Antártida para chinês ver

O continente branco está se tornando destino disputado por turistas chineses

Gabriele Battaglia | China Files

 

Xinhua/Zhang Jiansong

Chineses no verão da Antártida: crescimento exponencial de turistas assusta pinguins, ambientalistas e pesquisadores


De acordo com a agência de notícias Nova China (Xinhua), durante o ano-novo chinês (festejado neste ano a partir do dia 31 de janeiro e nos 15 dias seguintes) um grupo de mais de cem turistas visitou a estação antártica chinesa Grande Muralha, localizada na ilha Rei George, próxima ao Chile. O pessoal da instalação lidou como pôde com a “invasão”, enquanto cientistas não souberam bem como continuar suas atividades, segundo a agência de notícias. 

A China está se tornando um dos mercados onde mais cresce o interesse pelo turismo antártico, afirmam os experts do setor. Mais de 2.300 chineses – alguns dispostos a pagar até 500 mil Yuan (mais de 60 mil euros) – visitaram o “continente branco” entre novembro de 2011 e março de 2012, intervalo que corresponde à temporada turística na região.

Impacto chinês
O turismo antártico nasceu oficialmente em 1958, quando um navio argentino, Les Eclaireurs, levou cem passageiros pagantes para o gelo. Naquela época, a China estava envolvida em outras questões, às voltas com comunas populares e Grandes Saltos Adiante. Se em 1990 o total de visitantes foi de cerca cinco mil pessoas, hoje por volta de 35 mil pessoas fazem a viagem a cada temporada. O tratado antártico de 1959 reconhece o turismo como atividade legítima e faz referência à proteção do meio ambiente, mas não dá nenhuma indicação sobre isso. A China aderiu ao tratado em 1983, mas nenhum país signatário possui regras específicas sobre como limitar o impacto ecológico dos próprios turistas.

Entretanto, o problema se tornou repentinamente urgente quando um navio russo, o Shokalskiy, ficou preso entre as geleiras no dia 24 de dezembro de 2013. Ao tentar removê-lo, o quebra-gelo chinês Xue Long também encalhou. Enquanto o norte-americano Polar Star corria em socorro, os dois navios acabaram conseguindo se desvencilhar sozinhos. Muito trânsito e gente demais, lamentaram ambientalistas e pesquisadores, depois que se descobriu que metade dos passageiros do navio russo eram “pagantes”, ou seja, turistas, no que parecia uma “expedição científica” muito sui generis.

O impacto dos chineses – inútil dizê-lo – assusta, porque a presença deles aumenta com mais velocidade do que a de outros turistas. Até dois anos atrás, a China nem figurava nos cálculos da Associação Internacional de Operadoras Turísticas Antárticas. Hoje, o crescimento exponencial de visitantes que se dirigem do Império Celeste em direção ao gelo só não é maior porque as agências turísticas não conseguem satisfazer a demanda, afirma Hu Huamin, operador de Pequim. Não há dúvida de que serão capazes de satisfazê-la muito em breve.

Números em ascensão
Se durante a recessão global o turismo antártico diminuiu, o ano passado viu um aumento de cerca de 30%, enquanto o número de turistas chineses dobrou. A China superou o Canadá no quinto lugar do ranking, atrás dos Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Grã-Bretanha.

O número de chineses que viajam ao exterior dobrou entre 2005 e 2013, chegando a 83 milhões, segundo a Organização Mundial do Turismo,  agência das Nações Unidas. Assim, ano passado eles se tornaram também os turistas que mais gastam, com 102 bilhões de dólares em viagens de lazer ao exterior. A Alemanha está em segundo lugar com 83,3 bilhões, seguida pelos Estados Unidos, com 83,7 bilhões.   

Com o crescimento da classe média, cada vez mais o que se busca é uma experiência exclusiva, em lugar da aglomeração em pontos turísticos clichês atrás de um guia gritando ao microfone. O quanto a Antártida será exclusiva no futuro, veremos. Calcula-se que, até 2020, 54% das famílias urbanas da China – 225 milhões de pessoas – terá uma renda capaz de pagar uma viagem ao continente branco: os pacotes mais econômicos custam “somente” entre 180 e 190 mil Yuan (20 e 24 mil euros).

Tradução Carolina de Assis
 

Texto originalmente publicado pela China Files, agência editorial que produz serviços jornalísticos cobrindo a cena asiática, principalmente China e Índia.

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