Cinco falácias e cinco verdades sobre a Copa

Os arautos do caos na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando

Flávio Aguiar/Carta Maior

Pela segunda vez na história do Mundial de Futebol, o Brasil é o país anfitrião do maior evento esportivo do planeta. Talvez a principal diferença entre o torneio de 1950 e o de 2014 esteja no alcance e na instantaneidade com que bilhões de pessoas acompanham os jogos, resultados e fatos relacionados à Copa.

Ao mesmo tempo em que o futebol e as Copas ganharam cada vez mais adeptos e torcedores, maior passou a ser a cobertura da mídia do evento que acontece a cada quatro anos. No caso do Brasil de 2014, são cerca de 20 mil jornalistas de todos os cantos do mundo relatando, fotografando e mostrando o que acontece no país.

A Samuel, agora em sua versão eletrônica, também dedica o período da Copa a trazer o que a mídia independente do Brasil e do mundo vem registrando sobre o antes, o durante e o depois do evento, seus participantes e espectadores. Textos e vídeos postados diariamente darão a medida dos diferentes olhares e observações que irão marcar o cotidiano dos 32 países representados no evento.

Veja todo o material do especial Samuel na Copa:

Olhar bom de bola

A intimidade dos brasileiros com a essência do futebol

Seleção australiana tem música oficial gravada por cantora pop

Futebol se joga com a cabeça

Os apelidos das 32 seleções

Grécia aposta na comemoração

A primeira vez da Bósnia

Com toda Gana

A Copa tem gênero

"Allez les bleus! Viva l'Algérie!"

Venha celebrar com Camarões

Pikachu pega carona na seleção japonesa

Inglaterra nas eliminatórias

Honduras: onde o futebol explica a sociedade

Um amor tão grande pela Itália

Paixão em forma de figurinhas

Somos gigantes, somos fortes, somos os nigerianos

Torcida até debaixo d'água

Time de um homem só?

Quem tem medo do Chile

Gol contra

O bem-humorado fantasma uruguaio

Alemanha pronta para a Copa

As surpresas da seleção da Rússia


Midia Ninja

Comemoração durante a abertura da Copa do Mundo: show de bola em matéria de alegria e hospitalidade


Com base na cobertura da velha mídia nacional e internacional podemos afirmar sem medo de que eram e são falácias:

1. Acreditar que o Brasil não tem condição para organizar eventos deste porte, porque é um país onde grassam apenas  a corrupção, a violência e a incompetência. Quem acreditou nisto perdeu a aposta. E tem mais: o Brasil já ganhou prêmio da ONU pelo combate à corrupção e lidera a comissão a respeito na OCDE.

2. O Brasil é e será um país de eternos pobretões, miseráveis e favelados para sempre. O Brasil está se superando e deixando outras nações a ver poeira em matéria de combate à pobreza. No recente Congresso da Confederação Sindical Internacional, que elegeu o brasileiro João Felício (ex-presidente da CUT e da Apeoesp) como seu presidente, o pronunciamento da representante da ONU a respeito foi enfática: em matéria de diminuição da pobreza o Brasil é um exemplo a ser estudado e seguido. Mas não esqueçamos: isto não deve ser motivo de desprezo em relação a outros países. Ao contrário, deve ser motivo de maior solidariedade internacional.

3. A população brasileira tornou-se contrária à realização da Copa no país. Esta é a oração mais repetida da ladainha contra o nosso país. Não é verdade. Sucessivas reportagens de outros países atestam o entusiasmo de nossa população com a Copa, além de depoimentos oriundos do Brasil também; 80% da população é a favor, indicam as últimas pesquisas.
 

Crystian Cruz

Torcedores holandeses em Salvador: visitantes comemoram jogos de qualidade e receptividade

4. O Brasil não deveria aplicar em estádios o dinheiro que deveria investir em educação e saúde. Não só isto não é verdade (os investimentos motivados pela Copa, inclusive nos estádios, são pequenos em relação ao que o país investe em educação e saúde), como revela má fé ou ignorância por parte de quem os manipula ou repete. Quem faz isto ou oculta ou ignora a complexidade econômica, social e cultural de um país como o Brasil. Os investimentos em infraestrutura de mobilidade urbana, viária, ou ainda aérea geraram mais de 700 mil empregos no país. Eles deveriam ter sido feito antes – isto sim pode ser uma crítica construtiva. Mas agora saíram do papel. Graças, em parte, à Copa.

5. As vaias e os insultos do setor VIP no Itaquerão e as manifestações “Não vai ter Copa” são representativas do sentimento e mal estar geral da população. Não são. As vaias e xingamentos provocaram mais repúdio do que aplauso, inclusive por parte de gente do setor conservador e/ou que por qualquer razão não votou nem votaria na presidenta em outubro. As manifestações minguaram em frequência e em número de manifestantes e só ganham espaço na mídia devido à busca de sensacionalismo.

Vamos agora às verdades:

1. Esta pode não ser a Copa das Copas em matéria de futebol (confesso que, para quem viu, a de 58 não sai das retinas), mas decididamente é a melhor Copa nestes termos nos últimos tempos. Hospedar futebol de tamanha qualidade, ofensivo, bonito e eletrizante por vezes, além de ser uma honra para um país, certamente será um incentivo para nossos jogadores – presentes e futuros – ostentarem algo parecido. Além disso, é lindo ver times como os do Uruguai, da Costa Rica e de Gana fazerem das tripas coração e jogarem bonito  contra equipes milionárias e tidas como imbatíveis.

Ministério da Defesa

Estado Nacional Mané Garrincha, em Brasília, durante simulação de defesa: reação aos investimentos


2. Nosso povo está dando um show de bola em matéria de alegria, hospitalidade e esportividade. Incidentes isolados e menores não conseguem tapar esta realidade com as peneiras do descrédito e do desprezo, que insistem que as cidades brasileiras são verdadeiros faroestes de violência, desorganização, furtos, roubos e assassinatos. A Copa renderá dividendos no futuro: a grande maioria dos visitantes vai desejar voltar e conhecer o que ainda não teve oportunidade, do Oiapoque ao Chuí e do Acre à Paraíba.

3. O nosso povo pensa com a cabeça e o coração e ama o nosso país. Estão correndo mundo cenas como a da camareira surpreendida no quarto de hotel a cantar e a dançar o hino nacional que via e ouvia pela televisão. Também correm mundo as cenas dos estádios inteiros a cantar nosso  hino com vontade e... afinação também! Nem por isto viramos nacionalistas xenófobos e que não veem o próprio país com discernimento e também críticas. Atesta isto a rotação do nome “Não vai ter Copa”, uma ilusão desde sempre, para o de “Vai ter luta na Copa”, ou “Copa com luta”, que pode ser algo positivo e produtivo.

4. A realização da Copa está contribuindo para construir uma imagem muito positiva do Brasil e disseminando-a pelo mundo afora. Aos poucos, populações de todo o mundo vão pulando por cima dos noticiários preconceituosos e exclusivamente negativos e percebendo por trás deles, ou mesmo nas entrelinhas, o entusiasmo com que o nosso povo recebe a Copa e seus benefícios. Comentários de leitores indignados com notícias ou artigos que torcem tudo para mostrar apenas o que é ruim – ou o que deveria  ser ruim – se multiplicam.

Midia Ninja

Não vai ter Copa: manifestações minguaram em frequência e em número de participantes

5. Os arautos do caos e do desconcerto na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando. Mas nem por isso vão perder a esperança, na expectativa de que ainda haja alguma catástrofe dentro dos campos (por exemplo, uma possível eliminação precoce do Brasil) ou fora dele: aqui serve qualquer coisa, de inundação a desastre. Afinal, velha mídia é velha mídia, e tem uma reputação a manter.
 

Texto originalmente publicado em Carta Maior, publicação multimídia criada por ocasião da primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, em Porto Alegre.

 

 

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