Mais crise em 2013

Governos europeus mantêm o círculo vicioso de austeridade, recessão e decadência social


Manifestantes durante greve geral em Madri, em 29 de março de 2012: falta de crédito dificulta economia

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“Em 2012, mais pessoas perderam seus empregos do que em qualquer outro ano das últimas duas décadas”, disse o comissário de Emprego da União Europeia László Andor, enquanto apresentava o Relatório Europeu Trabalhista e Social de 2012, em janeiro deste ano. Quem tinha um emprego, tinha menos dinheiro nos bolsos e via o risco de chegar à pobreza crescer de maneira descontrolada, observou.

É “pouco provável”, acrescentou Andor, “que a situação socioeconômica na Europa melhore significativamente em 2013”. Esta situação é especialmente catastrófica nos países do sul e do leste da Europa. Antes, apenas guerras tinham devastado economias nacionais tão completamente e em um período de tempo tão curto quanto as medidas de austeridade adotadas pela União Europeia.

Na Grécia e na Espanha, uma em cada quatro pessoas está oficialmente desempregada, e mais da metade dos jovens não têm trabalho. A renda média por domicílio caiu 17% na Grécia ao longo dos últimos três anos e 8%  na Espanha. Os cuidados com saúde, pensões e sistemas de previdência social passam pelo mesmo colapso.

A despeito da catástrofe social que provocaram com suas medidas de austeridade, os governos europeus têm a intenção de apertar a legislação fiscal. Eles não mais se limitam à periferia da zona do euro, mas atacam de maneira ainda mais feroz a classe trabalhadora nos principais países.

Isto é confirmado pelos novos planos draconianos de austeridade para a Itália, a França e a Alemanha, bem como pelo fechamento de fábricas de automóveis na Europa. Em seu discurso de ano novo à nação, a chanceler alemã Angela Merkel declarou que a situação econômica “não seria mais fácil no próximo ano, mas, ao contrário, mais difícil”. Trata-se de uma clara advertência. No Reino Unido, onde quase um quarto da população já vive na pobreza, o governo Cameron está desmantelando o Sistema Nacional de Saúde, a educação pública e o estado de bem-estar social.

Nem mesmo um único partido no espectro oficial oferece uma saída para este círculo vicioso de austeridade, recessão e decadência social. Seja de esquerda ou de direita, todos eles concordam que não há alternativa à consolidação fiscal e à satisfação dos mercados financeiros a não ser às custas dos serviços sociais, da educação e da saúde pública. Nas eleições que ocorrem neste ano na Itália e na Alemanha, o único problema é qual partido ou coalizão é mais adequado à implementação das diretrizes da oligarquia financeira.

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Pseudoesquerda

Na Itália, três coligações competiam: a de Silvio Berlusconi, que une os elementos mais criminosos da burguesia e os racistas da Liga Norte; a de Mario Monti, o homem de escolha dos bancos internacionais, que no último ano implementou os mais severos cortes de gastos da história do país; e a de Pier Luigi Bersani, que até então havia sido o mais confiável aliado de Monti, cujo principal slogan é o de que ele está mais bem posicionado para integrar os sindicatos e a chamada “esquerda” nos processos de implementação da política do governo.

Na Alemanha, o SPD (Partido Social Democrata) e os Verdes estão tentando substituir a coalizão neoliberal conservadora liderada por Merkel, a fim de impor com mais eficiência a austeridade e os cortes em serviços sociais. Eles demonstraram suas qualificações durante o mandato da coalização verde-vermelha, liderada pelo chanceler social-democrata Gerhard Schröder.

Um papel particularmente insidioso é desempenhado em toda a Europa pelos chamados partidos de “esquerda”. Para eles, sua principal tarefa é controlar a luta de classes e evitar o desenvolvimento de um movimento independente da classe trabalhadora. Até o momento, eles criticam verbalmente a austeridade, enquanto trabalham para cooptar elementos dos sindicatos para a oposição social, já que estes apoiam os programas de austeridade da burguesia e colaboram com sua implementação. Ao mesmo tempo, os partidos de pseudoesquerda oferecem aos governos a maioria parlamentar necessária para a implementação de seus ataques à classe trabalhadora, ou implementam os ataques eles próprios.

Na Dinamarca, a aliança verde-vermelha, uma coligação de social-democratas de “esquerda”, estalinistas e maoístas votou recentemente a favor do orçamento do governo liderado pelos social-democratas, que segue à risca as políticas de austeridade dos governos conservadores anteriores.

Na Grécia, a Syriza (Coalizão da Esquerda Radical) está pronta para substituir um governo de coalizão instável do primeiro ministro Antonis Samaras. A Syriza repetidamente garantiu aos bancos internacionais sua prontidão em pagar a dívida do governo grego e manter o país na União Europeia.

Na Itália, tanto a Sinistra Ecologia Libertà (Esquerda, Ecologia, Liberdade) quanto a Refundação Comunista estão preparando o apoio a um governo liderado ou por Bersani, ou por Monti, como já fizeram antes com o governo de Romano Prodi. E na Alemanha, o Partido da Esquerda quer oferecer ao governo federal do SPD e dos Verdes a maioria necessária, como já faz a nível estatal.

Estes partidos são de esquerda apenas no nome. Eles representam a camada abastada da classe média, que se move cada vez mais para a direita, na medida em que a luta de classes se intensifica. Eles se integraram completamente com as coligações burguesas.

Lição amarga

Sob condições nas quais qualquer solução à crise por meio das estruturas políticas existentes é impossível, os conflitos sociais devem inevitavelmente assumir formas mais abertas.  A luta de classes intensa está na agenda de toda a Europa. Ela já foi anunciada por protestos de massa que ocorreram na Grécia, na Espanha e em Portugal, no último ano. É inconcebível que centenas de milhões de trabalhadores europeus aceitem a destruição de seu sustento sem lutar.

A intensificação da luta de classes, no entanto, não resolve automaticamente a questão da perspectiva política. Ao contrário, ela a coloca de maneira mais enfática.

Se uma solução progressista à crise permanece bloqueada, por conta do papel exercido pelos partidos de pseudoesquerda, então as organizações de extrema direita podem se beneficiar do crescimento da miséria social e do desespero. Esta é a lição amarga do século passado. O mesmo perigo pode ser visto hoje com o crescimento de organizações de ultradireita e fascistas como a Chrysi Avgi (Aurora Dourada), na Grécia; a Frente Nacional, na França; e a Jobbik, na Hungria.

Os trabalhadores precisam romper com os sindicatos e com as organizações de pseudoesquerda, que parecem mantê-los presos ao sistema capitalista decadente. Insistindo que não há alternativa aos cortes e ao empobrecimento de grandes parcelas da população, a classe dirigente reconhece, na verdade, a falência do capitalismo.

A única alternativa a uma recaída na pobreza e no barbarismo é um programa socialista. Os bancos e as principais corporações precisam ser nacionalizados e colocados sob o controle democrático. A produção precisa ser reorganizada, de modo que sirva às necessidades da sociedade e não aos interesses dos especuladores.  

Tradução por Henrique Mendes

* Texto publicado no portal World Socialist Web Site

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