Indústria de autoajuda chinesa aposta em plágio de autores ocidentais para atrair leitores

Títulos norte-americanos são principal inspiração para autores chineses, que muitas vezes traduzem e adaptam obras sem dar o devido crédito; desemprego entre jovens e alta desigualdade de renda impulsionam vendas

Huang Xiaocao | The World of Chinese

Parisa / Flickr

Feira de livros em Pequim

Na “Lenda da Espada Matadora de Dragão”, um conhecido romance chinês de kung fu que se passa na Dinastia Ming (1368-1644), o protagonista Zhang Wuji é um jovem comum, sem talento ou grande virtude. Isso até acidentalmente se apossar de um livro secreto que ensina uma forma invencível e rara de kung fu. Depois de cinco anos de treinamento, ele passa a derrotar incontáveis inimigos, conquista o amor de uma linda mulher e se aposenta ainda jovem, com apenas 22 anos.

O livro secreto foi um achado e tanto para o jovem Zhang, e o mito do livro mágico capaz de resolver todos os problemas persiste ainda hoje. Na Book Plaza de Pequim, a maior livraria da China, as prateleiras de best-sellers estão quase inteiramente ocupadas por tomos de autoajuda para você se sentir melhor, mais forte, mais rico e mais feliz. O interessante é que eles focam nas pessoas – como convencer pessoas, manipulá-las, lidar com colegas “venenosos” e aprimorar o próprio charme pessoal. Todas estas obras remontam à ideia dos “livros mágicos” e estão repletos de imagens de autoridades acima de qualquer suspeita.

O sorriso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, adorna a capa de “Aprenda como fazer discursos entusiásticos como Barack Obama”; uma série de livros que ensina habilidades de comunicação tem a palavra “FBI” em letras garrafais na capa porque, obviamente, agentes do FBI são os melhores em lavagem cerebral; o ator britânico Tim Roth está na capa de “Leia mentes por meio de microexpressões”, seguido pelo subtítulo “Decifre as pessoas, leia a mente delas num piscar de olhos e derrote seus oponentes”; e Margaret Thatcher encara o leitor com desprezo em “Discursos feitos nas mais famosas universidades do mundo  e que vão mudar sua vida”. Se você não está em busca de sucesso material, a alguns passos de distância destas figuras da política e da indústria está o benevolente Monge Xingyu e suas contas budistas em “Viver é se desprender”.

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Na China, onde mais de um terço dos universitários se encontram desempregados ao fim da graduação e o coeficiente Gini, que indica a desigualdade de renda, tendo chegado ao alto nível de 0,74 em 2014, há milhões de jovens chineses buscando soluções rápidas para um futuro que se mostra sombrio. Aparentemente, livros de autoajuda são um recurso importante.

A palavra chinesa para “livro de autoajuda” é “canja de galinha para a alma”, tomada da famosa série de livros de mesmo nome, publicada nos anos1990, dos escritores norte-americanos Jack Canfield e Mark Hanson, cujas traduções foram incrivelmente bem recebidas na China. Hoje, “canja de galinha” se desdobrou em vários subgêneros: “canja de galinha” motivacional, “canja de galinha” para mulheres, e “canja de galinha” para traumas.

“Li vários livros de autoajuda quando me formei na universidade”, diz Peng Hui, de 32 anos, que trabalha na área de tecnologia. “Eu era jovem e precisava de motivação para trabalhar duro e fazer muitas horas extras para ter uma vida melhor, e sinto que os livros realmente me ajudaram. Por alguns dias eu realmente achava que tinha me tornado uma pessoa melhor.   Mas era só ilusão. Os ensinamentos que eles pregam – ter uma atitude positiva, se socializar com habilidade, construir sua rede, e se distinguir sobre os demais – são infalíveis. Só que eu sempre acabava voltando a ser quem eu era antes.”

Como o próprio nome “canja de galinha” indica, livros de autoajuda para leitores chineses são em grande parte importados. O primeiro na linha da autoajuda na China, e talvez o mais influente até hoje, foi “Como fazer amigos e influenciar pessoas” (1936), do escritor norte-americano Dale Carnegie. O livro foi editado na China pela primeira vez em 1938, mas na época atraiu pouca atenção. Os chineses só o descobriram quando uma nova versão do livro apareceu em 1986, sob o título “A fraqueza humana” . Na capa, a obra se vangloriava de ser “o segundo best-seller na história editorial da humanidade” (o primeiro, supostamente, seria a Bíblia).

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O título sensacionalista, junto com uma nova fome por sucesso material criada num momento de Reforma e Abertura, fizeram com que por volta do início dos anos 1990 o livro fosse um imenso sucesso no país. Nas três décadas seguintes, o sorriso de Dale Carnegie se tornou onipresente nas livrarias chinesas, e seu livro segue sendo o mais vendido do gênero na Dangdang.com, a maior livraria online da China. A mídia chinesa frequentemente refere-se ao autor como “o maior mentor espiritual do século 20” e seus livros, para o bem ou para o mal, ajudaram a moldar a imagem dos Estados Unidos na mente do povo chinês. Em “Introdução à Fraqueza Humana”, livro chinês dedicado a Carnegie em 2010, um dos capítulos era intitulado “Para além da estátua da Liberdade, Dale Carnegie é o símbolo dos Estados Unidos”.

“A fraqueza humana” não só aguçou o apetite por livros de autoajuda na China como também se tornou parte de uma tradição muito especial na indústria editorial chinesa: o plágio, talvez melhor definido como atribuição incorreta por conveniência cultural. Comparada à versão inicial, a de 1986 foi na realidade amplamente adaptada e reescrita pelo tradutor para se adequar aos gostos e modos de pensar do povo chinês. Embora tenha havido numerosas verões em chinês de livros com autoria atribuída a Dale Carnegie, a maioria deles, assim como a versão de 1986, foi inteiramente escrita por autores chineses.  Por exemplo, uma nova versão de “A fraqueza humana” em 2013 inclui um novo capítulo – algo notável para alguém que morreu em 1955. O capítulo, intitulado “De Carnegie para mulheres que estão prestes a se tornarem esposas”, prega à maneira de Confúcio: “Seja a melhor ouvinte do seu marido. Seja sua discípula. Não interfira com o trabalho dele. Sua vida está nas mãos dele.” Não é uma mensagem muito inspiradora para moças chinesas ambiciosas.

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Livros de autoajuda e best-sellers estrangeiros em feira de livros em Pequim

Segundo um ditado chinês, “textos sagrados recitados por um monge estrangeiro são mais dignas de crédito”. O mesmo se aplica ao mercado chinês de autoajuda. Por causa das origens ocidentais do gênero, um livro de autoajuda de um autor ocidental tem maior probabilidade de ser considerado confiável. Portanto, é comum que um livro escrito por uma pessoa chinesa faça o máximo para parecer que se trata de uma tradução de uma obra de um mentor espiritual estrangeiro.

Um livro popular chamado “Willpower” [“Força de Vontade”], por exemplo, é vendido como sendo escrito por um americano chamado “Feldo” (sem sobrenome), e em sua contracapa está escrito: “O treinamento psicológico realizado pela elite de profissionais pelo mundo! Maneiras de melhorar sua eficiência e que vão posicionar você à frente de 99% das pessoas! Steve Jobs, Warren Buffett, Bill Gates e J.K. Rowling são todos grandes exemplos de beneficiários da Força de Vontade!” Para parecer ainda mais “ocidental”, todas as histórias no livro se passam nos Estados Unidos, com a linguagem em um estilo que soa como uma tradução – e, claro, todos os jargões são bilíngues. Assim, a parte chinesa parece inglês e as palavras em inglês parecem chinglish (termos ingleses incorporados à língua falada na China).

“Willpower” não é o único livro que ostenta fama de ocidental.  “Possesiveness” (“Possessividade”, palavra que na versão chinesa pretende significar “autocontrole”), é um livro escrito pelo autor chinês Gao Yuan. A obra é definida como “o curso mais popular de autogerenciamento do programa de MBA da Harvard Business School”. Outro livro, “Mind Control: How to Convince People with Good Logic” [“Controle Mental: Como convencer pessoas com boa lógica”], escrito pelo chinês Gao De, proclama: “As consultorias da Casa Branca, do FBI e das dez maiores empresas do mundo estão todos estudando este livro em segredo”.

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É comum encontrar o crédito “editor e escritor” sob o nome da pessoa que assina a obra. Fica a impressão de que o autor também editou o livro, mas, na realidade, é uma maneira de encobrir o fato de que o livro tem sérios problemas no que se refere a direitos autorais. “Se o subtítulo é ‘editor e escritor’, isso significa que o autor de fato não escreveu sozinho o livro, mas fez uso de várias fontes sem lhes dar o devido crédito”, diz Hu Xinting, editor de livros de autoajuda para mulheres.

“Há apenas alguns anos estes livros tinham um bom domínio de mercado e conseguiam um monte de dinheiro. Mas seu momento de glória já passou”, diz Hu. “Por terem pouco de original, os leitores vão gradualmente se cansando dos livros, já que parecem contar histórias semelhantes. Além disso, a leitura digital, o maior rival dos livros impressos, tem crescido rapidamente. Nos últimos anos, numerosos relatos de “canja de galinha” apareceram em redes sociais como Weibo e WeChat; seu conteúdo é muito melhor do que o dos livros, e eles são de graça.”

O Weibo e o WeChat proporcionam também outro tipo de “canja de galinha”. Em vez de motivação e confiança, eles oferecem um paraíso de poderes espirituais e religiosos. Se você procurar “Rinpoche, Monge Tibetano Reencarnado” no Weibo, os resultados apontam 141 usuários verificados. Uma típica postagem do “Buda Vivo Tashi” diz: “Todo mundo se preocupa e comete erros. Não reclame, não odeie, não fique com raiva. Seja calmo em relação a tudo para que você tenha espaço para Buda em seu coração.” Não é um material particularmente sagaz e, na maioria dos casos, a não ser pelo uso de termos budistas, as postagens destes gurus parecem um livro de autoajuda qualquer.

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Os jovens que antes abraçavam os valores vendidos pela autoajuda estão começando a compreender que estas palavras de otimismo e conforto não valem o papel no qual foram impressas.  “O leitor visado pelos livros de autoajuda é o jovem”, diz Hu. “Nós não temos como alvo leitores com mais de 35 anos. As pessoas normalmente amadurecem independentemente deles, depois de aprender com experiências da vida real.”

Na China está também disponível online uma espécie de antiautoajuda, ou “anti-canja de galinha”.  Um dos posts diz: “Por que você sente que é medíocre? Porque você é medíocre, de fato.” Talvez, tendo entrado na “era da individualidade” somente algumas décadas atrás, os leitores chineses estejam compreendendo que a principal pessoa que eles estão ajudando ao comprar livros de autoajuda não é tanto eles mesmos, mas os editores inspirados que continuam produzindo-os em fornadas, de olho no dinheiro. 

 

Tradução: Maria Teresa de Souza

Matéria original postada no site da The World of Chinese, revista bimestral em língua inglesa sobre questões contemporâneas na China.

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