Vida de cinema

O cotidiano da ocupação do Cine Marrocos, no centro de São Paulo, pelos integrantes do MSTS

Débora Lopes | Vice

Fotos Felipe Larozza/Vice

Atualmente, não existem mais sessões de cinema no Cine Marrocos, uma construção opulenta que fica no centro da cidade de São Paulo. Numa madrugada de novembro de 2013, famílias orquestradas pelo MSTS (Movimento dos Sem Teto do Sacomã) ocuparam o local e o prédio de 12 andares logo acima. Dalva Silva, uma das coordenadoras do movimento, nos guia pela ocupação que hoje abriga 475 famílias de várias nacionalidades, totalizando duas mil pessoas. “Inclusive, temos muitos LGBTs aqui”, diz.

“Vende-se móveis.” Uma folha de papel sulfite colada à parede anuncia implicitamente que um sofá cor de abóbora, entre outras quinquilharias, está a venda na lojinha improvisada do que costumava ser o hall de entrada do antigo cinema, inaugurado em 1951. 

No átrio de paredes vermelhas, uma cena onírica: a bilheteria vazia, uma fonte de água desativada, entulhos, uma bicicleta, fotos do espaço em tempos de atividade e um quadro enorme com recortes antigos de jornal. Parece um filme.

 


No teatro, um espaço megalomaníaco construído originalmente para receber 1.900 espectadores, hoje acontecem as reuniões do MSTS, que possui outras sete ocupações pelo centro.




Dalva conta que o prédio estava abandonado há cerca de 10 anos. Antes de pertencer à Prefeitura, que pretendia utilizá-lo como Secretaria Municipal de Educação, o imóvel era propriedade privada da família que o construiu.


O MSTS mantém os elevadores do local, que costumavam abrigar editoras e assessorias, funcionando. A ascensorista, uma moça que ouve um funk presa no celular, nos leva até o terceiro andar. Agora vamos conhecer as famílias.


O primeiro apartamento que conhecemos é o de Janide, que mora com dois filhos e três netos. Logo de início, ela manda o clássico “Não reparem a bagunça, eu estava limpando” enquanto pega uma vassoura e varre o chão. “Desde que vim pra cá, tudo na minha vida mudou. Eu morava na Baixada do Glicério. Hoje eu como coisas que não podia comer e tenho um emprego: trabalho como faxineira aqui da ocupação.”


Quase saindo do apartamento, vejo um bebê deitado no canto da cama, quietinho e olhando o mundo com cara de quem sabe tudo. Janide conta que Gustavo Henrique está completando dois meses hoje e que acabou de sair do hospital por causa de problemas respiratórios. "Até inalador eu comprei pra ele." 


 

Maria Nádia e Patrício são refugiados angolanos. Ela diz que não tinha emprego na África, mas que isso mudou quando chegou aqui. Ele fala que o Brasil é um país maravilhoso, inclusive, pelo qual a família irá torcer. “Afinal, a Lady Vitória é brasileira”, conta, apontando para a bebê de sete meses. Peço permissão para fazermos um retrato da família. Eles posam. Atrás, o fogão cheio de comida serve de pano de fundo.


Antes de entrar na casa do Elder, vejo um pôster do Bob Marley no corredor. Ele trabalha como chefe de cozinha freelancer. “Comida contemporânea”, explica. Elogio o apartamento, cheio de estilo. “Pintura, textura. Eu que fiz tudo.”


Entramos num corredor com cheiro de comida peruana. Carmen nos recebe com um bebê nos braços: o Giampiero, que apesar de ter pais peruanos, veste uma camisa do Brasil. Há cinco anos no país, a família se vira como pode: antes de ter a criança, ela trabalhava em casa de família e o marido é ambulante – vende bijuterias. Carmen diz que gosta muito daqui, mas tem dificuldade como o idioma. “Muito difícil falar português.”


Só sorrisos, Voluzia abre a porta de casa para a VICE e fala sobre a vida dentro de uma ocupação. “Antes, nós pagávamos aluguel e nos apertamos muito. Aqui, conseguimos ter mais qualidade de vida”. Ex-dançarina, hoje é evangélica. “Eu dançava tudo: jazz, lambada, Beto Barbosa, É o Tchan, Boquinha da Garrafa...” Ela sorri tanto para mim que fico envergonhada. Com orgulho do lugar onde mora, conclui: “Deus abriu essa porta. Amor. É amor”. Agradecemos e saímos do apartamento. Enquanto caminhamos até o elevador, ela grita: “Se cuidem!”.


Dalva conta que a Prefeitura nunca fez nenhuma reunião com o MSTS para conversar sobre qualquer uma das ocupações que eles mantêm. Entramos em contato com a Secretaria Municipal de Habitação e recebemos um e-mail dizendo que “o Cine Marrocos não será destinado à Habitação de Interesse Social. As famílias poderão se inscrever nos programas habitacionais da Secretaria Municipal de Habitação e aguardar. Não haverá atendimento prioritário apenas por terem ocupado o prédio. Atualmente, 130 mil famílias estão cadastradas e aguardam atendimento habitacional”.


Dentro da ocupação, vejo quase todas as portas dos apartamentos trancadas com cadeado. Poucas famílias estão em casa. São 17h e a maioria está no trabalho. Lá fora, o mar sonoro de vuvuzelas continua. A Copa toma conta da cidade. Parece um filme de novo. Mas não é.

 

Texto e fotos originalmente publicados em Vice, publicação de origem canadense focada no público jovem , produz contéudo pars diversas plataformas.

 

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