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Elas fazem a moda do hijab

Não há grande número de lojas físicas que vendem vestes muçulmanas femininas no Brasil, mas a produção nacional ganha força com nova leva de estilistas e com comercialização pela internet

Isaura Daniel

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As roupas usadas pelas mulheres islâmicas que vivem no Brasil não são as calças jeans justas, as camisetas de mangas curtas ou as saias acima do joelho encontradas em todos os shoppings do País. 

A maioria delas se veste com batas ou vestidos compridos (abayas) e coloca em volta dos cabelos os lenços (hijabs). São peças difíceis de encontrar nas lojas convencionais, mas que vêm ganhando produção nas mãos de um grupo de estilistas que faz da internet o seu principal canal de divulgação e vendas.

Entre as empreendedoras brasileiras da moda islâmica estão Sheila Sotero, que cria e confecciona abayas, hijabs e túnicas em Betim, Minas Gerais, e Karla Silva, que desenvolve e costura lenços islâmicos na cidade paulista de Taubaté. As sócias Beatriz Kehdy e Alessandra Melo produzem em São Paulo roupas adequadas ao que pede o Islã, mas com estilo moderno e apropriadas para o dia a dia, parecidas com as convencionais. Raridades neste mercado são grandes grifes brasileiras como a Maison Alexadrine, que colocou peças islâmicas em sua coleção.

Com poucas lojas físicas na área no País, as mulheres que querem seguir os preceitos da religião islâmica precisam se virar. Quem não tem um estabelecimento por perto, compra pela internet, adquire de conhecidas que trazem dos países islâmicos ou improvisa. 

“As muçulmanas adaptam roupas. Compramos blusinhas curtas e usamos com saias, compramos minivestidos e usamos como batas com calças”, diz Soha Chabrawi, do Setor de Garantia da Qualidade Halal da Fambras Halal, divisão de certificação halal da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil.

Mas quem atua no segmento está expandindo a atuação e trabalhando para mudar a realidade do improviso no guarda-roupa das islâmicas. Beatriz, arquiteta, e Alessandra, modelista, criaram a marca iCovered há um pouco mais de um ano. As duas são revertidas (termo com o qual os muçulmanos se referem à conversão) e sentiam dificuldade de encontrar roupas recatadas, mas modernas, para uso próprio. “Então surgiu a ideia de desenvolver algo para as mulheres muçulmanas, roupas modestas, mas modernas, com estilo e charme”, diz Beatriz.

O que a iCovered oferece não são abayas ou burcas. A marca produz peças para o cotidiano, como saias, pantalonas, batas e vestidos, mas adequadas para as muçulmanas. Também são feitos lenços. “Nós desenhamos para a mulher muçulmana brasileira, mas as peças atendem todos os públicos”, fala Beatriz. Tanto a arquiteta quanto a modelista desenham as roupas. 

A costura é feita principalmente por costureiras prestadoras de serviços. Beatriz conta que a marca preza pela qualidade, em tecidos e acabamentos, e faz produtos exclusivos.

As peças da iCovered são comercializadas no espaço colaborativo Carol Martini, na Praça Benedito Calixto, na cidade de São Paulo, e também pela internet, principalmente pelas redes sociais como Instagram, Whatsapp e Facebook. Beatriz conta que a maior parte das vendas ocorre pela internet e que elas fazem envios para vários pontos do Brasil, como interior paulista e a cidade de Curitiba. “É um mercado que está crescendo aos poucos”, afirma Beatriz. A marca ainda não exporta, mas vender fora do País está nos planos.

Em Taubaté, Karla Silva é também uma revertida que desenvolve um projeto de moda islâmica. Fazendo parte da religião muçulmana desde a adolescência, ela ingressou na área produzindo os seus próprios lenços. “Os que vinham do Líbano eram muito caros”, conta a estilista, sobre as peças trazidas de países árabes por outras muçulmanas para vender. 

Autodidata e filha de costureira, tendo como formação apenas o começo de um curso de costura, Karla passou a confeccionar os hijabs para comercializar depois que outras muçulmanas viram os lenços em sua cabeça e quiseram fazer encomendas.

Karla compra os tecidos dos hijabs no Brasil e no exterior, no atacado e varejo. Seu foco é conseguir panos diferenciados. Estampa de onça, bordados e rendas costumam estar nos lenços. A empreendedora comercializa as peças na comunidade islâmica da qual participa, principalmente para brasileiras revertidas, e pela internet, em espaços como Whatsapp, Mercado Livre e Facebook

Karla já fez o Hajj, peregrinação à cidade sagrada de Meca, e tem planos de seguir com a produção dos hijabs e expandir seu negócio, criando site e colocando um nome de fantasia para a sua produção, que hoje leva seu próprio nome

iCovered/Divulgação
Roupas usadas pelas mulheres islâmicas que vivem no Brasil não são as calças jeans justas, as camisetas de mangas curtas

Sheila Sotero produz em seu ateliê em Betim, de onde vende localmente e pela internet, mas está pensando em abrir uma loja em Belo Horizonte. Com a marca Ssotero, ela leva as últimas tendências de moda para as peças islâmicas, usando tecidos e cores em alta, colocando nas abayas, túnicas e hijabs adereços como apliques e bordados. “Elas querem roupas modernas, mas que não fujam da essência”, explica Sheila, sobre questões que observa para confeccionar, como o não uso de transparência ou de medidas ajustadas.

Sheila é filha de uma estilista e modelista. Já na infância ela copiava os desenhos que a mãe fazia. Muitas vezes a mãe passava as ideias da menina para o papel para serem usadas no trabalho. 

A mineira já ganhou concurso de estilistas, teve suas peças em desfiles e tem quase três mil seguidores nas redes sociais atualmente. Apesar de confeccionar também roupas convencionais, a estilista e empreendedora pretende se focar bastante na moda islâmica. Ela desenha e produz as peças de sua marca, mas conta com a ajuda de costureiras.

Maison dos caftans

Na loja da Maison Alexandrine, um casarão num dos bairros do comércio fino em São Paulo, o Jardim Paulista, as abayas dividem espaço com os outros tipos de roupas da grife. A dona e estilista da marca, Alexandra Fructuoso, afirma que essas peças são uma parte pequena do todo e que são vendidos ao redor de dois caftans (como ela chama as abayas) ao mês. “Mas temos sempre uma variedade de estilos de, no mínimo, seis modelos, e, claro, podemos adequar cores e exuberância conforme o gosto da cliente”, diz Alexandra.

A nova coleção de abayas da Maison é colorida e com tecidos texturizados, uma proposta condizente com o momento que os países islâmicos estão passando, de liberação da mulher, segundo Alexandra. “É por isso que resolvi seguir uma linha mais alegre e usar a fantasia dos tecidos casando com um ou outro modelo mais acinturado quando usado um cinto”, diz.

A dona da Maison Alexandrine conta que quando projetou a marca pensou no Oriente Médio como um dos mercados nos quais gostaria de atuar. “Em especial a Arábia Saudita, já que considero um povo muito culto, viajado e engajado no que diz respeito à moda e sofisticação”, relata. A partir dessa vontade, ela foi buscando e encontrando os meios para vender ao mercado árabe e passou a produzir as abayas pensando nisso. No ano passado, a marca participou da primeira Semana de Moda Árabe da Arábia Saudita, em Riad.

Alexandra lembra que a abaya é uma vestimenta típica e tradicional, mas que as muçulmanas usam outros tipos de roupas, como de festas e prét-à-porter, debaixo destas. “O que torna a nossa marca cem por cento perfeita para as mulheres mais elegantes e de bom gosto”, diz.

Além de oferecer peças de outros tipos para islâmicas, a Maison Alexandrine vende a moda islâmica para não muçulmanas. “As abayas também são caftans que deixam as mulheres elegantes e charmosas na época do verão. É uma peça de roupa já usada, que hoje, com a modernidade do Oriente Médio, se encaixa perfeitamente no dia a dia. Afinal, o mundo é uma aldeia global”, diz Alexandra. Segundo ela, as peças podem ser usadas em resorts, praias e barcos com maiô ou biquíni. “E até para uma festa mais descontraída, quando trabalhamos o caftan bordado que leva o brilho que uma grande parte das mulheres gosta”, diz.

Uma opção

As roupas usadas pelas muçulmanas variam bastante no Brasil. Há desde as que vestem os vestidos longos e lenços todos os dias, até as que apenas usam roupas mais comportadas, que não deixam as curvas à mostra. “Está escrito no Alcorão Sagrado que as mulheres devem se vestir de forma recatada e esconder seus adornos. 

Mas isto não pode ser imposto a nenhuma mulher, ficando ela livre para decidir quando e como iniciar a usar as vestes islâmicas”, conta a muçulmana Soha Chabrawi. As muçulmanas usam as vestes tradicionais dentro das mesquitas. “A mesquita é a casa de Deus e tem que ser respeitada. Isto significa usar vestimentas islâmicas dentro da mesquita”, diz.

Soha Chabrawi afirma que conhece apenas uma loja física na capital paulista que vende vestes islâmicas femininas e que tem confecção própria. Ela conta que há muitas pessoas que trazem as peças do Líbano, Egito, Turquia, Síria e outros países islâmicos para o Brasil e comercializam em suas casas, mesquitas, encontros de muçulmanos, e mais recentemente, pela internet.

Contatos:

iCovered – Beatriz Kehdy e Alessandra Melo
Vendas no espaço colaborativo Carol Martini
Praça Benedito Calixto, 165 – Jardim Paulista -São Paulo – SP
Telefone +55 (11) 97651 5522
E-mail: icoveredstyle@gmail.com
Faceboolk aqui
Instagram aqui

Karla Silva
Taubaté – São Paulo
Telefone: +55 (12) 988898395
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Ssotero – Sheila Sotero
Betim – Minas Gerais
Telefone: +55 (31) 986727912
Facebook aqui

Maison Alexandrine
R. Luís Machado Pedrosa, 59 – Jardim Paulista, São Paulo – SP
Telefone: +55 (11) 28289733
Site aqui
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