Batalha de Austerlitz é considerada obra-prima de tática de Napoleão Bonaparte

Austerlitz foi a única batalha em que o imperador francês Napoleão pôde escolher o terreno, conduzir o inimigo e lhe impor seu plano de combate

Max Altman

Obra-prima de estratégia militar, a Batalha de Austerlitz, também conhecida como a ”Dos Três Imperadores” (Napoleão, Alexandre I da Rússia e Francisco II da Áustria), tornou-se a mais célebre das vitórias napoleônicas. Temendo um desembarque sobre suas costas quando o exército francês se concentrava em Boulogne, a Inglaterra conseguiu formar no continente uma nova coalizão contra a França.

O exército francês acorreu à Bavária, cercou em Ulm as tropas austríacas que capitularam em 20 de outubro de 1805 e esmagou os russos de Kutuzov em Austerlitz em 2 de dezembro, dia do primeiro aniversário da sagração de Napoleão. Debaixo de um frio glacial, assim que o sol se levantou, as tropas aliadas atacaram os franceses sobre o platô de Pratzen antes de serem repelidos para os reservatórios gelados de Satschan, onde muitos se afogaram.

No final de novembro de 1805, Napoleão só dispunha de 50 mil homens diante dos 80 mil dos aliados. Avaliando mal a situação, os generais austríacos, assim como os conselheiros do tsar, se convencem que os franceses, nas condições de inferioridade numérica, iriam retirar-se para Viena. Para impedir a ação, em vez de enfrentá-los abertamente, se envolvem em vastas manobras destinadas a cortar linha desta suposta retirada. Em 30 de novembro, Napoleão percorre a região a cavalo e depara-se com o platô de Pratzen. Antes de ocupá-lo para se opor frontalmente aos seus inimigos, contentou-se em colocar um destacamento de cavalaria esperando levar o inimigo a estender excessivamente seu flanco esquerdo.

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Foi o que se passou no dia seguinte. Os austro-russos se posicionaram diante dos franceses em Pratzen, estendendo sua ala esquerda até Aujest. O objetivo era de cortar a rota a Viena e de derrotá-los em Brno. Nessas condições, reforçar sua ala esquerda a fim de quebrantar a direita francesa, era uma manobra lógica, cujas chances de sucesso eram reais.

O exército austro-russo estava organizado em sete colunas. As três primeiras formavam a esquerda, contando com 30 mil homens sob o comando de Friedrich von Buxhöwden. Uma quarta coluna, comandada por Franz von Kolowrat-Liebsteinsky formava o centro. Deveria avançar de Pratzen rumo a Kobelnitz, atrás da terceira coluna. A quinta, sob as ordens do príncipe Jean de Liechtenstein, deveria deixar o centro para apoiar a direita. As duas últimas compunham a direita do dispositivo, a sexta, com o general russo Pyotr Bragation à frente, deveria atacar as colinas de Santon e Bosenitz, a sétima, conduzida pelo grão-duque Constantin, se mantinha em reserva da ala direita rumo a Brno.

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Óleo sobre tela de François Gerard: A Batalha de Austerlitz, em 2 de dezembro de 1805

Napoleão monta em seu cavalo às 4h00 a fim de verificar se o inimigo não tinha procedido durante a noite a movimentos imprevistos. Tudo confirmado. No entanto, tropas austro-russas, com a cavalaria de Lichtenstein, marcham do centro rumo a Holubitz. Parecia claramente ao imperador que o centro inimigo, debilitado, seria alvo fácil de seus golpes. Ao amanhecer, Napoleão resolve interromper um movimento que considerava falho e retém por um momento Soult e seus batalhões, já prontos a se lançar ao assalto do platô de Pratzen.

Quando Napoleão é informado que o inimigo investe com força do lado de Sokolnitz e Telnitz, dá sinal da ofensiva. Bernadotte marcha sobre Blasowitz após ter atravessado o desfiladeiro de Girskowitz, apoiado pela esquerda por Murat. Lannes avança dos dois lados do caminho para Brno. A guarda e a reserva seguem Bernadotte à distância, prestes a entrar em ação se o inimigo manifestasse a intenção de se reforçar.

Após ter atingido Pratzen, Soult cai sobre a 4ª Coluna austro-russa, que acreditava estar protegida pela 3ª e que tinha em seu seio o imperador Alexandre, o general Kutuzov e o Estado Maior. Os batalhões aliados são reforçados à medida que se põem em formação de combate, mas são repelidos em Hostieradek e em seguida ameaçados de serem rechaçados nos pântanos que cercam Birnbaum e se retiram rumo a Waschan, abandonando sua artilharia atolada.

O marechal Louis Davout posiciona os dragões do oficial de cavalaria François Bourcier e, levando consigo a divisão do general Louis Friant, sobe o arroio Goldbach até Sokolnitz, onde o combate se tornou mais violento. A localidade é tomada e retomada várias vezes e o confronto se propaga até Maxdorf, onde os franceses travam intensos combates contra os flancos das divisões Langeron e Przybyszewski.

Mais ao norte, o príncipe Bragation marchava rumo Tvarozna para atingir as montanhas de Santon, movimento que deveria ser secundado pela cavalaria de Liechtenstein e a reserva do grão-duque Constantino. Porém, chegando antes que a cavalaria, Bragation se confrontou com a primeira linha de Bernadotte, que avançava pelos dois lados da estrada para Brno. À chegada de Liechtenstein, os ‘uhlans’ da guarda russa se atiram contra a cavalaria ligeira de François Kelermann, que recua sob proteção de Lannes e Bernadotte, quando são dizimados pela infantaria francesa.

O que restou da cavalaria é reclamado por Kutusov a fim de reforçar o centro de suas tropas, acossado por Soult. Todavia, o príncipe de Liechtenstein, ameaçado por todos os lados, lhe envia somente quatro esquadrões, que só puderam assistir à derrota do general Kolowrath. O grão-duque, vendo os franceses atravessar a localidade de Blasowitz, resolve ir ao seu encontro. Trava-se um violento combate de infantaria. Uma carga dos couraceiros russos leva Napoleão a empregar a cavalaria de sua guarda, sob o comando do general Jean Bessieres.

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Couraceiros franceses se preparam para tomar posição na Batalha de Austerlitz

Os russos se retiram para Krzenowitz sem que os cavaleiros vindos de Austerlitz pudessem inverter o movimento. Ao contrário, os granadeiros a cavalo os reenviam todos ao ponto de partida. O centro austro-russo estava desbaratado.

Entrementes, Napoleão, com uma parte de seus guardas e a reserva do general Nicolas Oudinot, dá mão forte a Soult e arremata a destruição da ala esquerda inimiga. Em duas horas, a localidade de Sokolnitz estava cercada pelas tropas de Soult e Davout.

Do lado francês, Jean-de-Dieu Soult estava à direita, em torno de Puntowitz, com alguns destacamentos estendendo-se até Sokolnitz  e Telnitz, fazendo face ao grosso das tropas inimigas; Jean Bernadotte posicionava-se em Jirschikowitz, Joachim Murat ao sul dessa cidade; Jean Lannes ao norte, sobre a rota de Brno a Austerlitz , posicionando-se sobre a colina de Santon. As reservas ficavam atrás de Soult e Bernadotte.

O plano de Napoleão era irrevogável. Para aliviar Soult, que iria suportar o peso do ataque inimigo, apoiaria com sua guarda e a reserva de granadeiros, o ataque de Bernadotte a Blasowitz, onde a direita inimiga desembocaria na rota para Austerlitz. Contaria em seguida voltar-se contra a ala esquerda russa, mudando de front, e cortar, desse modo, esta ala da rota de Olmutz, além do que avançaria sobre Telnitz. Napoleão estava seguro de si e de suas ordens emanadas na véspera da batalha em relação às manobras que lhe dariam a vitória. Na noite de 1º de dezembro, enquanto instalava seu quartel-general em Horka, percorreu a linha de suas tropas à luz de archotes espontaneamente acesos pelos soldados transbordantes de entusiasmo.

Os russos do general Ignacy Pribichefski se rendem. As tropas de Buxhowden, após ter perdido horas em escaramuças inúteis em torno de Telnitz, são obrigados a recuar em direção a Aujest, na esperança de escapar do beco sem saída em que estava metido. Põem-se em marcha entre lagos e colinas. O ataque do general René Vandamme a Aujest surpreende a coluna russa quando chegava ao local. Os dois batalhões da vanguarda seguiram em frente, porém os 28 batalhões restantes ficaram bloqueados pelos franceses que ocupavam as alturas. A frente da coluna, com a artilharia e as tropas que a escoltavam, tenta fugir atravessando o lago gelado. Contudo, o gelo, fragilizado pelo fogo da artilharia francesa, cede sob seus pés e engole homens e canhões. Malgrado, as terríveis baixas conseguem chegar a Satschann, antes de tomar o caminho de Czeitsch passando pelas montanhas, apesar de vivamente perseguidos. Na retirada, levada a efeito sob impraticáveis condições devido à chuva e ao gelo, tiveram de abandonar o que lhes restava de artilharia.
 
Derrotados por todos os lados, aos austro-russos só restava tomar a direção da Hungria. Ainda assim marcharam sob a ameaça do restante do exército francês que não deixava de persegui-los.

No estado de total desorganização em que se encontrava seu exército, o imperador da Áustria não teve outra escolha senão capitular. O príncipe Jean de Liechtenstein é recebido por Napoleão no bivaque de Stara Posta.

A partir de 4 de dezembro de 1805, Napoleão e Francisco II se reúnem em Spaleny Mlyn, ao sul de Austerlitz. Ali, à sombra de uma árvore, acordam um armistício. Em 26 de dezembro, a Áustria assina, no Palácio de Bratislava, o Tratado de Presbourg, que diminui suas possessões e lhe impõe pesadas indenizações.

A única batalha em que Napoleão pôde escolher o terreno, conduzir o inimigo e lhe impor seu plano de combate, a batalha de Austerlitz é considerada como sua obra-prima em tática de guerra.

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