Floresta de Fósseis

Ela fica na Bacia do Parnaíba e é uma das mais antigas do Hemisfério Sul

Luciana Christante | Unesp Ciência

 

 
 
 
Era um domingo como outro qualquer em Nova Iorque. Por volta das 10h da manhã o sol já impunha respeito e várias famílias curtiam a praia. Crianças brincavam na areia ou na água, e adultos batiam papo e bebericavam em torno de mesas de plástico sob a sombra das árvores. Não parava de chegar gente. Trilha sonora: o típico brega nordestino.
 
À beira do lago da Hidrelétrica de Boa Esperança, no rio Parnaíba, esta pequena cidade do interior do Maranhão fica a mais de 500 km de distância de São Luís, na fronteira com o Piauí. É uma espécie de oásis no Cerrado, que oferece diversão e umidade aos nova-iorquenses e moradores de municípios vizinhos que passam por ali nos finais de semana.
 
No penúltimo domingo de julho de 2011, porém, estes descontraídos cidadãos interromperam por um instante o que faziam para observar a chegada de um grupo de oito forasteiros que não pareciam ter vindo para pegar praia. Não mesmo. Eles estavam atrás de fósseis. Procuravam os restos de uma floresta fossilizada.
 
O grupo “alienígena” era formado por cinco homens e três mulheres, todos usando chapéu, blusa de manga comprida, calça e botina. A maioria tinha pele muito clara. O mais alto carregava na mão um martelo e o mais magro, de cabelos longos e sotaque estrangeiro, andava na frente perguntando sobre um tal barqueiro, que sabia onde ficavam “as pedras que parecem madeira”.
 
Mas o rapaz não veio e o jeito foi esperar por uma embarcação maior, que só poderia sair à tarde. Um mau presságio rondava os pensamentos daquele que segurava o martelo. “O níveldo rio está muito alto. Acho que vai estar tudo debaixo d’água”, comentou.
 
Tocos petrificados
 
Enquanto esperavam, os forasteiros se aboletaram no quiosque de seu Alzair, um pescador cearense, nova-iorquense de coração e que – como se descobriria depois – gosta muito de ler. Ao saber das intenções deles, seu Alzair aproveitou para tirar uma dúvida antiga que deixou o grupo embasbacado.
 
Ele perguntou se os tais tocos petrificados eram de antes ou depois de o Brasil se separar da África, referindo-se ao fenômeno geológico que ocorreu cerca de 150 milhões de anos atrás e deu origem ao Oceano Atlântico. Antes, muito antes, responderam os paleontólogos. 
 
Era o quinto dia de uma expedição que reuniu representantes da Unesp e de duas universidades federais – do Piauí (UFPI) e do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao todo, dois professores, três pós-graduandos, uma aluna de graduação, mais a repórter e fotógrafo de Unesp Ciência.
 
O saldo daquele domingo foi parecido com o dos dias anteriores, como resumiu Rodrigo Neregato, doutorando
da Unesp em Rio Claro, quando já estávamos de volta ao quiosque de seu Alzair, tomando cerveja enquanto o sol caía: “Tá louco, nunca vi um (estudo de) campo tão fraco”.
 
De fato, a maioria dos troncos fósseis estava submersa, mas o lugar parecia promissor, a julgar pelo material achado nas bordas do lago. Roberto Iannuzzi, professor da UFRGS (o homem do martelo), não se abateu. “Temos de voltar com o nível
da água mais baixo.” Para Juan Carlos Cisneros, um salvadorenho radicado em Teresina, docente da UFPI, a situação era trivial. “O paleontólogo tem de ser muito insistente e ter um pouco de sorte.”
 
Há poucas florestas petrificadas no mundo. E a queexiste na Bacia do Parnaíba é uma das mais exuberantes e mais antigas do hemisfério sul. Os troncos fossilizados que este grupo de cientistas rastreia são joias que ajudam a entender uma parte ainda pouco estudada da história da vida no planeta.
 
Erupções vulcânicas
 
Estamos falando de um tempo em que nenhuma planta era capaz de dar flor. Os únicos seres vivos quevoavam eram os insetos, alguns deles gigantes. Entre os vertebrados, só havia anfíbios ou répteis. E ainda levaria muito, mas muito tempo, até nascer o primeiro dinossauro.
 
A cabeça desses pesquisadores está na era Paleozoica, mais especificamente no período Permiano, que na régua do tempo geológico vai de 300 milhões a 250 milhõesde anos atrás.
 
Florestas fossilizadas são raras porque, para que um vegetal se petrifique em vez de apodrecer, são necessárias condições ambientais particulares. “Os caules têm de ser impregnados por um mineral, geralmente sílica, dissolvido no meio aquático”, explica Iannuzzi. A origem da sílica costuma ser as cinzas de erupções vulcânicas. 
 
Neste caso, o vulcão devia estar a muitos quilômetros de distância. Talvez no que hoje é a África, muito mais próxima naquela época, já que os continentes ainda não haviam se separado. “Não temos evidências de atividade vulcânica na Bacia do Parnaíba, então imaginamos que as cinzas se depositaram em algum lugar e depois foram carregadas até aqui pela água”, diz o paleontólogo da UFGRS.
 
Impregnados pela sílica cuspida por algum vulcão paleozoico, estes tocos de madeira com peso e consistência de pedra ajudam a imaginar o que foi a vegetação daquele lugar no Permiano, muito diferente do Cerrado atual, bastante verdejante em julho, quase sempre de média estatura, com troncos ásperos e retorcidos.
 
Naquela era remota, as donas da paisagem eram as samambaias de grande porte, com até 15 metros de altura. Um pouco menos abundantes eram as árvores coníferas, ancestrais longínquos dos pinheiros atuais. As cavalinhas, “um tipo de bambuzinho que existe até hoje, só que gigante”, eram mais raras, descreve Neregato, que as estuda em seu doutorado.
 
Para cada um dos grupos anteriores também há um doutorado em andamento. As coníferas são o assunto deFrancine Kurzawe, na UFRGS, que fazia parte da expedição. Já as samambaias ficam por conta de Tatiane Marinho, na Unesp em Rio Claro, que não viajou porque tinha de entregar a tese por aqueles dias.
 
Estresse ambiental
 
Na incursão de julho, o principal objetivo foi identificar novos sítios de ocorrência das madeiras petrificadas. O grupo começou a estudar a Bacia do Parnaíba há alguns anos. O que dá para dizer até agora é que estas plantas viveram numa grande planície por onde passava uma malha de rios estreitos e rasos, com clima quente e seco, alternado por estações úmidas, possivelmente palco de grandes enxurradas.
 
“O fato de haver uma planta dominante na paisagem – no caso, as samambaias –, por si só é indicativo de estresse ambiental”, diz Rosemarie Rohn, da Unesp em Rio Claro, por telefone. Ela é orientadora de Neregato e Tatiane, mas não pôde fazer parte da expedição. Rosemarie conta com orgulho sobre as folhas coletadas por sua aluna (um golpe de sorte, pois encontrar caules é a regra) que corrobora a ideia de um clima inóspito. “As folhas parecem uma bolsinha,a parte reprodutiva está totalmente protegida”, diz. “Isso é sinal de estresse, provavelmente de pouca água.”
 
Nesta planície fluvial de clima aparentemente tropical havia espaço também para pequenas praias de água salgada. Línguas de mar adentravam o continente pelo oeste, vindas do Oceano Pantalassa, que deu origem ao Pacífico – a Cordilheira dos Andes ainda não existia. Um dos pontos de parada da viagem foi uma dessas paleopraias, onde hoje fica uma pedreira da qual se extrai calcário, no município de Pastos Bons (MA).
 
Não há a menor chance de achar troncos petrificados na pedreira, mas para os pesquisadores é uma oportunidade de entender melhor o paleoambiente, investigando as paredes arrebentadas pela ação das britadeiras. “Está vendo isso?”, aponta Iannuzzi. “São ondinhas fossilizadas.” Mais adiante ele mostra uma greta de ressecamento (rachadura do solo) também fossilizada, aprisionada no sedimento, e compara com uma atual que se formava a poucos metros de distância.
 
Impressiona a quantidade de informações que os paleontólogos conseguem deduzir a partir da observação de barrancos, que eles chamam de afloramentos. Tanto que durante a viagem eles paravam várias vezes na estrada para analisar evidências de dunas e de outros tipos de formações geológicas. Alguns centímetros de sedimentos podem significar a passagem de milhões de anos. “As camadas de sedimento sãocomo as páginas de um grande livro que conta a história da Terra”, compara Juan Carlos Cisneros, da UFPI.
 
Grande tragédia
 
O Permiano durou 50 milhões de anos, o que é muito tempo até para quem está acostumado a trabalhar na escala geológica. Os pesquisadores ainda não sabem ao certo, mas supõem que a floresta fossilizada tenha estado em pé entre o início e a metade desse período (ou seja, entre 300 milhões e 275 milhões de anos atrás).
 
O fim do Permiano – há 250 milhões de anos – é marcado por uma grande tragédia: uma extinção em massa muito mais devastadora do que aquela que extinguiu os dinossauros no fim do período Cretáceo, 65 milhões de anos atrás. A extinção do Permiano foi a maior catástrofe global de todos os tempos. Varreu do mapa mais de 90% das espécies de seres vivos. Os trilobitas, por exemplo, invertebrados marinhos de corpo achatado, estão entre os que sucumbiram.
 
Diferentemente do cataclismo que acabou com a vida dos dinossauros, deflagrado por um asteroide que colidiu com a Terra, a grande extinção em massa do Permiano teve origem em gigantescas e prolongadas erupções vulcânicas na Sibéria – fenômeno conhecido como Armadilhas Siberianas.
 
A quantidade de cinza expelida na atmosfera foi tão brutal que o planeta primeiro esfriou, para depois arder em decorrência do efeito estufa. Acredita-se que a temperatura tenha se elevado em até 10 °C.
 
O cenário de destruiçãodurou muito tempo, acredita- se que pelo menos 80 mil anos. Grandes desertos se espalharam pela Terra no período Triássico, que se seguiu ao Permiano. Levaria muito tempo até que a biodiversidade se recompusesse.
 
Segundo os pesquisadores brasileiros, a Bacia do Parnaíba parece ter começado a virar deserto bem antes disso. Provavelmente foi um fenômeno local, que talvez tenha se emendado com o processo de desertificação global. É difícil saber, mas talvez este projeto ajude a fornecer alguma pista nesse sentido.
 
“A Bacia do Parnaíba ainda é muito pouco explorada”, afirma a brasileira Martha Richter, curadora de paleontologiade vertebrados do Museu de História Natural de Londres e colaboradora do projeto. “É importante que comece a ser estudada sistematicamente, porque é um lugar muito interessante para entender as mudanças climáticas ao longo do Permiano, inclusive a grande extinção em massa.”
 
Surpresa desagradável
 
Segundo Richter, para encontrar respostas definitivas para questões tão complexas para a paleontologia “é preciso coletar fósseis em várias partes do mundo e tentar correlacioná-los numa linha de tempo”. É por isso que os recentes estudos nessa região do Cerrado nordestino já atraem a atenção de paleontólogos estrangeiros dedicados à pesquisa do Permiano. O projeto brasileiro conta com colaboradores da Argentina, da África do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos.
 
A Bacia do Parnaíba não era muito estudada até recentemente mais por dificuldades de acesso e infraestrutura do que por desinteresse dos cientistas. “Nunca houve paleontólogosresidentes na região”, justifica Cisneros, que se tornou o primeiro após sercontratado pela UFPI há cerca de um ano. “É um lugar distante dos grandes centros de pesquisa, de logística complicada para estudos de campo”, complementa.
 
Agora, tendo o pesquisador como base de apoio local, os projetos ganham novo ritmo. Em duas confortáveis caminhonetes, a equipe rodou quase 2 mil quilômetros ao longo de dez dias. “É o tipo de viagem que não se pode fazer num carro só, até por questões de segurança, como deu para perceber”, diz Iannuzzi, referindo-se ao imprevisto ocorrido logo no primeiro dia da expedição.
 
Após atravessar com dificuldade um caminho de pedras graúdas e pontudas para chegar até um lugar onde havia madeiras fósseis, um dos pneus de uma caminhonete estourou. Na tentativa de trocá-lo, veio a surpresa desagradável. O macaco não aguentava o peso do veículo, acabou entortando e não prestou mais. O borracheiro mais perto ficava a uns 20 km de distância.
 
 
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Publicado originalmente na revista Unesp Ciência e reproduzido no número 02 da revista Samuel
 

 

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