Renovação chinesa

País experimenta fontes de energia limpa

S. Julio Friedmann | Foreign Affairs


Com tantas fábricas e usinas sendo abertas diariamente, a China é o país que mais emite gases estufa

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Para os entusiastas da energia, a China se tornou o principal evento. O país consome mais energia e emite mais gases do efeito estufa do que qualquer outro na Terra. Sua produção de eletricidade também está crescendo. A cada ano, a China gera quase 100 mil megawatts a mais do que no ano anterior – mais que o total produzido pela Califórnia ou Texas. A escala das mudanças de infraestrutura que isso acarreta é impressionante: a cada semana, uma grande usina a carvão é aberta em algum lugar da China. Isto levou a poluição generalizada, problemas de saúde e degradação ambiental — a um custo para a economia chinesa de cerca de 11% do PIB.

Mas este não é um daqueles tradicionais alertas sobre o desenvolvimento sujo: a China encarou esses desafios, e a necessidade de gerar energia e 20 milhões de novos empregos por ano, como um estímulo para investir em tecnologia limpa. Na verdade, com o governo colocando mais de US$ 50 bilhões por ano na pesquisa e desenvolvimento de energias limpas, a China virou um polo global de inovação energética.

O progresso do país é impulsionado por uma combinação de exigências governamentais e investimentos diretos. Os exemplos são muitos. Uma lei de 2007 obrigou a uma melhora na eficiência energética de 4% por ano até 2012, inclusive nos setores industrial e de transportes. Desde então, a eficiência total no setor energético cresceu quase 10%, e deve continuar subindo. Tais exigências são acompanhadas por regras de controle das emissões de enxofre e da limpeza das águas, pelo fechamento de muitas usinas a carvão e fábricas de cimentos ineficientes, e por novos investimentos em energia solar, eólica e de outras fontes renováveis.

E, ainda por cima, o 12º plano quinquenal chinês, adotado em 2011, acrescentou metas para o desenvolvimento nativo de tecnologias limpas. Essas inovações estarão voltadas principalmente para o uso doméstico, embora haja um crescente interesse dos mercados internacionais por tecnologia limpa. Muitos projetos financiados pelo Estado agora exigem que 80% da tecnologia utilizada seja nativa. Duas agências são responsáveis ​​por fiscalizar o cumprimento. A primeira é a ANE (Administração Nacional de Energia), que aprova o financiamento e a construção de praticamente todos os grandes projetos energéticos. Em segundo lugar, o MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia) administra as mais de cem academias chinesas voltadas para pesquisas com tecnologias limpas. Em 2010, a China direcionou por meio dessas duas organizações dezenas de bilhões de dólares para inovações “verdes”.

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Superação dos obstáculos

Os enormes investimentos estatais permitem que Pequim faça o que a iniciativa privada mundo afora não consegue. A geração de energia exige um enorme capital inicial para investimento; o custo total para construir uma moderna usina solar, eólica ou nuclear frequentemente supera US$ 1 bilhão. O gasto elevado torna tais projetos arriscados para os mercados de capital do resto do mundo, e ainda mais para empresas individuais. Com frequência, os bancos privados só querem ir a reboque e investir em usinas de segunda geração, e não nas usinas de primeira geração com um novo conceito. O apoio da ANE e do MCT ajuda os projetos a superarem tal obstáculo.

Um bom exemplo é a Huaneng, maior empresa elétrica do mundo, que gera cerca de 160 mil megawatts por ano — 30% mais que o Texas. A cada ano, ela adiciona 13 mil megawatts de geração — aproximadamente a mesma capacidade atual de Massachusetts. Para atender às muitas exigências de energia limpa do governo, a Huaneng planeja instalar usinas eólicas capazes de gerar 10 mil megawatts por ano (quase o total da geração eólica dos EUA), e painéis solares capazes de gerar outros 10 mil megawatts (mais do que o total dos EUA). Até 2025, a Huaneng espera adicionar mais de 50 mil megawatts de energia hidrelétrica, e 10 mil megawatts de energia nuclear. Enquanto isso, continuará agregando quase 50 megawatts de energia a carvão.

Além de produzir energia, a Huaneng inova através do seu Instituto de Pesquisas da Energia Limpa, financiado por receitas próprias, pela ANE e pelo MCT. Ele projetou e construiu localmente duas importantes tecnologias limpas a carvão na última década. A primeira é um gaseificador que transforma o carvão em gás sintético com alta eficiência e poluição ultrabaixa. A segunda é uma nova tecnologia de captura que elimina o CO2 das emissões das usinas a carvão. Trata-se aparentemente da maior instalação mundial de captura de carbono pós-combustão – e da mais barata. Os prazos estabelecidos nas exigências governamentais trouxeram esses projetos à vida em apenas três anos, e já levaram a acordos internacionais de licenciamento e a propostas para novos projetos na América do Norte e Europa.

Tecnologia limpa

Outras empresas também estão desenvolvendo tecnologia limpa a partir do zero, tanto para uso doméstico quanto para exportação. O Grupo XinAo, a Shenhua, a Rede Elétrica Estatal e a CNOOC, todas elas grandes empresas energéticas chinesas, criaram suas próprias subsidiárias voltadas para a inovação, amparadas pelo poderio financeiro das suas matrizes e do Estado. Esses esforços incluem películas de energia solar, biocombustíveis, baterias, veículos eficientes, carvão liquefeito, gás de xisto e redes elétricas inteligentes. Em muitos casos, as empresas chinesas chegaram a formar joint ventures com companhias dos Estados Unidos para acelerar o desenvolvimento e a comercialização no Ocidente. A Lishen, por exemplo, uma das maiores fabricantes mundiais de baterias, embarcou numa empreitada de US$ 7 bilhões para melhorar por conta própria a tecnologia das baterias, com acordos de licenciamento nos EUA.

Ao mesmo tempo, a China começou a repatriar cidadãos chineses formados no exterior, especialmente os que já haviam trabalhado em empresas ocidentais de energia (GE, Dow, DuPont, Areva), ou que fossem cientistas e engenheiros de destaque em universidades ocidentais (Johns Hopkins, MIT, Stanford e USC, entre outras). Quando eles voltam à China, recebem equipes com centenas de pessoas, orçamentos de milhões de dólares, e agressivos cronogramas para as entregas. Às vezes chamados de “tartarugas marinhas” (por voltarem à praia onde nasceram), eles trazem uma estratégia ocidental de inovação para os projetos chineses, e têm acesso aos recursos intelectuais e financeiros necessários para trazer tais projetos à vida.

Sob muitos aspectos, os sonhos “verdes” da China são uma boa notícia.

Bem global

Considere o impacto ambiental: juntos, os Estados Unidos e a China são responsáveis por 40% das emissões, 40% do consumo de energia, e 50% do consumo global de carvão. Nada que os outros países façam a respeito dessa questão pode se comparar ao impacto das ações (ou da inação) dos EUA e da China. Sem Washington e Pequim liderando, o mundo não irá mitigar as piores consequências da mudança climática. Nesse contexto, o investimento chinês em tecnologia limpa é um bem global.

Além disso, a inovação “verde” da China levanta dúvidas sobre a competitividade dos EUA e da Europa. Durante anos, o Ocidente acreditou que a sua vantagem econômica era a sua capacidade de inventar produtos que poderiam ser vendidos para os mercados orientais. Sucessivos governos apresentaram a inovação como um caminho para a criação de empregos e a excelência industrial. No entanto, se o Ocidente comprar a tecnologia limpa chinesa, essa narrativa se inverterá. Isso também abre o espectro de uma perda industrial permanente para certos equipamentos pesados, desenvolvimento de tecnologia e inovação de alto valor.

Alguém poderia perguntar, também, se tudo isso vai realmente resolver os desafios da China. A melhora da qualidade do ar ainda é localizada e lenta, e as preocupações sobre os materiais particulados e o mercúrio permanecem. A escassez de combustíveis de todos os tipos — incluindo carvão, gás e gasolina — persiste, elevando os preços locais e globais, apesar dos impressionantes avanços chineses. E há na China quem tenha tentado forçar as florescentes parcerias comerciais a começarem a se comprometer com acordos de propriedade intelectual que esfriam a inovação e o comércio.

Em última análise, o investimento e implantação da energia limpa da China irão dominar as trajetórias climática e comercial durante décadas — quaisquer que sejam os efeitos sobre o comércio, indústria, energia e até mesmo direitos humanos e política monetária. A escala do seu esforço simplesmente ofusca qualquer outro na Terra. Isso é uma boa notícia para os oceanos e a atmosfera, mas é melhor pensar duas vezes com relação aos 5,5 bilhões de pessoas neste planeta que não moram na China. Para elas, as implicações econômicas e de segurança do ímpeto inovador chinês ainda estão por serem vistas.

Tradução por Rodrigo Leite

* Texto publicado originalmente na revista Foreign Affairs

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