrônomo José Gomes da Silva, que estava fazendo mestrado nos Estados Unidos quando ele nasceu –, Graziano ajudou a fundar o PT no início dos anos 1980, quando os donos de terra tinham pavor de Lula e das suas propostas de reforma agrária e, desde então, é um dos mais fiéis assessores do ex-presidente da República.
 
O professor dedicou sua vida acadêmica e profissional a estudar meios para combater a fome, participou de todas as
campanhas de Lula e chegou ao primeiro Ministério formado pelo ex-líder metalúrgico nascido no sertão pernambucano. Como ministro do Fome Zero, foi encarregado de cuidar do principal projeto do governo Lula: garantir a todo brasileiro três refeições por dia.
 
Os dois atravessaram o país de ônibus, trem e barco nas Caravanas da Cidadania, em 1993-94, levando na bagagem o Projeto de Segurança Alimentar, resultado de estudos coordenados pelo Instituto Cidadania. Quase vinte anos depois, a dupla se juntará novamente. Lula e Graziano têm planos comuns para trabalhar no combate à fome na África. Esta é a prioridade tanto do ex-presidente, como do novo diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), cargo para o qual Graziano foi eleito em junho e assume em janeiro de 2012.
 
Dedicado seguidor dos ensinamentos de Josué de Castro, o médico nutricionista e professor de Geografia Humana, político e escritor, pioneiro a diagnosticar, ainda nos anos 1930, que os trabalhadores com problemas de saúde no Nordeste sofriam era de fome, Graziano nos ensina uma simples lição: “O primeiro passo fundamental para acabar com a fome é fazer o que fez Josué de Castro: convencer as pessoas de que a fome é um problema criado pelos homens e que, portanto, são os homens que podem resolvê-lo. Isso está ao nosso alcance”.
 
Você assume o cargo de novo diretor-geral da FAO em janeiro de 2012. Quais são seus planos até lá e quais devem ser as prioridades dessa agência que detém o maior orçamento da ONU?
 
Eu vou fazer três coisas fundamentais até janeiro. A primeira delas será viajar para visitar todos os vinte escritórios da FAO ao redor do mundo. Um dos pontos mais importantes da minha plataforma foi justamente impulsionar a descentralização. A FAO gasta, hoje, três quartos do seu orçamento em Roma e tem uma concentração quaseabsoluta de efetivos trabalhando por lá. Ela tem mais de três mil funcionários, sendo 80% deles, quase 2.500 pessoas, trabalhando em Roma. Quero distribuir esse pessoal e, para tanto, preciso conhecer os escritórios regionais e concluir onde é que precisamos de reforços. Outra questão é cuidar do orçamento. A Assembleia aprovou o orçamento em níveis globais e agora terei de aprovar os detalhes. Tenho de entrar nessa discussão e colocar as minhas prioridades, porque esse será o “meu” orçamento.
 
E qual será a terceira prioridade?
 
A outra prioridade é o tema da mulher rural. E um papel importante da FAO é reforçar seus propósitos. Ela se autodenomina a “knowledge institution”, uma organização do conhecimento. Essa é a definição oficial da FAO, que se encontra, inclusive, no site. É uma verdadeira universidade da luta contra a fome. Junta todas as informações das boas experiências ao redor do mundo, acumula e provê essas informações. Além disso, é ela que faz as estatísticas. Todos esses índices de preço que a gente vê publicados, é a FAO que coleta em todos os países. São estatísticas de produção, preço e consumo. Ela tem uma função normativa muito importante. Todo mundo quefor comer alguma bolacha, arroz ou feijão, se observar a embalagem, vai ver que tem lá uma série de “nutrition facts”, aquelas regrinhas de nutrição. Aquilo é a FAO que faz. O que pode e o que não pode ser utilizado para produzir enlatados e tudo o que faz bem ou mal para a saúde, em termos de alimentação é ela que define.
 
A gente pode resumir para um leigo que a FAO é, então, um organismo que não só combate a fome, mas também diz o que comer? 
 
O mais importante é saber que a FAO não é um organismo financeiro. Ela não faz empréstimos e não dá dinheiro. A assistência técnica da FAO é fazer projetos. Veja, por exemplo, a grande crise que nós estamos enfrentando agora no chamado “Chifre da África”, em países como Buti, Iêmen, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia, até a divisa com o Quênia. Já andei por lá e é fácil concluir que temos duas causas para a fome no mundo: os desastres naturais – esses países enfrentam uma seca de dois anos! – e a guerra. O maior causador da fome ainda é a guerra. Tanto é que a FAO foi criada com a ideia central de que, acabando com as guerras, podemos acabar com a fome. Não havendo guerra, as condições fundamentais – sine qua non para erradicar a fome – estão dadas.
 
É possível acabar com a fome no Brasil e no mundo, ou a tendência é aumentar o número de miseráveis em decorrência das crises econômicas e das guerras?
 
Temos hoje, pela primeira vez na história, as condições para acabar com a fome. Dispomos de tecnologias que nos permitem duplicar a atual produção de alimentos sem nenhum impacto ambiental adicional. Nós não temos restrições de produzir em nenhum lugar do mundo. Temos, sim, é um problema de distribuição dessa produção.
 
Você disse que é possível produzir o dobro de alimentos. Qual é a quantidade produzida hoje?
 
Algo da grandeza de 2,5 bilhões de toneladas de cereais, com um estoque de 500 milhões. Dá mais ou menos uns três bilhões, que consideramos um estoque de passagem. É possível dobrar esse número, mas hoje falta vontade política de priorizar o combate à fome, por conta do problema de distribuição. No Brasil, há menos de dez anos, já éramos um dos maiores exportadores de alimentos do mundo e tínhamos 30% da população sujeita à fome. Precisou vir um cara como o Lula, que tinha passado fome, para dizer: “Olha, vamos dar dinheiro para esse pessoal comprar alimento!”. Para tanto, foi necessária uma primeira ação emergencial, porque você não pode pedir a quem tem fome para que espere. Depois, demos a essas pessoas acesso aos alimentos e procuramos agora combater essa contradição, pois nosso País não pode continuar a ser o maior exportador de alimentos do mundo e aceitar a fome dentro dele. Adotamos uma série de saídas emergenciais, para providenciar o acesso à comida para aqueles que não têm renda, mas veio também um aumento real do salário mínimo, a criação de 15 milhões de novos empregos, o aumento real da renda do trabalhador, e um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, mais voltado para a força do mercado interno. Acabar com a fome não é apenas distribuir alimentos.
 
Nas muitas viagens das Caravanas da Cidadania do Lula, você viu a fome de perto. Qual foi a cena que mais ficou marcada em sua lembrança?
 
Eu nunca me esqueço de duas cenas das caravanas que influenciaram muito as prioridades do Fome Zero. As duas foram no Nordeste. Uma delas foi quando chegamos a uma cidade onde uma barragem havia arrebentado há dois anos e ainda não havia sido reparada. As pessoas procuravam armazenar água da maneira que podiam. Eu me lembro de que a gente estava na casa do prefeito, e o Lula pediu um copo d’água. O prefeito levantou uma tábua do assoalho e, com uma canequinha, pegou a água que estava em uma cisterna embaixo do assoalho da casa. Uma água que tinha de deixar decantar, de tão suja que estava. Isso foi no Ceará, perto de Sobral, cidade de Ciro Gomes.
 
E a outra?
 
A outra foi uma cena que se repetia muito nas feiras de rua. Ficava muito impressionado com o que via, porque eu conseguia encontrar maçã argentina e não conseguia encontrar uma fruta nordestina. E o Nordeste é uma das regiões frutícolas mais ricas do País. Não tínhamos nenhuma capacidade de promover o que era nosso. Outracena a que assisti e não esqueci aconteceu em Guaribas, no Piauí, onde começou a ser implantado o Fome Zero. Quando começamos a incentivar a criação de galinhas, as pessoas não queriam comer aquelas galinhas sertanejas, pois estavam acostumadas a comer frango congelado importado de São Paulo. Esta ideia de não valorizar a produção local está na base da fome, da insegurança alimentar. Perdemos, hoje, de 30% a 40% em transporte e armazenagem. Só isso daria para acabar com a fome no mundo. É fundamental regionalizar a distribuição.
 
Você pretende combater a fome no mundo, principalmente na África, assim como o Lula. De que forma vocês dois podem voltar a atuar juntos?
 
Ele pretende criar, no Instituto Cidadania, que vai se chamar Instituto Lula, uma área dedicada ao combate à fome na África, e nós pretendemos, na FAO, tê-lo como Embaixador da Boa Vontade. O primeiro passo fundamental para acabar com a fome é fazer o que fez o Josué de Castro: convencer as pessoas de que a fome é um problema criado pelos homens e que, portanto, são os homens que podem resolvê-lo. Isso está ao nosso alcance. O que ainda está faltando é o que se chama vontade política. Penso que o ex-presidente Lula poderá nos ajudar imensamente, não só pelo exemplo das coisas que ele fez aqui no Brasil, como também por todo o carisma que ele tem no continente africano.
 
Entrevista originalmente publicada na Revista Brasileiros
 

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