Do fascismo ao futebol: o Brasil que neonazista norueguês odiava vai a campo contra seu país
Anders Behring Breivik, autor do maior atentado da Noruega, definia país sul-americano como 'anti-exemplo' da Europa; quinze anos depois, nações se reencontram nas oitavas de final da Copa de 2026
Há exatos quinze anos, a Noruega viveu o maior atentado de sua história, em um ataque motivado pelo ódio à diversidade – e com o Brasil como um de seus principais alvos retóricos. Foi em 22 de julho de 2011 que o neonazista norueguês Anders Behring Breivik, na época com 32 anos, matou 77 pessoas em apenas um dia – 69 delas adolescentes ligados ao Partido Trabalhista Norueguês, que acampavam na ilha de Utoya.
No mesmo dia do atentado, Breivik foi encurralado pela polícia de Oslo. Levado ao interrogatório, confessou seus crimes: disse que agiu para livrar a Europa Ocidental de uma suposta “invasão muçulmana” e que o Partido Trabalhista precisava “pagar o preço” por ter “decepcionado a Noruega”.
Em 2012, foi condenado pelos crimes e recebeu, por unanimidade, a pena máxima da Constituição norueguesa: 21 anos de prisão, com a possibilidade de extensão indefinida enquanto for julgado uma ameaça à segurança pública. Dez anos depois, em 2022, a Justiça negou seu pedido de liberdade condicional, determinando que continue atrás das celas por tempo indeterminado.
Chama a atenção que, antes do atentado, o assassino deixou um manifesto de 1.518 páginas. Nele, dedicou 12 citações ao Brasil para usá-lo como o grande “anti-exemplo” do que a Europa jamais deveria se tornar. Para ele, como descreve no documento, o país sul-americano era a personificação do fracasso, pois entendia a miscigenação como uma “catástrofe” que teria produzido um país de “segundo mundo” – expressão usada pelo próprio – com “nível extremamente pobre de coesão social” e baixa produtividade.
Mas essa visão, segundo especialistas, é mais rasa do que parece. Para o filósofo e historiador Carlos Hortamann, que pesquisa sobre neofascismo, a relação da extrema direita europeia com o Brasil carrega contradições que o discurso de Breivik não capta. A Opera Mundi, o acadêmico avaliou que o extremismo de direita na Europa tende a enxergar o país sul-americano com “ambivalência”.
Apesar de o Brasil aparecer como “anti-exemplo” porque seria um país “miscigenado”, diverso e culturalmente heterogêneo, justamente o que o imaginário supremacista branco entende como ameaça ao que chama de “pureza europeia”, o especialista aponta haver certas nuances.
Primeiramente, Hortamann explica que há setores da extrema direita europeia, por exemplo, em Portugal, que podem tentar apresentar brasileiros como “aliados táticos contra a suposta ‘islamização’ da Europa, explorando o fato de muitos brasileiros serem cristãos”, motivo pelo qual descreve os neofascistas como “astutos” e “perigosos”.
Em um segundo ponto, avalia que a concepção de Breivik sobre o Brasil exige cautela histórica, uma vez que a diversidade brasileira foi produzida dentro de “uma história brutal de colonização, escravidão, genocídio indígena e projeto de embranquecimento”.
Outro equívoco apontado por Hortamann é o argumento usado por Breivik em seu manifesto, no momento em que associa o fluxo de imigrantes à baixa produtividade. O pesquisador destaca que o capitalismo europeu depende da força de trabalho imigrante, mas que setores reacionários fomentam uma narrativa para culpar a categoria pelo desemprego, pela precariedade e pela crise dos serviços públicos.
Desta forma, ele define o projeto do norueguês e a sua ideia de “pureza europeia” como uma “fantasia política”.

Neonazista norueguês Anders Behring Breivik, que matou 77 pessoas, cumpre 21 anos de prisão
X/@ZamHaberAjans
Ameaça existencial
Já a professora Teresa Almeida Cravo, que leciona no curso de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e é investigadora do Centro de Estudos Sociais, concorda que Breivik não pode ser tratado como um caso isolado, uma vez que seu manifesto dialoga com ideias que circulam amplamente na Europa. Para ela, os valores do norueguês expõem um sintoma de algo muito maior.
“Esta visão não é exclusiva de Breivik. Grande parte da extrema direita europeia constrói uma narrativa de que a diversidade representa uma ameaça existencial. A imigração, o multiculturalismo e a miscigenação são apresentados, não como uma riqueza, mas como fatores que supostamente levarão ao desaparecimento das identidades nacionais e daquilo a que chamam de ‘civilização europeia’”, explica a docente.
Ainda de acordo com ela, o “imaginário de completa homogeneidade” não corresponde à realidade histórica, uma vez que o continente europeu sempre foi espaço de migrações, cruzamentos culturais e transformações identitárias.
“Breivik não rejeitava apenas o Brasil enquanto país: rejeitava a própria ideia de que sociedades diversas e heterogêneas podem existir, prosperar e construir identidades nacionais inclusivas”, afirma.
‘Comunidade imaginária homogênea’
O historiador Hortamann explica que, historicamente, o projeto fascista, incluindo o neofascismo, forja uma “comunidade imaginária homogênea” baseada em critérios de nacionalidade, branquitude, cristianismo e pertencimento europeu. Consequentemente, tudo o que escapa desse molde é tratado como ameaça e, por isso, é alvo de desumanização e inferiorização.
“A extrema direita rejeita precisamente essa ‘mistura’ histórica, convertendo diferenças culturais em hierarquias raciais disfarçadas de discurso civilizacional ou culturalista”, aponta.
Da mesma forma, a professora Almeida Cravo destaca que o neofascismo não apenas fala de “superioridade racial”, mas substitui essa linguagem por conceitos como “identidade cultural”, “preservação civilizacional” ou “incompatibilidade cultural e/ou religiosa”.
“Breivik levou esta lógica ao extremo através de níveis de violência chocantes, mas muitas das categorias presentes no seu manifesto – como a teoria da substituição populacional ou o medo da perda da identidade europeia – continuam hoje a circular em setores da extrema direita europeia, em alguns casos com influência crescente”, afirma ela, apontando que diversos partidos políticos europeus na atualidade têm adotado discursos xenófobos e racistas, fato que pode contribuir para uma eventual normalização da narrativa no debate público.
No contexto da Copa
Hoje, quinze anos depois, a história entre Brasil e Noruega volta a se cruzar. Contudo, agora, no esporte, em clima eufórico. Neste domingo (05/07), os brasileiros e noruegueses se enfrentam nas oitavas de final pela Copa do Mundo de 2026, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados unidos.
De um lado, a seleção verde-amarela esbanjando carisma com o seu futebol; do outro, os noruegueses que recentemente têm chamado a atenção do mundo, inclusive dos brasileiros, com a sua torcida que remete à remada dos antigos vikings.
É justamente essa imagem de diversidade em campo e alegria compartilhada entre países, cada um com as suas respectivas culturas, que Breivik discordaria.
“O esporte é uma vitrine das transformações sociológicas da Europa nas últimas décadas. Quando vemos seleções com suecos, noruegueses, alemães, franceses ou ingleses negros, socialmente não brancos e filhos de imigrantes, vemos algo que a extrema direita não suporta: a Europa real já é diversa, trabalhadora, imigrante e étnico-racial heterogênea”, afirma Hortamann.
Para Almeida Cravo, o futebol é um espaço onde as fronteiras identitárias simplesmente não se sustentam. A professora associa as seleções europeias da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, e até a própria Noruega, a um reflexo vivo de sociedades diversas, atravessadas por migrações e heranças coloniais.
“No fundo, o futebol lembra-nos que as identidades nacionais não são estáticas nem biologicamente definidas. São construções históricas em permanente transformação. Nesse sentido, o futebol torna visível aquilo que Breivik mais temia: que as nações europeias são, de fato, sociedades diversas e que essa diversidade é hoje parte constitutiva da sua identidade”, pontua a professora.
























