Inspirado em Tintim, quadrinho satiriza racismo na África do Sul pós-apartheid

Em 'Papá em África', o quadrinista sul-africano Anton Kennemeyer bebe na fonte do famoso personagem de Hergé para representar racismo de brancos de origem europeia contra negros africanos de um modo exacerbado e non-sense

Redação

Desde 1992, o quadrinista sul-africano Anton Kennemeyer se dedica a cutucar as feridas abertas pelo apartheid, regime de segregação racial que vigorou em seu país entre os anos de 1948 e 1994. Em “Papa in Afrika”, lançado na África do Sul em 2010, Kennemeyer se inspira visual e tematicamente em "Tintim no Congo", HQ publicada em 1931. A obra do belga Hergé está há décadas no centro de debates sobre a representação de pessoas negras nos quadrinhos por apresentar o país africano e seus habitantes através do ponto de vista do colonizador europeu.

Em sua obra, Kennemeyer faz algo parecido. No entanto, ao representar o racismo de brancos de origem europeia contra negros africanos de um modo exacerbado e non-sense, o quadrinista tece uma crônica ácida da África do Sul atual, que ainda não resolveu a profunda desigualdade simbólica e concreta entre pessoas negras e brancas que nutriu 46 anos de segregação racial oficializada pelo Estado sul-africano.


Capa de "Papá em África", edição portuguesa da obra do sul-africano Anton Kennemeyer
Capa de "Papá em África", edição portuguesa da obra do sul-africano Anton Kennemeyer

O quadrinho de Kennemeyer acaba de ser lançado em Portugal com o título “Papá em África”, pela editora MMMNNNRRRGSamuel reproduz abaixo, com autorização da editora, páginas do quadrinho e trechos do posfácio da edição portuguesa, escrito pelos editores Marcos Farrajota e Crizzze.

“‘Papá em África’ é uma crítica à dominação racial e colonial que atravessa, ainda hoje, em pleno pós-apartheid, a sociedade sul-africana, mostrando como certas estruturas sobrevivem à destruição dos quadros legais que lhes deram origem. Mas não se enganem, não vão encontrar na obra de Anton caminhos ou sonhos para uma ‘nação arco-íris’; nem é oferecida nenhuma reinvenção do lugar do negro nas histórias em quadrinhos ou alguma espécie de ‘herói’ negro da resistência que pudesse ser ‘voz’ da população negra sul-africana, de que Anton, aliás, na realidade não faz parte nem tem a pretensão de ser.”

“O objetivo central de ‘Papá em África’ é pontapear com escárnio e pontaria certeira a hipocrisia e a (má) consciência da África do Sul branca, num pós-apartheid lobotomizado. Anton sampla e critica corrosivamente o imaginário colonialista e racista, como aquele oferecido pelo autor belga Hergé em ‘Tintim no Congo’ (1931), álbum que Anton admite ser a sua Bíblia visual, onde volta sempre para sacar mais uma imagem ou uma sequência narrativa.”

“Numa entrevista o autor adverte sobre o livro de Hergé: ‘eu penso que não é um bom álbum, é mais direcionado para um público infantil. E é aí que o problema reside para mim. Porque se fosse dirigido para um público adulto, ele funcionaria melhor. Mas porque é para crianças, elas vêem os estereótipos e pensam que esses estereótipos são reais. Eu lia o álbum com a minha filha, quando ela era muito jovem, talvez com dois anos, e a certa altura ela me perguntava: ‘o que este macaco está fazendo aqui?’ e eu lhe dizia: ‘Isso não é um macaco. É uma pessoa negra.’ E ela ficava completamente confusa, não conseguia perceber: ‘estes são os macacos!’”
 

 

“Esta seleção da obra de Anton, quer como autor de histórias em quadrinhos quer como ilustrador, deveria reavivar todos os ‘traumas’ que o branco, seja ele sul-africano, europeu ou português, tem em relação ao negro, fazendo repensar como a relação com esse outro é constitutiva da própria concepção de si mesmo e de como esses espinhos históricos que são a escravatura, a colonização e a segregação racial estão cravados no convívio e interação social, nas relações político-económicas entre ‘Norte e Sul’ e no próprio capitalismo. A crítica à sociedade sul-africana do pós-apartheid cabe que nem uma luva a países ex-colonialistas como o nosso.”

“Será que a África do Sul desmemoriada do pós-apartheid, criticada por Anton, tem alguma semelhança com o Portugal ‘pós-colonial’ que teima em vangloriar-se dos ‘Descobrimentos’ (veja-se o novo museu inaugurado no Porto, ‘World of Discoveries’, mas também os manuais escolares de história) e de uma colonização ‘branda’ (o dito luso-tropicalismo), sem assumir a sua parte na chaga global que é a exploração e subjugação dos países africanos e dos afro-descendentes onde quer que estes nasçam? Não sejamos ingénuos ou hipócritas, Portugal foi o primeiro e maior traficante de escravos africanos no Atlântico, portanto, um dos maiores responsáveis do chamado ‘holocausto africano’; foi dos últimos países europeus a reconhecer a independência das suas colônias em África.”

“Se os portugueses puderam até aqui ‘fechar os olhos’ e ‘fazer ouvidos moucos’ às históricas trapaças portuguesas no Ultramar, eis que com o acelerar da globalização, com o desnorte português e europeu e com a progressiva ascensão a potências mundiais do Brasil (onde o movimento negro e afro-cultural tem peso) e de Angola (onde as chagas da colonização e da guerra são grandes), a história fará rewind e vir-se-á chapar na nossa cara.”

 

Imagens e texto publicados originalmente no site da editora MMMNNNRRRG.

 

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