'Tem imperialismo aí', afirma líder sindical Raphael Martinelli sobre impeachment de Dilma

'Os interesses do imperialismo não mudaram, mas a forma de agir, sim', diz Martinelli, que analisa semelhanças e diferenças entre a crise atual e o movimento contra Jango em 1964

João Franzin | Agência Sindical

 



Hoje [14/04] pela manhã, falei longamente por telefone com Raphael Martinelli. Queria ouvir o experiente sindicalista e combatente de esquerda a respeito da ofensiva conservadora, materializada, neste momento, no pedido de impeachment da presidente Dilma. Martinelli, aos 92 anos, fala com desembaraço, clareza e, por que não dizer, entusiasmo.

Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Segundo líder sindical, setores conservadores e reacionários têm muita força no Congresso e no processo político do país 

As mais de nove décadas de vida, grande parte na luta política, dão a um dos últimos sobreviventes do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) a condição de ter vivenciado a crise que levou Getúlio ao suicídio e, nos 10 anos seguintes, os ataques ao governo JK, a campanha contra Jango e, por fim, o golpe de Estado em 1º de abril de 1964.

Inevitável perguntar que semelhanças e diferenças há entre a crise atual e o movimento contra Jango. Martinelli: “Os interesses do imperialismo não mudaram, mas a forma de agir, sim. O modelo de golpe militar se esgotou. Agora, procuram dar uma fachada de legalidade ao golpe, como fizeram no Paraguai e tentam por meio desse pedido de impeachment”. À frente da ofensiva, “como sempre”, ele ressalta, os Estados Unidos.

A diferença, observa o experiente militante, é o fator militar. Ele comenta: “Os atuais comandos das Forças Armadas não estão contaminados, como em 1964, quando foram levados ao golpe por uma forte campanha que denunciava o esquerdismo de Jango e uma suposta república sindicalista”. Para Martinelli, não existe mais entre as Forças o que chama de “uma visão americanista”.

A primeira crise grave vivenciada por Raphael Martinelli foi em 1954 – e resultou no suicídio do presidente, em agosto. “Eu já era dirigente ferroviário, do Sindicato dos companheiros da Santos-Jundiaí. Militava no PCB e discordava da critica do partido a Getúlio, que vinha adotando posições nacionalistas e progressistas, por meio da criação da Petrobras e do reconhecimento de Sindicatos que não estavam sob as asas de Federações e Confederações pelegas”.

A queda de Getúlio foi respondida por uma paralisação geral. Martinelli lembra: “A morte do presidente pôs milhões nas ruas e a reação popular impediu uma ditadura. Os ferroviários estavam com greve decretada, mas esperamos a adesão de outras categorias e fizemos greve geral em 2 de setembro”.

Entre 1954 e 1964, não houve trégua. O próprio Juscelino quase não tomou posse, devido à reação de setores das Forças Armadas, da imprensa e de segmentos da elite (“O Marechal Lott praticamente garantiu a posse”, relembra Raphael Martinelli). Na época, ele presidia a Federação dos Ferroviários no Rio de Janeiro e foi ativo participante dos acontecimentos. O sindicalismo formava frentes de ação, entre as quais o PUA (Pacto de Unidade de Ação), que reunia categorias mais organizadas, que, mais tarde, organizaram o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores).

Jango - Para Martinelli, “havia setores fascistas na área militar, antes simpáticos a Alemanha e Itália; esse grupo predominou dizendo que Jango implantaria uma ditadura sindical e de esquerda”. Ele comenta: “Com esse discurso, enganaram o povo e o próprio clero”. Nas sombras, observa Martinelli, sempre o capital internacional e os Estados Unidos. Ele também ressalta o papel agressivo da grande imprensa, “desde a campanha contra Getúlio”.

Hoje - Segundo Raphael Martinelli, há uma grave crise internacional, “inclusive no setor financeiro, como ocorreu nos Estados Unidos em anos passados”. Essa crise acirra as disputas. Para o líder ferroviário, que, anos depois, viria ajudar a fundar a ALN (Aliança Libertadora Nacional), “o Brasil incomoda por ser o líder de uma região em disputa, que é a América Latina”. Também incomoda, na sua análise, por integrar o Brics, novo bloco econômico e anti-hegemônico.

Erros - O velho militante não exime o PT de erros e desvios. Mas observa que os setores conservadores e reacionários têm muita força no Congresso e no processo político. “O governo deu não sei quantos ministérios ao PMDB. São Pastas que movimentam bilhões. Eles vêm controlando tudo isso e agora dizem não ter responsabilidade pela crise e pela corrupção”, critica.

Raphael Martinelli faz questão de reafirmar que “impeachment é golpe” e que as chamadas pedaladas são ações meramente administrativas, praticadas por outros governos também. Ele critica a política econômica atual. “Tem que mudar e discutir os rumos com o povo, fazendo só as concessões necessárias”.

Temer - Insisto, vamos considerar a hipótese do impeachment passar e o vice Temer assumir. Pergunto a Raphael Martinelli como seria. Sua resposta: “A política dessa gente é privatizar tudo, entregar tudo, entregar nosso pré-sal, liquidar a Petrobras e, com isso, atrair bilhões do capital internacional para investimentos no setor privado e em áreas antes sob controle nacional”.

Texto originalmente publicado na Agência Sindical

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