A cada ano, 7 milhões de mulheres são internadas por complicações de abortos clandestinos; 22 mil morrem, diz estudo

Pesquisa global aponta que, no Brasil e em outros 25 países onde a interrupção voluntária da gravidez é criminalizada, a disponibilidade do medicamento misoprostol diminuiu as complicações por aborto inseguro

Monique Oliveira | Brasileiros

Fernando Frazão/Agência Brasil

Ato no Rio de Janeiro em maio desse ano defendeu a descriminalização do aborto e destacou o alto índice de mortes em abortos clandestinos

Sete milhões de mulheres são internadas por ano por complicações de saúde provocadas por abortos clandestinos. Também todos os anos 22 mil morrem pelo mesmo motivo. O dado é de um grande estudo feito em 2012 em mais de 26 países em desenvolvimento, dentre eles o Brasil, e publicado em agosto de 2015 no Journal of Obstetrics & Gynaecology (BJOG).

Os pesquisadores que assinaram o levantamento estão vinculados ao The Guttmacher Institute, uma organização internacional com sede nos Estados Unidos que há mais de 50 anos estuda e pesquisa direitos reprodutivos. 

Para compor o trabalho atual, os cientistas vasculharam dados e estudos de sistemas públicos e privados de cada país. O levantamento considerou dados de 2012 é um dos poucos a tentar entender em que estado e em quais circunstâncias essas mulheres chegam ao hospital e quantas elas são. 

Dos 26 países estudados, 24 forneceram dados de atendimento pós-aborto dos setores público e privado. México e Camboja incluíram apenas o setor público.

Os pesquisadores ainda fazem uma ressalva importante. Os dados foram coletados em sistemas de saúde e não contabilizam mulheres que precisaram de ajuda, mas não procuraram o hospital.

Além do Brasil, outros países da América Latina inclusos no estudo foram Argentina, Chile, Costa Rica, República Dominicana, México, Colômbia, Peru, Guatemala e Venezuela.

Na África, dados de Burkina Faso, Etiópia, Kenya, Malawi, Ilhas Maurício, Nigéria, Ruanda, Senegal, Tanzânia e Uganda foram contemplados e, na Ásia, foram estudados os sistemas de saúde do Sri Lanka, Bangladesh, Paquistão, Camboja, Myanmar e Filipinas.

O conjunto de dados evidencia que, a cada dia, cerca de 800 mulheres morrem por causas relacionadas à gravidez e ao nascimento que poderiam ter sido prevenidas. Desse número, o aborto clandestino responde por cerca de 8 a 15% das mortes e figura dentre as principais causas de morte materna no mundo.

Outras muitas mulheres, no entanto, sobrevivem mas não obtêm apoio e tratamento adequado após o aborto. Dentre os países estudados, o Brasil foi o que menos tratou as mulheres após procedimentos clandestinos. A taxa é de 2.4 para cada 1.000 mulheres. O Paquistão, na outra ponta, foi o país que mais atendeu esse grupo, com uma taxa de 14.6 a cada 1.000.

As baixas taxas, como a vista no Brasil, segundo o estudo, podem ter duas explicações: uma é a de que a mortalidade dessas mulheres é baixa, já que elas não precisaram ir ao hospital após o procedimento. A outra é que, de alguma maneira, elas não têm acesso ao médico no pós-aborto.

O baixo atendimento ao pós-aborto no Brasil segue uma tendência latino-americana. No estudo, as idas de mulheres a hospitais depois do aborto diminuíram de 7.7 para cada 1.000 mulheres em idade reprodutiva (15 a 44 anos) no ano de 2005 para 5.3 em 2012.
 

Os tratamentos que se seguem a complicações do aborto clandestino também custam aos sistemas de saúde desses países cerca de US$ 232 milhões ao ano. 

Em linhas gerais, o trabalho indica a necessidade de uma melhoria nos serviços de atendimento pós-aborto e campanhas mais informativas sobre saúde reprodutiva. 

“O estudo mostra a importância de melhores serviços dedicados à saúde reprodutiva, o que inclui o acesso a serviços de planejamento familiar, contracepção e aborto seguro”, escreveram os cientistas.

“Esses serviços podem trazer benefícios econômicos significativos, bem como melhorar a saúde e o bem-estar das mulheres e suas famílias.”

Mais acesso à medicação abortiva diminui complicações

O estudo aponta que a disponibilidade do misoprostol, o famoso Cytotec, diminuiu as complicações por aborto inseguro nesses países.

Os dados levantados pelos pesquisadores indicam que o acesso ao medicamento, seja por meio legal ou clandestino, diminuiu o número de mulheres que tentam realizar o aborto pela introdução de objetos pontiagudos no útero ou até, mesmo, provocando acidentes.

Embora tenha minimizado os casos mais graves, no entanto, o Cytotec não contribuiu para a diminuição da taxa de mulheres que ainda precisam ir ao hospital após tentarem provocar o aborto.

“Com base em algumas evidências que mostram nenhum declínio ou até o aumento de idas de mulheres ao hospital, vemos que essas pessoas não têm informação sobre como utilizar o medicamento corretamente”, escreveram os pesquisadores.

“Outra questão é que profissionais de saúde não possuem conhecimento do protocolo correto para oferecer o atendimento pós-aborto.”

No Brasil, às vezes, alguns casos ganham visibilidade

Por aqui, as mortes por aborto clandestino possuem casos que, de vez em quando, chegam à mídia. Um deles foi o da auxiliar administrativa Jandira Magdalena, 27, que morreu em agosto de 2014 após procurar uma clínica clandestina no Rio de Janeiro. Ela deixou duas filhas.

O corpo de Jandira foi encontrado carbonizado, sem os dentes e sem impressões digitais. Após o caso, o Estado do Rio de Janeiro deflagrou uma operação para tentar desbaratar clínicas clandestinas. No caso de Jandira, dez pessoas foram presas. 

Também o atendimento em hospitais, às vezes, vira notícia. Este ano, uma mulher que procurou ajuda do hospital após realizar aborto sozinha em São Bernardo do Campo foi denunciada por médico que a atendeu. O Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional de Medicina de São Paulo consideraram que o profissional violou o Código de Ética Médica. 

Atitudes como essa aumentam os riscos para as pacientes que, após o aborto, precisam de médica. E não são poucas: uma pesquisa de 2010 feita na Universidade de Brasília pela antropóloga Debora Diniz e pelo sociólogo Marcelo Medeiros mostrou que uma em cada cinco mulheres brasileiras se submeteu ao aborto uma vez na vida. “A Pesquisa Nacional do Aborto” foi premiada pela Organização Pan-Americana de Saúde pela contribuição à saúde pública. 

Apesar da alta prevalência, no entanto, o aborto é crime no país, exceto em casos de estupro, risco de vida à mãe e fetos anencéfalos. A condição de crime leva muitas mulheres a procurar por outras vias para a realização do procedimento. Tanto é assim que os dados Organização Mundial da Saúde mostram que o número de mulheres no Brasil que fazem aborto passa de um milhão por ano.

 

Matéria original publicada no site da revista Brasileiros.

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