Síria: Fortaleza medieval retoma função original no século 21

Crac des Chevaliers, castelo dos cruzados na Síria, foi ocupado durante dois anos por grupos armados e danificado nos combates. Do alto da montanha, o monumento domina o Vale dos Cristãos

Alexandre Rocha

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Al-Nasrah (Síria)

A equipe de jornalistas de diferentes países convidados pelo Ministério do Turismo da Síria para visitar o país saiu de Palmira já tarde da noite do dia 30 de agosto rumo a Al-Nasrah, cidade de maioria cristã em meio a montanhas, 216 quilômetros a oeste dali.

O comboio de dois micro-ônibus, uma van e um carro parou no meio do caminho, já por volta da meia noite, para que o pessoal pudesse comer e beber algo num estabelecimento simples, mas bem abastecido, à beira da estrada. Alguns comeram sanduíche de falafel, batatas fritas, outros beberam água, refrigerantes ou cerveja.

Nas proximidades de Al-Nasrah o comboio se desfez, pois os profissionais de imprensa foram divididos em diferentes hotéis. A região é cheia de estradas sinuosas que sobem e descem as encostas dos morros, e o motorista do micro-ônibus com a reportagem da ANBA e jornalistas argentinos acabou se perdendo.

Com dificuldade para encontrar o Hotel Amar, local da hospedagem, o grupo seguiu madrugada adentro meio sem rumo, parando a todo momento para pedir informações. Isso gerou um clima de apreensão, afinal a Síria é um país ainda em conflito e combates ocorriam na região de Idlib, pouco mais de 170 quilômetros ao norte dali.

Depois de um bom tempo, dois rapazes numa moto foram bastante prestativos e guiaram o grupo montanha acima até o hotel. Já eram 03 horas da manhã.

Al-Nasrah fica numa região eminentemente turística, repleta de hotéis que oferecem belas vistas das montanhas e dos vales abaixo. Com a guerra, o setor de turismo sofreu muito e dois estabelecimentos visitados pela reportagem tinham poucos hóspedes, apesar do céu azul e sem nuvens, do forte calor e das piscinas convidativas.

Fortaleza

A principal atração por lá é o Crac des Chevaliers (“Fortaleza dos Cavaleiros”, em tradução livre, ou “Qal’at Al-Hosn”, em árabe, o “Castelo da Fortaleza”), principal tema da terceira reportagem da série da ANBA sobre a Síria. Era um dos castelos medievais mais bem preservados do mundo antes da guerra iniciada em 2011 – e é o próprio estereótipo de um castelo medieval -, considerado Patrimônio da Humanidade pela União das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e incluído na lista de Patrimônio Mundial em Perigo da instituição em 2013.

Alexandre Rocha/ANBA
Parte mais interna do complexo do Crac des Chevaliers

Foi construído e ocupado pelos Cavaleiros de São João, a ordem dos Hospitalários, de 1142 a 1271, no alto de uma montanha, onde antes já havia um forte. É um dos vários castelos construídos pelos cruzados europeus na Síria e na Palestina. Foi tomado em 1271 pelo sultão mameluco Al-Zahir Baibars e os novos ocupantes seguiram adicionando construções ao castelo.

Como os cruzados na Idade Média, insurgentes jihadistas se encastelaram ali e de lá combateram o exército sírio. O castelo foi retomado em março de 2014 após dois anos de ocupação, e foi danificado nos confrontos. Em 31 de agosto, quando a reportagem da ANBA visitou o lugar, as partes mais internas da fortaleza estavam fechadas à visitação, e uma das torres tinha um buraco no teto e entulho no chão logo abaixo. Havia, na ocasião, alguns turistas do Líbano e da própria Síria.

O monumento, porém, não perdeu sua majestade e mostrou que suas paredes continuam firmes, apesar da idade. Suas muralhas e torres imponentes impressionam, e do alto dominam o Wadi Al-Nasara, o Vale dos Cristãos. A vista de lá é de tirar o fôlego.

Se o castelo sofreu danos, o vilarejo no pé do morro, “Al-Hosn” (“A Fortaleza”, em referência ao sítio), de população majoritariamente muçulmana, foi deixado em ruínas após os combates, e hoje lá não há praticamente ninguém.

Vale lembrar que a guerra na Síria provocou a fuga de 5,6 milhões de pessoas do país desde 2011, que se refugiaram principalmente nos vizinhos Líbano, Jordânia, Iraque e Turquia; mais 6,6 milhões de deslocados internos, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur); e pelo menos 400 mil mortes, também de acordo com a ONU.

São Jorge

Ainda na mesma região há o Monastério de São Jorge, cristão ortodoxo. Sua fundação ocorreu entre os séculos 04 e 06, e vestígios deste período podem ser vistos no subsolo. A antiga igreja do local, no térreo, é provavelmente da época das Cruzadas, segundo informações do Patriarcado Ortodoxo Grego de Antioquia e Todo o Oriente, com sede em Damasco. Os prédios mais novos são da segunda metade do século 19, incluindo mais uma igreja. O complexo também já abrigou uma escola. São Jorge é o santo mais popular entre os cristãos do Oriente Médio.

O dia ainda rendeu uma visita a uma rua comercial de Al-Nasrah, pouco pujante e sem grande variedade de produtos. Destaque, porém, para a loja XO, de moda jovem Made in Syria. Oferece camisetas com estampas descoladas e com dizeres em árabe estilizados muito bonitos.

Na manhã seguinte, o grupo de jornalistas deveria ter partido para Alepo, maior cidade do país, mas a viagem foi cancelada sob a justificativa de que existia algum risco, com a notícia de um bombardeio na região. O comboio seguiu então para Latákia, cidade portuária no Mediterrâneo.

*A estadia da reportagem da ANBA ocorreu a convite do Ministério do Turismo da Síria

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