O canto de trabalho dos manos de Brown

Líder dos Racionais MC chama rappers de várias gerações para show político e histórico

Pedro Alexandre Sanches | Farofafá

“É ano de eleição, agora todos eles lembram de nós”, comanda o rapper Emicida, um dos vários convidados do show de Mano Brown na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, no início da noite de domingo, 16 de setembro. É a senha para ele atacar com “Dedo na Ferida“, rap que compôs no início deste ano e dedicou “às vítimas do Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância”.

Esse mesmo rap, ilustrado por um dedo médio em riste que se alastra por toda a plateia, já rendeu a Emicida um confronto direto com a polícia durante um show em Belo Horizonte (MG) e, por conseqüência, a única prisão de sua vida, por desacato à autoridade. “Pimenta nos zóios dos políticos!”, prega a primeira frase da canção de protesto. “Vi condomínios rasgarem mananciais/ a mando de quem fala de Deus e age como Satanás”, continua o garoto talentoso que cresceu no Cachoeira, comunidade da qual a Vila Nova Cachoeirinha é face mais urbanizada. “TV cancerígena/ aplaude prédio em cemitério indígena/ (…) meus heróis também morreram de overdose/ de violência, sob coturnos de quem dita decência”, prossegue, subvertendo Cazuza e estendendo o dedo em riste também para a MPB elitizada dos dias de hoje.

“Foda-se vocês/ foda-se suas leis”, explode o refrão, conjugado na prosódia desafiadora de Emicida, adaptado para a realidade eleitoral de agora. A voz de Emicida é secundada por um coro de cerca de 15 mil espectadores espremidos na rua em frente ao Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, que promove o evento ao ar livre. Recentemente, esse equipamento cultural da Prefeitura foi epicentro de discórdia entre rappers e o PSDB, que usou a programação do centro cultural para atribuir a seu ex-prefeito e novamente candidato José Serra uma suposta retomada do hip-hop na cidade.

A observação de Emicida, 27 anos, sobre a eleição reproduz o discurso corrente, no centro ou na periferia, que equipara toda a política e todos os políticos numa mesma vala comum. No caso dos rappers, a vala é a da desconfiança generalizada.

O dono do show, no entanto, é Mano Brown, 42 anos, o mais influente músico paulistano vivo. Ele não pensa exatamente como Emicida. Secundando o discípulo no refrão de “Dedo na Ferida”, insere de repente um caco político explícito: inclui os nomes de Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin entre os destinatários do protesto concebido por Emicida.

Blog Pense Novo

Show de rap que reuniu várias gerações do movimento na zona norte de São Paulo

Ao final do rap, Brown esboça o primeiro (e único) discurso explicitamente eleitoral da noite, fixado especialmente numa peça do xadrez político: ”Vocês que estão matando os pretos, vocês que estão matando os MCs de funk, vocês que estão fazendo campanha na porta da favela tirando a força e a autoconfiança do meu povo: nesta eleição nós vamos derrubar vocês, e vocês não vão voltar nunca mais!”.

Os veículos da mídia tradicional não compareceram a mais um encontro histórico da música paulistana. Brown, em fase livre, leve e solta (passa metade do show sem camisa), insere elementos do funk (o norte-americano, não o carioca) no rap e traz, de modo inédito, a nova geração para interagir com as origens do hip-hop no Brasil. Entre outros, passam pelo palco Emicida, Flora Matos, Projota e Shirley Casa Verde (do grupo CaGeBe), sempre brilhantes e sempre generosamente bem recebidos pelo público.

Da, digamos, velha guarda, Brown traz Edi Rock, seu companheiro de Racionais MC’s, e Dexter, ex-líder do grupo 509-E, formado dentro do presídio do Carandiru. Após 13 anos de prisão por assalto a mão armada, agravada por tentativa de fuga, Dexter vive hoje em liberdade condicional. Autor do CD Exilado Sim, Preso Não (2005), ele narra as agruras do que chama de exílio, politiza a tragédia social atrás (e na frente) das grades e é voz ouvida e respeitada pelo público e pelos colegas rappers.

Autoapelidado “oitavo anjo”, conecta o lado black da MPB comunicando-se com o gênio Jorge Ben (atualmente Ben Jor) de “Descobri Que Sou um Anjo” (1971). O termo “anjo” remete, também, ao samba-rock “Charles, Anjo 45” (1969), que narra a história de Charles, “protetor dos fracos e dos oprimidos/ Robin Hood dos morros, rei da malandragem/ um homem de verdade, com muita coragem”, que um dia “marcou bobeira e foi tirar sem querer férias numa colônia penal”.

Personagem central do tocante documentário Entre a Luz e a Sombra (dirigido por Luciana Burlamaqui), ao lado do ex-parceiro Afro-X, Dexter atravessou a era Lula dentro da prisão. Ele conta, em entrevista nos bastidores após o show (foto), que não votará nas eleições de 2012: “Preso no Brasil não vota. Eu acreditei no Lula, fiz campanha pra ele dentro da prisão, fui de cela em cela. A ideia era conscientizar o irmão que está preso, pra que ele conscientizasse sua família. Em 2006, tinha vários companheiros lá dentro que achavam que a família tinha que votar no Alckmin, que hoje faz um governo repressor, opressor, que só investe na opressão do nosso povo, em autorizar a polícia a matar”.

Dexter só visitará as urnas depois que cumprir a pena completa. Sente vontade de votar? “Muita, cara, muita vontade. Não aguento isso, quero ter meu direito de votar, de contribuir pra uma melhora do meu país e dos meus irmãos”. Grande contribuição ele já presta na liberdade condicional, segundo explica: “O juiz que assinou minha liberdade é um cara jovem, consciente, que acreditou em mim e me presenteou com a ideia do projeto Como Vai Seu Mundo, que abracei quando ainda me encontrava no exílio e mantenho aqui fora”. Quanto à eleição atual, ele é lacônico: “Não parei pra ver nada em relação ao Fernando Haddad, mas só o fato de ele ser PT já é alguma coisa. Pra mim, é o partido mais próximo do povo”.

De volta ao show, cada novo convidado que chega vai ficando em cima do palco. Lá pela metade, já há mais de 30 pessoas no palanque, entre MCs, DJs, agregados e três sensacionais crianças de visuais black power trazidas por Brown para os holofotes. Em meio a um rap, a fisionomia do dono da festa fica estranha de repente.

Ele passa a olhar insistentemente para o alto, à sua direita, e faz sucessivos gestos de não com a cabeça. Para o rap. “Sai fora! Eu vou mandar tirar vocês daí, sai!”, comanda, firme e tenso.

O alarme de Brown faz a plateia desviar os olhares para um prédio antigo, de dois andares, do alto de cujo telhado um grupo de espectadores assiste ao show. Brown percebeu, antes de todo mundo, que os rapazes estão derrubando telhas lá do alto nas cabeças aqui embaixo. “Alguém se machucou aí embaixo? Isso aí podia ter cortado as cabeças dos outros! O cara quer virar homem-aranha, pelo amor de Deus, mano!”.

Passado o susto, Brown divide com o público sua preocupação: “Olha onde ele queria se equilibrar! Aquela telha deve ter uns 50 anos. Vê se não quer morrer na festa do Brown! Eu fico sem trabalhar mais cinco anos nesta porra de São Paulo!”. Não é imediatamente compreensível para qualquer observador, mas o líder dos Racionais está se referindo a um show de seu grupo na praça da Sé, na Virada Cultural de 2007, que terminou em confronto aberto entre público e polícia.

É recorrente entre rappers paulistanos a leitura de que a ameaça de violência naquela ocasião serviu como pretexto para o poder público municipal, a partir daí, voltar a marginalizar o hip-hop na Virada Cultural e, de modo mais geral, na programação cultural da cidade. Os cinco anos sem trabalhar mencionados por Brown devem dizer respeito a esse exílio, e ajudam a entender a revolta de integrantes do movimento quando o PSDB tenta capitalizar em nome de Serra eventos dedicados ao rap.

O cuidado de Brown se expõe mais uma vez adiante, quando percebe à sua esquerda que um grupo de adolescentes subiu perigosamente numa pequena árvore e nas grades do Ruth Cardoso, em busca de melhor visão do show. Tenta demovê-los de continuar ali. Testa voz de autoridade. Não funciona (derrubadas as telhas, os garotos do prédio à direita tampouco obedeceram seu apelo para que saíssem dali). Tateia um pedido carinhoso, à base do “faz favor”.

Alguns dos meninos ensaiam descer. Esquecidos pelo cantor, voltam incólumes ao posto perigoso. Autoridade não é tema de predileção para ninguém que está aqui hoje. Brown, na condição de líder máximo de um movimento legitimamente popular e de massas, carrega consigo o fardo extra de que a qualquer momento pode vir a ser responsabilizado (como fez a mídia em 2007) por qualquer coisa de ruim que aconteça num show seu.

O valor “liberdade” é caro a todos os que aqui estamos – os que já estiveram numa prisão e os que nunca estiveram. Edi Rock rima as dores de quem sabe o que é “ficar preso que nem passarim”, “passar o carnaval sem poder tocar tamborim”. “Me desculpe, meu amigo Charles, eu estou rouco”, brinca Brown ao final, citando, ele também, um caco do velho “Charles, Anjo 45″ de Jorge Ben. Assim como o nome de seu grupo homenageia a mítica fase Racional (1974-1976) de Tim Maia, seus filhos se chamam Jorge e Domênica, em devoção a Ben e à esposa de Ben.

Sorridente diante da missão cumprida, Brown pede à jovem Flora Matos que cante mais uma, e lança um afago à jovem rapper. “Minha filhinha Domênica, de 13 anos, adora essa música. Sempre que ouve Flora, ela me diz: ‘Pai, como ela é linda!’”. O rap oferece exemplos positivos onde antes só havia abandono e negatividade. Não é à toa que Brown, Dexter e Emicida, indistintamente, respeitam e admiram  o apoio de Lula a reformas que eles próprios ajudaram a promover.

Conquistar força e autoconfiança significa para Brown e seus (muitos) manos ter família, se orgulhar da própria identidade, ganhar dinheiro, manter direito a voto e voz, preservar a alegria de viver em liberdade. As três crianças caracterizadas orgulhosamente como flower-black-power no alto do palco dizem muito sobre os tempos que vêm aí, no que depender dos manos de Brown.

P.S.: Manifestando-se via Twitter logo após o show, o jovem Emicida mostrou-se sensível e solidário às preocupações do veterano Mano Brown: “Anotaí que no dia de hoje a cultura hip-hop fez história, com todas as suas gerações presentes, respeito e amor! A coisa negativa? O show de hoje não sairá em nenhum jornal/revista/blog grande, porque ‘infelizmente’ neste show de rap deu tudo certo. Sem mortes, sem confrontos com a polícia, sem brigas e todo mundo voltando feliz pra suas casas… Infelizmente, nossa felicidade não é pauta”.

Texto publicado originalmente no Blog Farofafá.

Comentários