Cientes da importância de Fidel Castro, jovens em Cuba dizem ter vontade de viajar pelo mundo

Desde que Fidel Castro morreu, em 25 de novembro, a reportagem de Opera Mundi buscou ouvir dos jovens para saber o que pensam e sentem sobre a história do país, o momento atual e o que será do futuro

Camilo Toscano

As conversas com a juventude de Cuba, que geralmente fala menos que os mais velhos sobre o processo revolucionário, indicam apenas duas grandes certezas: eles querem viajar para conhecer outras culturas e dizem saber da importância de Fidel Castro para a construção do modelo de sociedade cubana. 

Se é um erro buscar um pensamento único da juventude cubana, já que se encontram mais críticas e insatisfações entre os jovens, essas duas certezas apontam para algo característico dessa etapa da vida: eles querem sempre mais e buscam novidades.

Desde que Fidel Castro morreu, no dia 25 de novembro, a reportagem de Opera Mundi buscou ouvir dos jovens para saber o que pensam e sentem sobre a história do país, o momento atual e o que será do futuro. Mais arredios, muitos soltam uma frase e se vão, sem nada mais dizer. Os que aceitam conversar, superada a barreira inicial da primeira pergunta, gostam de conversar, como é característica do povo cubano. 

Aldo Lorenti, 20 anos, se diz contente por viver em Cuba e acha que a morte de Fidel não mudará muito a vida no país, porque a ideologia que sustenta o modelo cubano está solidificada. Ele diz que o processo de mudanças iniciado há alguns anos é benéfico, “sobretudo na economia”, porque pode trazer desenvolvimento em áreas que considera importantes para o país. “São medidas tomadas para sair do período especial, resultado do bloqueio imposto pelos EUA, principalmente, que freou nosso desenvolvimento, especialmente o tecnológico”, afirma.

Camilo Toscano/Opera Mundi

Escola cubana de ensino médio: jovens dizem querer ter condições de sair do país 

Pós-queda do Muro de Berlim

A atual geração de jovens cubanos é fortemente marcada pela década de 1990, pós-Queda do Muro de Berlim, quando o apoio financeiro da ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi interrompido, impactando bruscamente a economia e a vida em Cuba. O “período especial”, nome dado para esse momento difícil, plantou na cabeça dessa geração dúvidas sobre o modelo cubano. Muitos miram os EUA como destino e soluções para os problemas que vivem. 

“Barack Obama”, chegou a dizer um dos jovens questionados sobre o que seria do futuro de Cuba sem Fidel, partindo em seguida com um sorriso provocador no rosto. Lorenti conta que tem amigos nos EUA com quem fala de vez em quando sobre esses assuntos. “Todos sabem quem foi Fidel Castro e sua importância para a revolução cubana”, diz. “Eu espero que as mudanças não alterem a ideologia do país, porque aqui temos coisas que outros países não têm”, afirma.

Yoní Melía, 20, esteve nos atos realizados em Havana para homenagear Fidel, assinou o compromisso com a revolução e se emocionou com o povo gritando “eu sou Fidel” na praça da Revolução, na noite de terça-feira (30). Estudante universitária, ela diz que os jovens que criticam o modelo cubano são os que menos conhecem as razões e o processo até os dias de hoje. “Os mais velhos têm na memória a história de Cuba. Mas aqui há também muitos jovens que apoiam a revolução. Estudamos, conversamos com nossos pais, buscamos informações para saber da revolução”, diz Yoní, para quem a Alemanha seria um país para visitar por sua tecnologia.

Para Marlon Yeladita, a tecnologia, junto com a economia, são os pontos fracos do modelo cubano, que contrastam com a saúde e a educação –os pontos fortes. “Claro que eu queria viajar, conhecer outros países, mas sempre admirando Cuba, que é mais segura. Por exemplo, podemos caminhar a essa hora da noite pelas ruas sem nos preocuparmos com a violência, com assalto. E aqui não se passa fome”, afirma, revelando seu interesse em conhecer Hong Kong, pelas diferenças culturais.

Camilo Toscano/Opera Mundi

Para Aldo Lorenti, morte de Fidel não vai alterar muito a vida no país

Viagens

Viajar, no entanto, está distante no horizonte do jovem cubano. Embora dentre as recentes mudanças promovidas pelo governo esteja a permissão para retirada de passaportes, os jovens cubanos dizem que a falta de recursos não os permite juntar dinheiro para arcar com os custos de um passeio por outros países. Esse é um dos problemas apontados pela juventude: conseguir dinheiro. 

A maioria dos mais velhos ri quando a reportagem pergunta sobre os jovens que criticam o modelo cubano e querem viver em outro país. Martin Santi, 46, motorista de táxis compartilhados a baixos custos, pai de um jovem de 21 anos e de um menino de 3, diz que a juventude fantasia com um mundo ideal, mas que o dia-a-dia dos adultos é sempre duro, “real”.

Mariana Herrera, 59, mãe de uma jovem que vive em Berlim, na mesma Alemanha citada por Yoní Melía, diz que sua filha ficou “muito triste com a morte de Fidel” porque ele representa “o que há de bom em Cuba”. “A Alemanha é um país muito desenvolvido, mas tem que pagar por tudo lá. Aqui, temos assistência médica gratuita sempre. Nas empresas de lá, não”, pontua.

Para Mariana, as críticas resultam de falta de estudo. “A juventude que está nas universidades não pensa assim [com críticas ao modelo cubano]”, diz. “Eles estudam mais, têm mais cultura, entendem o que se passou desde a revolução. Claro que tem muitos jovens que criticam, mas os mesmos jovens que criticam foram aos atos homenagear Fidel”, conclui.

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